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MAR DE MAIO

Livros, viagens e tudo o que nos acrescenta

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Leiam por vossa conta e risco

O crime do padre Amaro contado às crianças

Inês, 05.11.19

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Em primeiro lugar, quero dizer que não li o livro original do Eça de Queirós portanto não posso comparar esta adaptação com o livro original. Também quero dizer que vou contar a história deste livro porque é uma pérola (mas em mau) portanto pode haver spoilers para o livro original. Basicamente estava a passear por uma livraria quando me deparei com esta colecção de clássicos portugueses daptados às crianças. A ideia é boa. Mas quem, a sério, quem olhou para a história do crime do padre Amaro e pensou: Olha, acho que isto dava uma boa história para crianças. A sério, quem?

Partimos então para a história de um padre jovem que foi chamado para trabalhar numa paróquia. O padre Amaro vai então viver para um apartamento sendo que, por cima, mora uma jovem chamada Amélia. Até aqui, tudo muito bem. Mas a partir daqui é sempre a piorar. Isto porque o jovem padre vive perturbado com a presença de Amélia no apartamento de cima.

A cada novo serão, Amaro sentia-se cada vez mais enfeitiçado com a presença de Amélia. (...) punha-se a escutar o roçagar das saias engomadas da rapariga. Era nesses momentos antes de adormecer que dava asas à imaginação. Estaria ela a dançar ou a despir-se?

Sim, isto está escrito neste livro. Para crianças a partir dos sete anos de idade. Além das asas que o padre dá à imaginação antes de adormecer, também tenho dúvidas se o roçagar das saias se ouviria no apartamento de baixo. Mas enfim, vamos admitir que o isolamento sonoro era mauzinho.

Depois disto, o padre e Amélia vão dar um passeio juntos. Olha, que coisa inocente. (Só que não). Durante este passeio, o padre rouba a Amélia um beijo porque, como o livro faz questão de explicar, "antes de ser padre era homem, e Amélia provocava-o com a sua brejeirice de menina mimada". Portanto, ela é provocadora e ele não tem escolha senão roubar-lhe um beijo. Está certo.

O padre Amaro decide mudar de casa e Amélia fica aborrecida dizendo "Estou como doida!". Entretanto, um tal de João Eduardo pede a mão de Amélia em casamento mas a coisa não vai a lado nenhum. O padre Amaro e Amélia começam a passar noites juntos. Ela fica grávida e é o escândalo. "Era preciso casar Amélia! Mas com quem?". Toda uma chatice. É decidido que Amélia vai ficar fechada numa quinta até o bebé nascer. A partir daqui o padre deixa de aparecer porque, enfim, ela é que está grávida, problema dela.

No fim, o arrependimento fica todo com Amélia (há um capítulo com esse título) que "não queria viver em pecado". Amélia morre no parto, a criança morre pouco tempo depois. O padre muda de paróquia.

Eu sei que a história foi publicada em 1875 e que, na altura (e durante muitos anos) as coisas foram assim. Mas havia mesmo necessidade de contar esta história, desta forma, a crianças? Enfim, não acho que seja definitivamente uma história para crianças mas ainda bem que existe. Quanto mais não seja para uma pessoa ficar agradecida por as coisas terem mudado.

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