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MAR DE MAIO

Livros, viagens e tudo o que nos acrescenta

MAR DE MAIO

Livros, viagens e tudo o que nos acrescenta

The friend de Sigrid Nunez

Inês, 06.08.19

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Decidi que queria ler «The friend» por causa da sinopse. É a história de uma mulher que perde um amigo para o suicídio e que se vê obrigada a tomar conta do cão que ele deixou para trás, um dogue alemão chamado Apollo.

É um livro escrito na primeira pessoa em que acompanhamos o processo de luto desta mulher e também de Apollo que se vê, sem perceber como nem porquê, com um dono diferente, a viver numa casa diferente. É, pelo tema, um livro um bocadinho triste mas Apollo acaba por funcionar muito bem como um elemento cómico na história. Além de ser um livro sobre o luto (da dona e do cão) e sobre como estes dois personagens se apoiam mutuamente para o ultrapassar, é também um livro sobre escrita e sobre livros uma vez que a narradora é escritora.

E é também um livro sobre cães (e um bocadinho sobre gatos) e sobre o que significa tê-los como animais de companhia:

He wags his tail, and for the thousandth time I think how frustrating it must be for a dog: the endless trouble of making yourself understood to a human.

Este tema das pessoas se apoiarem em animais para ultrapassar momentos difíceis não é novidade. Aliás, no livro a autora faz referência a vários livros que envolvem animais. A mim lembrou-me, por exemplo, «A educação de Eleanor» que li no início deste ano em que a personagem principal, a certa altura, arranja uma gata que acaba por ser um elemento importante na vida da Eleanor.

Gostei muito do livro mas achei-o algo inconsistente, com alguns capítulos muito bons (que se focavam mais em Apollo) intercalados com outros que não acrescentam muito ao enredo. Ainda assim, recomendo a quem goste de animais (principalmente de cães) porque é uma história que merece ser lida e partilhada.

P.S. - Este livro foi lido para o tema do "Uma dúzia de livros" de Agosto - um livro escrito na primeira pessoa.

Estou viva, estou viva, estou viva de Maggie O'Farrell

Inês, 02.04.19

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Em «Estou viva, estou viva, estou viva» Maggie O’Farrell escreve sobre 17 experiências de quase-morte. Em cada capítulo, Maggie abre-nos uma janela de um momento da sua vida e partilha uma doença de infância, um encontro assustador num local isolado, um parto arriscado, entre outras experiências.

“Não há nada de único ou especial em experiências de quase-morte. Não são raras; toda a gente, diria eu, já as teve, a dado momento das suas vidas, talvez sem sequer se aperceberem. (…) Estamos, todos nós, a deambular num estado de ignorância inocente, a pedir tempo emprestado, a aproveitar os dias, a escapar aos destinos, a escapar por uma nesga, sem saber quando será dado o golpe. Como escreve Thomas Hardy: «Havia outra data… a  da sua própria morte; um dia que se ocultava, invisível, entre todos os outros dias do ano, sem dar sinal ou fazer som quando ela passava por ele, a cada ano; e ainda assim estava inteiramente presente. Quando seria?»”

Além de ser um livro fluido que dá muito gosto ler, esta edição da Elsinore tem uma capa maravilhosa. Cada capítulo é introduzido por uma ilustração anatómica da parte do corpo relacionada com aquela experiência em particular. Gostei tanto de o ler que a única crítica que tenho é que não o consegui largar e estas 250 páginas passaram completamente a voar pelas minhas mãos.

 

Acho que é difícil não nos relacionarmos com este livro. Todos nós já passámos por um mergulho no mar que poderia ter corrido muito pior ou um acidente de carro que ainda hoje nem sabemos como não acabou mal… Podemos ter passado por mais ou menos experiências assim e ler este livro é, não só relacionarmo-nos com algumas das experiências de Maggie, mas também revivermos as nossas. O ponto comum é que somos todos humanos. Mortais. Pessoas que, de uma forma ou de outra, não passam pela vida sem ter de lidar com a sua própria mortalidade. E, sempre que uma experiência destas nos atinge e saímos ilesos sabemos que tivemos uma sorte do caraças. Estamos vivos, estamos vivos, estamos vivos.

My sister, the serial killer de Oyinkan Braithwaite

Inês, 25.02.19

Este livro começa com a personagem principal, Korede, a ser chamada pela irmã para limpar uma cena de crime. A irmã, Ayoola, matou o namorado. Já é a terceira vez que isso acontece o que faz dela oficialmente uma serial killer.

Femi makes three you know. Three and they label you a serial killer.

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A história passa-se na Nigéria onde Korede é enfermeira e divide os seus dias entre os pacientes do hospital onde trabalha e a vida familiar. Depois da morte do pai, Korede vive com a mãe e a irmã numa dinâmica onde a família está acima de tudo. É, por isso, que ao longo do livro vamos acompanhando o dilema de Korede: deve ou não denunciar a irmã pelos crimes que cometeu (e que poderá continuar a cometer)? 

Gostei muito deste livro que, apesar de ter um tema algo sério e de se focar na relação complicada entre as duas irmãs, me fez rir em muitos momentos. É uma mistura de crime/drama com comédia que se lê muito bem. Além disso, dá-nos a conhecer a dinâmica familiar rígida da cultura nigeriana. Não é um livro extraordinário, ou não fosse o primeiro desta autora, mas é um ótimo começo e vou certamente querer ler os próximos livros que venha a publicar.

P.S. - Infelizmente, não está traduzido em Portugal, mas a versão em inglês de capa dura está na wook. Este livro foi a minha escolha de Fevereiro para o projeto literário da Rita da nova "Uma dúzia de livros". O tema era sobre famílias.

A menina que sorria contas de Clemantine Wamariya

Inês, 26.01.19

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Se houver uma lista dos filmes aos quais é impossível ficar indiferente, o hotel Ruanda deve estar no topo. Para Clemantine, aquele era o hotel onde costumava ir nadar. Clemantine viveu na pele o genocídio e fugiu, com a irmã, para se tornar refugiada. Muitos anos depois, acabou a viver nos Estados Unidos e a participar num programa da Oprah. O vídeo correu o mundo pelas melhores razões. 12 anos depois de fugirem do Ruanda, Clemantine a irmã reencontram os pais que achavam mortos no genocídio.

Na realidade, a história de Clemantine é muito mais longa do que estes parágrafos. Quando foge do Ruanda com a irmã e se torna refugiada, passa por vários países africanos e vários campos de refugiados com condições péssimas. A irmã Claire está determinada a não se conformar e tenta sempre arranjar uma saída para um sítio um bocadinho melhor. Foi essa determinação que fez com que acabassem nos Estados Unidos.

Para mim, o melhor deste livro não são estas vivências que se vão tornando um bocadinho repetitivas, mas sim a parte em que Clemantine chega aos Estados Unidos. A forma como se tenta adaptar a um país e cultura completamente diferentes da realidade onde cresceu. E depois daquele programa da Oprah, onde reencontra os pais, a forma como tenta recuperar com eles uma relação que ficou parada durante décadas.

Este é um livro que é difícil ler nalguns momentos porque é duro, crú. Mas é um livro necessário porque a história de Clemantine é apenas uma de muitas e porque o tema dos refugiados é (infelizmente) muito atual.

É estranho como se começa por ser uma pessoa longe de casa e se passa a ser uma pessoa sem casa. O lugar que, supostamente, nos devia receber expulsa-nos. Nenhum outro lugar nos acolhe. É-se indesejado, por toda a gente. É-se um refugiado.

 

P.S. - Este post faz parte do projeto literário da Rita da nova "Uma dúzia de livros".