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M train de Patti Smith

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Acho que estou em minoria mas gostei tão mais deste «M train» do que do primeiro livro de memórias de Patti Smith: «Apenas miúdos». Não que o tivesse achado mau, mas tinha as expectativas muito altas e, na leitura como em tudo na vida, as expectativas estragam qualquer coisa boa. Fechei o livro com a sensação de que, apesar de bom, não me tinha prometido aquilo que esperava dele. As opiniões de «M train» eram bem menos elogiosas, por isso, parti para a leitura sem expectativas. E gostei tanto.

Queremos coisas que não podemos ter. Procuramos recuperar um certo momento, um som, uma sensação. Quero ouvir a voz da minha mãe. Quero ver os meus filhos enquanto crianças. De mãos pequenas, de pés velozes. Tudo muda. O rapaz já crescido, o pai morto, a filha mais alta do que eu a chorar devido a um sonho mau. Por favor, fiquem para sempre, digo eu às coisas que conheço. Não se vão embora. Não cresçam.

Este é um livro sobre coisa nenhuma. Patti Smith escreve sobre beber café, sobre as séries de crime que gosta de ver na televisão, as viagens que vai fazendo para falar em conferências, uma sociedade científica a que decide juntar-se, a casa destruída que compra junto à praia, as leituras que vai fazendo, os túmulos de escritores que vai visitando. Não há fio condutor, nem há uma história. Cada capítulo (há falta de melhor palavra) é uma espécie de ensaio sem relação com o anterior. Mas há falta de tudo isso, há livros (muitos), há escritores e há polaroids tiradas pela autora. E há a escrita fluida e poética de Patti Smith. E, para mim, foi mais do que suficiente.

Quando as pesadas cortinas se abriram e a luz da manhã inundou a pequena área da sala de jantar, ocorreu-me que, sem qualquer dúvida, nós às vezes escondemos os nossos sonhos por baixo da realidade.

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