Quociente de felicidade de Angie Kim: uma boa surpresa
Nada como sairmos da nossa zona de conforto para sermos surpreendidos por um livro. Os livros mais young adult (que não é bem o caso deste, mas tem uma narradora de 20 anos) não são muito a minha praia, mas este livro foi uma grande surpresa.
Eugene é um rapaz de 14 anos autista e não falante (o que é diferente de não comunicar porque existem várias formas de comunicação). Além disso, Eugene tem síndrome de Angelman, uma doença rara, caracterizada por atrasos no desenvolvimento, deficiência intelectual severa e uma incapacidade de conseguir deixar de sorrir.
Num dia como todos os outros, Eugene vai até ao parque com o pai. O problema? Só Eugene regressa com sangue na roupa e debaixo das unhas e o pai é dado como desaparecido.
Quando há uma emergência, esperamos que o mundo inteiro pare, ou pelo menos desejamos que pare, porque, claro, o nosso próprio mundo parou. Tenho a certeza de que isto é uma espécie de narcisismo, uma tendência cognitiva egocêntrica que pressupõe que as reacções das outras pessoas espelham as nossas.
A partir daqui, seguimos uma investigação minuciosa narrada por Mia, uma jovem de 20 anos que é irmã de Eugene e que tenta descobrir o paradeiro do pai. Durante as buscas, a polícia encontra um caderno do pai, Adam, com anotações de experiências sobre o quociente de felicidade (daí o título do livro).
E seguimos também a forma desastrosa como a polícia trata Eugene, chegando mesmo a prendê-lo por uma reação impulsiva (relembro que falamos de um rapaz autista com pouca capacidade de comunicação).
Ainda este ano, nos Estados Unidos, a polícia disparou e matou um rapaz autista de 15 anos depois da família ter pedido ajuda por comportamentos agressivos do rapaz. Claramente, deviam ser profissionais habilitados a lidar com jovens autistas a ser chamados para lidar com estas situações e não pessoas cuja única resposta que conhecem é disparar uma arma. E este está longe de ser o primeiro caso em que isto acontece.
Além disso, achei as reflexões de Mia sobre ser irmã de um rapaz autista que precisa de muita atenção dos pais e ficar, muitas vezes, para segundo plano, muito pertinentes.
Quero ler mais livros da autora e não podia recomendar mais este.



