Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Ler, escrever e viver

Ler, escrever e viver

Uma vida para amar: tudo o que uma esposa de 1964 devia saber

mar-maio.png

«Uma vida para amar» é um livro de 1964, traduzido do italiano e publicado em Portugal pela mesma altura. Foi um dos livros pré 25 de Abril que descobri aqui por casa e achei que merecia uma menção aqui no blog, porque há passagens verdadeiramente tenebrosas.

Logo na introdução, a autora Luisa Guarnero avisa que “algumas noções de carácter rigorosamente científico poderiam tornar-se árduas para a mentalidade feminina não especificamente preparada”. Por outras palavras, conceitos complexos foram simplificados para poderem ser entendidos por mulheres que são, afinal, o público-alvo deste livro sobre casamento e maternidade.

Seria injusto não dar algum crédito a este livro porque, assumo que alguns capítulos sobre o ciclo menstrual, a preparação para o parto e como cuidar de um bebé possam ter alguma utilidade para mulheres naquela altura.

São, claro, os comentários típicos da época que me levaram a ler este livro, como este sobre o que significa a noite de núpcias:

Matrimónio não significa de modo nenhum para a esposa renúncia à própria pureza, trocando-a por um estado de vida sensual e pecaminoso; nem a oferta da virgindade como voluntária submissão, dom jubiloso de si própria, que é expressão e símbolo de um dom mais completo, o de uma vida inteira, ao homem amado e aos filhos, e ao mesmo tempo um enriquecimento da própria personalidade da mulher, da própria feminilidade, precisamente porque na vida humana nada se realiza e se conquista se não através do sacrifício.

Outra sobre a consumação do acto conjugal:

Insisto sobre o recurso imediato a um ginecologista porque em determinados casos poderá ser aconselhável uma pequena incisão cirúrgica para facilitar a consumação do acto conjugal.

Sobre o matrimónio e a maternidade:

Já terás ouvido dizer e repetir que o amor na mulher tem um fundamento materno, e que o mesmo instinto materno encontra a sua primeira satisfação no amor pelo marido (…) E para a mulher representa certamente uma ajuda, em particular quando o acto conjugal se revela um sofrimento ou de qualquer maneira não seja a verdadeira fonte das doces emoções sonhadas. Está na natureza providencial das coisas que, enquanto o homem chega constitucional, mas fácil e imediatamente a realizar uma plena correspondência de sentimento e de satisfação erótica, a mulher é principalmente preparada pela sua natureza materna.

Sobre trabalhar versus ser dona de casa:

Quando uma mulher decide casar, geralmente qualquer que seja o seu trabalho, (...) tem que encarar a alternativa de escolher entre a carreira profissional e o dever de mulher, de mãe, de dona de casa. São notáveis e frequentes os casos de mulheres que alcançaram a celebridade no campo profissional, artístico, cinematográfico e decidem cortar com todas as suas actividades para se dedicarem à sua missão feminina. Uma mulher sensata, normal, equilibrada, só continuará a trabalhar se o seu contributo económico for condição fundamental.

Depois do casamento, o livro debruça-se sobre a maternidade, nomeadamente sobre a infertilidade:

Um dos problemas que a ciência moderna propôs à consciência dos casais estéreis é o da «fecundação artificial». Afirmarei energética e brevemente que, qualquer que seja a forma de inseminação artificial, é considerada ilícita pela moral e obviamente pela Igreja. (...) Todos estes meios, que são chamados anticoncepcionais, privam o acto de atingir o seu fim natural e são imorais.

Sobre o papel do homem na gravidez e maternidade:

A nova vida humana (...) milagre envolvido em tanto mistério que escapa quer aos poderes da razão quer aos da vontade do homem, que deve limitar-se ao papel de «co-creator» e de «colaborador».

Sobre o parto e o papel da mulher no mesmo:

Devem vencer com pleno domínio de si próprias, sem gritos inúteis e enervantes, sem lamentações ou invectivas, a fadiga ainda que muitas vezes dolorosa do trabalho de parto.

Claro que na secção da maternidade, quase tudo (se não tudo) é sobre o papel da mulher como mãe e nada é dito sobre o papel do homem como pai.

No ano em que celebramos os 50 anos sobre o 25 de Abril nunca é demais lembrar o longuíssimo caminho que as mulheres percorreram deste este livro até aos dias de hoje.

7 comentários

Comentar post