Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Ler, escrever e viver

Ler, escrever e viver

Vista chinesa de Tatiana Salem Levy

Design sem nome (1).png

Nos últimos dois anos, tenho descoberto uma série de autoras sul-americanas de que tenho gostado muito: Tati Bernardi com o seu «E a louca sou eu», Pilar Quintana com «A cadela» e «Os abismos» e agora Tatiana Salem Levy. Também li «A pediatra» de Andréa del Fuego, mas confesso que não gostei tanto.

«Vista chinesa» é baseado na história verídica de uma amiga da autora, que foi violada na vista chinesa, uma zona onde há muita gente a fazer jogging e ciclismo no Rio de Janeiro. O livro está escrito na primeira pessoa, sob a forma de uma carta dirigida aos filhos.

Eu me perguntava, e se eu fingir que nada aconteceu? Se eu me convencer de que nada aconteceu? Aí nada terá acontecido. Vou parar de tomar o coquetel, porque não houve nada, foi só um pesadelo, um equívoco, uma vírgula mal colocada, que eu agora vou desviar da minha história.

Apesar de curto (tem menos de 100 páginas na versão física), é um relato cru e duro de ler. Depois do sucedido, esta mulher passa por todo o processo de denunciar o caso à polícia. Se inicialmente lhe é dito que há um protocolo a cumprir e que ela não vai estar sozinha com vários polícias (homens), rapidamente a polícia esquece o protocolo e ela está num carro da polícia sem a delegada para mostrar onde decorreu o crime. Além disso, durante todo o processo, a polícia está constantemente a duvidar do relato dela (ao ponto de ela também duvidar dela própria) e mais interessada em prender alguém, quem quer que seja, mesmo que não o culpado do caso, para poder dar aquele processo por encerrado.

Eu pensava: há coisas piores na vida. Há pessoas que perdem o filho num acidente de carro. Há pessoas que perdem a família inteira no desabamento de uma encosta. Há pessoas que perdem o movimento das pernas. Há pessoas que perdem um braço ou uma perna. Os dois braços e as duas pernas. Há pessoas que sofrem queimaduras e ficam completamente desfiguradas. Há pessoas que são estupradas por dez sujeitos no mesmo dia. Mas a dor dos outros não diminuía a minha.

A única coisa de que não gostei foi do final algo abrupto do livro mas, de resto, quero ler mais livros desta autora.

2 comentários

Comentar post