Sobre o livro «Kim Jiyoung, nascida em 1982» e o feminismo na Coreia do sul, em Espanha e em todo o lado
«Kim Jiyoung, nascida em 1982» de Cho Nam-Joo tem uma sinopse tão simples quanto: a vida de uma mulher nascida na Coreia do Sul nos anos 80.
Nesta altura, o país aplicou medidas de "planeamento familiar" para impedir o crescimento descontrolado da população, em que o aborto era legal para problemas de saúde, o que levou a que muitos casais abortassem quando engravidavam de raparigas por pressão social.
(...) a verificação do sexo do feto para depois abortar, caso fosse feminino, era uma prática comum - como se "as filhas" fossem, só por si, "um problema de saúde". Oh Misok dirigiu-se sozinha à clínica e "apagou" a irmã mais nova de Jiyoung. Nada daquilo era culpa sua, mas a verdade é que caía sobre ela toda a responsabilidade e não tinha ninguém na família que a confortasse naquela devastadora dor física e emocional.
Acompanhamos depois toda a vida de Kim, desde a infância, em que o irmão é o "menino de ouro" da casa, que não tem de fazer tarefas domésticas, ao contrário das irmãs. Até à adolescência, à difícil entrada num mercado de trabalho que não quer contratar mulheres (porque depois podem tornar-se mães e exigir licenças de maternidade), e depois o casamento e a maternidade (curiosamente onde começa e termina o livro).
Calhou estar a ler este livro quando vi o documentário da Netflix «Não estás sozinha: a luta contra la manada». O documentário conta a história de uma rapariga violada por um grupo de rapazes durante as festas de San Fermín de 2016, em Espanha. A decisão do tribunal de que tinha existido apenas abuso sexual e não violação levou a uma onda de protestos por todo o país (e pelo mundo). O caso chegou, finalmente, ao supremo tribunal e foi decidida uma pena de 15 anos por violação.
Mas é difícil não sentir uma raiva profunda quando esta miúda de 18 anos tem de ouvir um juiz dizer-lhe que, havendo um vídeo da violação em que ela não manifesta dor, é óbvio que não sentiu qualquer dor. Ou, pior ainda, quando um dos juízes do supremo tribunal critica o facto da vítima ter ficado completamente em estado de choque e sem reação durante a violação e pergunta: Mas era assim tão difícil dizer que não?
No livro, durante o final da adolescência e início da idade adulta, Kim é perseguida por um homem num autocarro. Acaba por conseguir livrar-se dele e, quando procura o consolo do pai, este pergunta:
Por que raio as tuas aulas de apoio ficam tão longe de casa? E por que diabos é que falas com estranhos? E essa saia... porque é que a usas tão curta? (...) Jiyoung conteve um suspiro. (...) Crescera a ouvir conselhos em relação às roupas que podia ou não usar, os cuidados a ter, a vestir-se de forma conservadora, a comportar-se sempre como "uma senhora". Que era responsabilidade dela evitar lugares, horários do dia e pessoas perigosas.
E tudo isto me fez lembrar este vídeo genial da SNL. Porque, às vezes, mais vale rir para não chorar.



