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Torto Arado de Itamar Vieira Junior

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«Torto Arado» segue a história de duas irmãs, Bibiana e Belonísia que são filhas de trabalhadores no sertão da Bahia. Um dia, ao remexer nas coisas da avó, uma delas sofre um acidente que vai mudar para sempre a vida das duas.

O livro divide-se em três partes, sendo que as primeiras são narradas por cada uma das irmãs enquanto a terceira é narrada por um espírito do sertão. Adorei as duas primeiras partes que exploram a relação entre as irmãs. Em vários momentos, fez-me lembrar a relação entre Lila e Lenú na tetralogia de Elena Ferrante, se bem que menos conturbada.

Não gostei tanto da terceira parte onde as personagens passam para segundo plano e se dá mais azo às questões políticas. Em «Torto Arado», os personagens vivem num sertão onde têm um pedaço de terra que podem cultivar e onde podem construir casa mas, no fim, tudo o que têm pertence ao dono da fazenda, a quem têm de dar uma parte do que cultivam todos os meses e para quem trabalham. Uma forma de escravatura, já depois dela ter sido oficialmente abolida no Brasil.

... nunca havia parado para pensar porque estávamos ali, o que poderia modificar nessa história, o que dependia de mim mesma ou o que dependeria das circunstâncias. (...) Nunca havia conhecido ninguém que me dissesse ser possível uma vida além da fazenda. Achava que ali havia nascido e que ali morreria, como acontecia à maioria das pessoas.

Não me incomoda que seja um livro político. No fundo, toda a literatura é política, mesmo quando não tem essa pretensão. O problema é que gostei tanto das duas irmãs, achei o acidente na primeira parte tão bem contado e desenvolvido em toda a narrativa que, na última parte, queria ter continuado a acompanhar a história destes personagens. De qualquer forma, é um livro extraordinário que me salvou, ainda que temporariamente, da dificuldade que tenho tido em ler ficção.

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