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Talvez devesses falar com alguém de Lori Gottlieb

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Eu já suspeitava que ia gostar muito deste livro, só pela premissa - uma terapeuta que decide fazer terapia e escreve sobre a sua história e dos seus pacientes. Não estava enganada. Apesar de estar classificado como “auto-ajuda”, esse conceito que em Portugal parece abarcar tudo e mais alguma coisa, «Talvez devesses falar com alguém» é, sobretudo, um livro de memórias, onde Lori fala sobre a sua vida e dos seus pacientes, analisando-as com a sua lente de psicoterapeuta.

Como terapeuta, sei muito sobre a dor, sobre como ela está ligada à perda. Mas também sei algo que, em geral, não é tão compreendido: que a mudança e a perda andam de braços dados entre si. Não podemos mudar sem perder, e é por isso que as pessoas dizem tantas vezes que querem mudar, mas ficam exatamente na mesma.

Há histórias mais interessantes do que outras, mas quase todas têm algum ponto de interesse, seja a da idosa que quer suicidar-se, do produtor de Hollywood que esconde um segredo ou da jovem com uma doença terminal. A verdade é que, mesmo com histórias diferentes, os problemas que levam as pessoas a fazer terapia são, quase sempre, semelhantes.

(…) por vezes digo-lhes “Se a rainha tivesse tomates, seria o rei”. Se formos demasiado exigentes na vida, se não reconhecermos que “o perfeito é inimigo do bom”, podemos privar-nos de alegria.

Neste momento, a rainha já é o rei (pelo menos no UK), mas a ideia percebe-se na mesma.

Acho curioso que uma crítica feita a este livro é não sabermos onde está a verdade e a ficção. Como é lógico, a autora mudou nomes e histórias para os seus pacientes não poderem ser reconhecidos pelos leitores. Não acho que isso prejudique o livro. As histórias são verosímeis e as notas de Lori sobre cada uma acabam por ser o “sumo” deste livro.

Há um ditado popular que é uma frase de um poema de Robert Frost: “A única saída é pelo meio”. A única maneira de chegar ao outro lado do túnel é atravessá-lo, não contorná-lo. (…) Os nossos eus mais jovens pensam em termos de princípio, meio e algum tipo de resolução. Mas, algures pelo caminho - talvez nesse meio - percebemos que toda a gente vive com coisas que podem não ser resolvidas. Que o meio tem de ser a resolução - e compreender o seu significado torna-se a nossa tarefa.

Nunca reparo nas traduções dos livros, a não ser quando estão mal feitas mas, neste caso, gostei bastante das notas da tradutora Sónia Maia. Uma ótima leitura, mesmo para quem não tem o hábito de ler livros de não ficção.

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