Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Livros, viagens e tudo o que nos acrescenta

Leituras sobre a Palestina: Joe Sacco e Um Detalhe Menor

mar-maio-palestina.png

Palestina por Joe Sacco

Joe Sacco passou dois meses com palestinianos nos territórios ocupados no Inverno de 1991 a 1992. Daí, resultaram várias novelas gráficas que contam as histórias das pessoas com quem se encontrou e que reflectem a repressão de Israel sobre a Palestina. Li os dois primeiros volumes "Palestina: na faixa de Gaza" e "Palestina: uma nação ocupada."

Neles, Joe Sacco entrevista palestinianos que contam as suas histórias e que envolvem desde os campos de refugiados, ao fecho de escolas e à proibição de se ensinar a história na Palestina, à dificuldade em conseguir autorizações israelitas para trabalhar ou para viajar, em conseguir cuidados médicos em situações de urgência, à ocupação de casas e olivais. São histórias tristes e duras, de miséria, de pessoas que sonham, não em ter uma casa maior, mas em pôr um teto ou um chão a cobrir a areia da casa minúscula que foram forçados a habitar. Achei particularmente duro o relato de um casal que fica a ver o filho esvair-se em sangue durante 3 horas depois de ter levado um tiro durante os conflitos. Como o recolher obrigatório dos soldados israelitas já estava imposto, não o puderam levar ao hospital.

Quase todos os palestinianos com quem Joe fala passaram por prisões com condições deploráveis, muitas vezes, sem possibilidade de ir a julgamento sequer. Com o passar do tempo Israel sentiu pressão e foi melhorando as condições dos prisioneiros que se organizaram, criando uma comissão que tratava das refeições e até uma comissão de chá, que garantia que todos os prisioneiros eram servidos de chá na mesma quantidade. Como havia professores universitários, advogados e outras pessoas com altas qualificações entre os prisioneiros, criaram também palestras e cursos, que escondiam o melhor que podiam dos guardas prisionais.

Muitos palestinianos (como esta mulher em baixo) vêem as suas casas demolidas por soldados israelitas em zonas ocupadas. Depois, têm de construir as suas casas noutros locais, mas como não conseguem obter permissão para construir habitação pelo governo israelita, essas casas são consideradas ilegais e rapidamente demolidas. Assim, vão andando de aldeia em aldeia, até existir cada vez menos território palestiniano.

9A9389DB-8931-4263-80BF-A007C293C9F6.png

Joe Sacco consegue a proeza de descrever as situações como as testemunhou e de não pintar os palestinianos como anjos ou como não tendo defeitos (assiste inclusive a um julgamento cuja sentença seria apedrejamento público).

Mais para o final do livro, Joe Sacco vai para Israel e tenta compreender também a perspectiva dos israelitas sobre a ocupação.

987A374A-81FD-4423-AB61-7451DB03AAB9.png

 

Um detalhe menor da escritora palestiniana Adania Shibli

Na primeira parte deste livro, temos uma história passada em 1949, quando um grupo de soldados israelitas ataca um grupo de beduínos no deserto do Negueve, dizimando-o. Entre as vítimas, há uma rapariga adolescente que é capturada, violada pelos soldados, morta e enterrada no deserto.

Na segunda e, para mim, mais interessante parte deste livro, estamos quase na actualidade, e uma mulher a viver na Palestina descobre uma menção ao crime de 1949 e decide tentar desvendar os detalhes que envolvem o crime. É aqui que percebemos melhor a experiência de viver num território ocupado. A nossa personagem tem um passaporte da zona A que a impede de visitar qualquer museu ou arquivo onde pudesse encontrar mais informações sobre o caso, fala-nos sobre o stress de passar nos pontos de controlo, sobre o desprezo dos soldados israelitas, sobre as explosões que são tão comuns que se tornaram apenas um detalhe do dia-a-dia.

9 comentários

Comentar post