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MAR DE MAIO

Livros, viagens e tudo o que nos acrescenta

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Livros, viagens e tudo o que nos acrescenta

Photoark: a exposição de Joel Sartore

Inês, 26.03.19

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Photoark é o projeto fotográfico de Joel Sartore que tem como objetivo fotografar todas as espécies animais num estúdio para alertar para a importância da sua conservação. Um dos objetivos é mostrar que, apesar de haver espécies de que gostamos mais (como os felinos ou os pandas) todas as espécies merecem ser conservadas.

 

É uma exposição pequena mas vale a apena, não só pelas fotografias, como também pelo documentário que é exibido numa das salas e pelos pequenos filmes que vão passando em alguns ecrãs. Algumas expressões que Joel conseguiu captar nestas fotografias fazem-nos sorrir, outras fazem-nos pensar. Os vídeos mostram as tentativas (muitas vezes frustradas e sempre engraçadas) de tentar manter animais selvagens parados num estúdio para as fotografias.

 

Esta exposição da National Geographic está em Lisboa, na Cordoaria Nacional, até dia 5 de Maio. Mais informação aqui.

Frida Kahlo: uma exposição de fotografia

Inês, 24.07.18

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Confesso que não sabia muito sobre Frida Kahlo até ter decidido ir ao Porto ver a sua exposição de fotografia. Conhecia os seus auto-retratos mas pouco sabia sobre a sua vida. Não sabia que quando tinha apenas seis anos, Frida sofreu de poliomielite, que a deixou com uma perna mais curta do que a outra e a coxear. Os vestidos compridos que usava tornaram-se uma forma de disfarçar isso. E com 18 anos, o autocarro escolar onde seguia colidiu com um elétrico e Frida sofreu mais de 20 fraturas. Passou cerca de um ano de cama e foi aí que começou a pintar os seus quadros.

Ao longo da vida, Frida teve mais de 30 cirurgias e toda a sua vida foi marcada pela dor, desde ter sofrido vários abortos, até ter perdido a sua mãe com cancro. Casou com Diego Rivera, mas nem aí as coisas foram tranquilas. Os dois acabaram por se divorciar e por casar novamente e ambos tiveram amantes.

Tanto a sua relação amorosa conturbada quanto a dor física que durou toda a sua vida (sofreu a amputação da perna direita em 1953 com 46 anos e morreu no ano seguinte) serviram de matéria para as suas pinturas.

Ainda assim, talvez o mais extraordinário sobre a sua vida seja a referência constante das pessoas que a conheciam à sua alegria de viver. Frida vivia constantemente, 24 sobre 24 horas com níveis de dor física difíceis de imaginar mas pintava, muitas vezes deitada na cama, viajava, juntava-se com amigos e familiares e mantinha uma série de animais exóticos que apareciam nas suas pinturas. Viveu até ao último dia da sua vida e não há melhor vingança (para as coisas más da vida) do que essa.

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Esta é uma exposição que não podem mesmo perder. Está no centro português de fotografia do Porto até ao dia 4 de Novembro.

A Coreia do Norte pelo olhar de Hyeonseo Lee

Inês, 24.04.18

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Hyeonseo Lee e a mãe tinham acabado de levantar dinheiro num multibanco. Era o primeiro dia da mãe na Coreia do sul. Para trás, tinha ficado a vida na Coreia do Norte. Hyeonseo avança pela rua e repara que a mãe ficou para trás, parada a olhar o multibanco.

“Nunca poderia imaginar uma coisa destas - foi o seu comentário.

Pensou que lá atrás, escondido dentro da parede, estava um caxeiro muito pequenino que contava as notas a uma velocidade vertiginosa.

- Coitado, preso ali dentro sem ter uma janela.

Omma (mãe), é uma máquina.”

Lee contou esta história, entre muitas outras, no National Geographic Summit. A plateia riu-se.

“Tem graça, sim. Eu também me ri. Mas esta história mostra que sair da Coreia do Norte não é como sair de qualquer outro país. É como passar de um universo para outro. Por muito longe que vá, nunca me sentirei totalmente liberta."

A ativista continua, num inglês com sotaque forte, a contar a sua história. Gostei tanto de a ouvir que não resisti a comprar o livro de memórias que escreveu "A mulher com sete nomes". A primeira surpresa chegou logo nas primeiras páginas. Lee conta a história de como os pais se conheceram numa viagem de comboio, de como se apaixonaram e de como um amor inicialmente proibido pelos pais de ambos acabou por vingar. A história não podia ser mais banal. É só a narrativa mais recorrente de todos os filmes, músicas e peças de teatro românticas desde sempre. Pelos vistos, até na Coreia do Norte.

O livro está dividido em três partes. Hyeonseo começa por narrar a infância e adolescência vividas na Coreia do Norte, que termina com a fuga para a China, onde passa longos e penosos anos a viver ilegalmente e, por fim, a sua vida livre na Coreia do sul.

Desde a sua entrada na escola primária que Hyeonseo, assim como todos os norte-coreanos, é ensinada a seguir todas as normas do regime. Venerar o grande líder, odiar os norte-americanos e pôr de lado a individualidade em nome do bem comum. Mais do que isso, é na escola que as crianças aprendem a vigiar-se umas às outras e a criticar alguns comportamentos menos corretos dos colegas o que, no futuro, os tornará denunciadores dos seus próprios vizinhos, familiares e amigos.

Não nos era permitido ter ideias próprias, nem discutir ou interpretar qualquer assunto.

Hyeonseo vê coisas terríveis nos anos 90 quando a fome atinge o país em força. Mas é, apesar de tudo, privilegiada porque a sua família tinha rendimentos acima da média. Foge para a China mais por curiosidade, do que por necessidade. Quer ver o mundo para lá da escuridão da Coreia do Norte. Já tinha ideia, antes de ler o livro, que a China deportava os norte-coreanos para o seu país de origem onde são executados ou levados para campos de concentração. Ainda assim, não deixa de ser chocante o trabalho a que se dão para os encontrar e a forma fria e insensível como o fazem. Hyeonseo descobre que a vida como fugitiva na China não é melhor do que a vida na Coreia do norte.

Por fim, Hyeonseo consegue ir viver para a Coreia do Sul. No entanto, a adaptação a uma vida de liberdade como refugiada norte-coreana é bem mais difícil do que pensara.

Mesmo para aqueles que lá sofreram horrores inimagináveis e conseguiram fugir ao inferno, a vida no mundo livre pode ser tão difícel que se vêem obrigados a lutar com denodo para se adaptarem e serem felizes. Alguns, poucos, desistem e optam por regressar para aquele mundo de trevas, como eu me senti inúmeras vezes tentada a fazer.

A certa altura da palestra no evento da National Geographic Hyeonseo confessa saber que o governo norte-coreano está atento ao que faz e que já apareceu referida no canal oficial do governo como uma inimiga. Acha que não pode tomar a vida como garantida. Continua a dar palestras e a contar a sua história para fazer passar a mensagem de que, além da questão das armas nucleares, é preciso falar dos direitos humanos dos norte-coreanos. A liberdade é (devia ser) um direito humano fundamental.

 

Deixo aqui a TED talk que deu origem ao livro e ao trabalho de Hyeonseo Lee como ativista:

As histórias do National Geographic Summit

Inês, 17.04.18

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O ano passado fui ao National Geographic Summit para ouvir Jane Goodall e acabei surpreendida com a palestra de Jodi Cobb. Na quarta-feira passada, e sem nenhum orador que quisesse tanto ouvir como Jane Goodall, entrei no Coliseu dos Recreios sem expectativas.

O que se seguiu foi um dia inteiro de aprendizagem sobre temas que vão desde o espaço aos conflitos na Terra, desde a vida selvagem do Okavango em África até uma plantação de cocaína no Perú (mais sobre isto em baixo). No fundo, este Summit é uma experiência de imersão naquelas pessoas e histórias extraordinárias que vemos nos documentários e nas TED talks. Uma experiência que pode ser resumida por este verso de Sophia de Mello Breyner dito ao início da manhã:

Vemos, ouvimos e lemos. Não podemos ignorar.

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Dormir com paralisia do sono

Inês, 02.11.17

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As minhas primeiras memórias de miúda estão associadas a insónias. Ou demorava horas para adormecer ou acordava a meio da noite e vagueava pela casa. Acabava sempre no escritório a folhear os livros que preenchiam as estantes. Depois passava a noite inteira a ler e ia para a escola, cheia de sono, na manhã seguinte. Anos depois, dormir continua a ser a minha maior fonte de dores de cabeça e cansaço. Durmo melhor do que há uns anos atrás mas não há coisa que inveje mais nos outros do que alguém me dizer que deita a cabeça na almofada e adormece logo. Quem me dera.

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