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Uma questão de pronomes (ou de respeito)

No mês de Maio a Dom Quixote publicou «O desassossego da noite» de Marieke Lucas Rijneveld, vencedor do Man Booker International Prize. Ouvi falar pela primeira vez deste livro no podcast Anatomia do livro e conta a história de uma rapariga que cresce numa vacaria na zona rural dos países baixos e cuja família se vai desmoronando após a morte do irmão.

A promoção do livro centrou-se, em Portugal, na ideia de que Marieke é "a mais jovem escritora a receber o Man Booker Prize". A editora do livro (Maria do Rosário Pedreira) escreveu no seu blog este post:

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Primeiro uma senhora escritora, depois uma menina. Em toda a promoção da Dom Quixote, Marieke surge como "a escritora". Esta referência aparece até no próprio livro. Acontece que, em várias entrevistas, nomeadamente ao New York Times, Marieke explicou que aos 23 anos acrescentou o segundo nome de Lucas, porque não se identifica como homem, nem como mulher:

"I asked myself if I wanted to be a boy, a girl, or something in between,” they said. “I decided I wanted to be in between.”

Em todos os artigos feitos lá fora (ou pelo menos aqueles que li), aparece uma referência ao pronome "they" em inglês. Eu sei que a questão dos pronomes confunde muita gente, como tudo o que implique algum tipo de mudança. Mas acho que é uma questão de respeito referirmo-nos às pessoas como elas querem ser tratadas.

Ora, acontece que várias pessoas no instagram (Aqui e aqui) repararam na promoção desadequada deste livro e enviaram comentários à Dom Quixote. As mensagens foram ignoradas e os comentários apagados. Algumas pessoas foram bloqueadas das redes sociais da editora.

Confesso que inicialmente pensei que a editora provavelmente não sabia que Marieke se identifica como pessoa não binária. Pelos vistos, sou ingénua. A Dom Quixote partilhou no facebook um artigo da visão sobre este tema no dia 20 de Maio.

marieke-dom-quixote.JPG

Em reposta a algumas pessoas no instagram (a mim não me responderam), a editora escreveu isto:

Respeitamos e agradecemos que partilhe a sua opinião assim como a de todos os leitores e todos os comentários são bem-vindos desde que os consideremos adequados. Pretendemos com esta página divulgar os livros e os autores que editamos e a divulgação da sua obra é o mais importante.

Primeiro, se todos os comentários são bem-vindos desde que a Dom Quixote os considere adequados, significa que os comentários referentes à identidade de Marieke (que foram eliminados, ignorados, etc), são desadequados. Segundo, a divulgação da obra é o mais importante. Está certo. Mas partilharam o artigo da visão na vossa página do facebook... Além disso, divulgar a obra implica respeitar quem a escreveu, ou não?

Parece-me bastante evidente que a Dom Quixote sabia da questão da identidade de Marieke e que simplesmente decidiu ignorar o assunto. Uma espécie de "queremos vender os teus livros, mas recusamo-nos a aceitar-te como és". Acho triste e recuso-me a aceitar que é uma questão de opinião. Na verdade, acho que a opinião da Dom Quixote, ou da Maria do Rosário Pedreira sobre o assunto é absolutamente irrelevante. É uma questão de respeito. A editora escolheu editar e promover «O desassossego da noite». Parece-me que o mínimo é respeitar quem está por detrás da obra.

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