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Inyenzi ou as Baratas de Scholastique Mukasonga

Uma história real sobre o genocídio no Ruanda

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Uma boa parte do meu conhecimento sobre o genocídio no Ruanda vem dos filmes «Hotel Ruanda» e «Shooting dogs».

Eu sabia que havia supostas diferenças físicas entre os hutus e os tútsis, nomeadamente em relação ao tamanho/forma do nariz e outros aspetos ridículos, que foram estabelecidas pelos belgas e sabia, que as tensões foram aumentando até culminarem no genocídio dos tútsis em 1994, em que famílias inteiras foram dizimadas e mais de um milhão de pessoas morreram.

Não sabia nem metade do que os tútsis passaram antes do genocídio em si. Neste livro, que é uma autobiografia, Scholastique Mukasonga conta-nos como tinha três anos quando aconteceram os primeiros massacres de tútsis.

Em 1960, a sua família foi enviada e fixada, juntamente com muitas outras, em Nyamata, um sítio no meio da selva, onde se ouvia os jaguares durante a noite e, quando se viam elefantes na estrada, as crianças nunca os ultrapassavam.

Apesar de existir uma quota de apenas dez por cento para os tútsis frequentarem o ensino secundário, Mukasonga frequentou o liceu de Kigali e, mais tarde, a prestigiada escola de assistentes sociais em Butare.

Depois, em 1973, os tútsis foram banidos das escolas, num episódio horrível em que os colegas de escola hutus se juntaram para os matar.

A autora acabou, como muitos outros tútsis, por fugir para o Burundi com o irmão, deixando os pais e outros irmãos no Ruanda. Tornou-se assistente social, trabalhou na UNICEF e mudou-se para França. Já era casada e tinha dois filhos quando o genocídio aconteceu, matando os seus pais, irmãos (incluindo uma irmã grávida que teve uma morte particularmente horrível) e quase todos os sobrinhos, num total de mais de 30 pessoas. Toda a gente os abandonou. Os brancos estrangeiros que trabalhavam no país foram rapidamente retirados, mas os tútsis ficaram abandonados à sua sorte, mortos pelos próprios vizinhos.

O meu pai declarou que seria boa para a família. E assentou arraiais ali. Foi lá que passou o resto da vida. Foi lá que o mataram, e à minha mãe. Agora não há ali nada. Os assassinos empenharam-se a fundo em apagar todos os vestígios da casa. O mato cobriu tudo. É como se nós nunca tivéssemos existido.

Li este livro para o Clube das Heróides. Gostei da escrita da autora, da história impressionante de como os estudos lhe salvaram a vida, no fundo. O título «Inyenzi» significa as baratas, que era aquilo que os hutus lhes chamavam para se distanciarem deles e das coisas horríveis pelas quais os faziam passar. É difícil (ou diria mesmo impossível) não ler este livro e não comparar este genocídio com o dos palestinianos em Gaza. É difícil ler as caixas de comentários sobre este assunto (eu já deixei de o fazer) e não pensar em quando é que nós perdemos a nossa humanidade, a nossa noção de direitos humanos.

No Fólio, o escritor José Eduardo Agualusa falou desta ideia de um hospital literário onde se receitavam livros. Depois brincou que quem sofresse de falta de empatia talvez precisasse de um ano inteiro de internamento só a ler livros. Este seria certamente um deles.

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