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Ler, escrever e viver

Ler, escrever e viver

Sobre o livro do momento: Identidade e família

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Confesso que fiquei surpreendida quando vi que o livro «Identidade e família», que foi apresentado por Passos Coelho e escrito por uma panóplia de autores está em primeiro lugar nas vendas da Wook. Não devia ter ficado, tendo em conta o resultado das últimas eleições e os dados que indicam que, na geração Z, as raparigas estão cada vez mais progressistas e os rapazes cada vez mais conservadores (dados daqui).

Não comprei o livro, porque tenho coisas mais úteis em que gastar o meu dinheiro, mas li a introdução que julgo ter sido escrita por todos os autores, porque não está assinada e que está disponível na preview da Wook.

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Toda a introdução se pode resumir no parágrafo de cima: a família tradicional (pai, mãe e filhos) é uma coisa boa para a sociedade e tudo o que fuja a este padrão é mau para a sociedade.

Enfim, por partes:

1) Não há famílias perfeitas (se há, eu não conheço nenhuma). Nem há pais perfeitos, nem há filhos perfeitos.

2) Esta introdução tem um ponto interessante que é o facto de apresentar referências de vez em quando, mas não nos pontos fundamentais. Onde estão os estudos que mostram que os filhos de uma "família tradicional" são mais saudáveis a nível mental e mais bem sucedidos do que os filhos de uma família não tradicional? Já disse que só li a introdução, por isso, não sei se haverá referências mais para a frente mas, a haver, espero que não sejam a bíblia que é citada logo no primeiro capítulo e que não constitui propriamente um artigo científico. 

Por exemplo, aqui:

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Mais uma vez, este parágrafo aparece sem quaisquer referências. Porque é que numa família com dois pais, duas mães, uma mãe, um pai, dois avós, numa família reconstruída com padrasto e madrasta não pode haver uma boa vinculação afectiva e um desenvolvimento psicológico saudável? Onde é que estão os estudos que demonstram isso?

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3) Acho que ninguém discorda disto, mas porquê que numa família não tradicional não pode haver amor, compreensão, transmissão de valores e tudo aquilo de que uma criança precisa para crescer bem? E, já agora, porque é que estamos a assumir que as "famílias tradicionais" são perfeitas e geram cidadãos conscientes? Vamos ignorar os casos de violência doméstica nas famílias ditas tradicionais?

4) Acho que também ninguém discorda de que precisamos de mais apoio às famílias, algo que a introdução também refere. Como se costuma dizer "it takes a village to raise a child" e, com a pressão do trabalho e da vida, perdemos a vila. Precisamos de mais creches gratuitas, de melhores licenças de parentalidade, de um SNS com mais qualidade, de que os preços das casas e rendas baixem para que quem quer ter filhos, ou quer ter mais filhos, independentemente do contexto familiar, o possa fazer. É uma pena que este livro se foque na família tradicional católica em vez de se focar em tudo aquilo que as famílias efectivamente precisam e que traria melhorias a toda a sociedade.

Sobre isto, vale a pena ler:

- O post do blog ler por aí

- O texto de Capicua no Jornal de Notícias

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