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Entre dois reinos de Suleika Jaouad

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Queria muito ler este livro e fiquei agradavelmente surpreendida quando vi que, não só tinha sido editado em português, como tinham mantido a capa original.

Suleika estava a viver a vida normal de uma pessoa com vinte e poucos anos que terminou a faculdade, quando teve a vida interrompida por uma leucemia. O estágio em Paris foi substituído por longos ciclos de quimioterapia e períodos passados no hospital. Durante anos, esta torna-se a realidade de Suleika e há algumas partes bastante duras de ler.

Algures neste processo, Suleika cria um blog e acaba a escrever uma coluna semanal para o New York Times que ganhou um Emmy. Recebe dezenas de cartas de leitores que, de alguma forma, se reveem naquilo que escreveu.

Ao tentar voltar à sua vida normal depois da cura, Suleika descobre que se tinha tornado outra pessoa:

A recuperação não é um período em que tratamos de nós cuidadosamente e que nos devolve a um estado pré-doença. A palavra até pode sugerir outra coisa, mas "recuperação" não tem nada a ver com recuperar o antigo. É sobre aceitar que temos de nos despedir para sempre de um eu que nos é familiar e abraçar um que está a nascer. É um ato de descoberta crua, aterradora.

No fundo, o livro é sobre a dualidade entre a saúde e a doença, a vida e a morte.

Na segunda parte do livro, Suleika tira a carta de condução e decide percorrer os Estados Unidos durante alguns meses e visitar algumas das pessoas que lhe enviaram cartas em resposta à sua coluna. De longe, a visita mais impactante é a a Lil' GQ, um homem condenado à morte no Texas.

Quando se é obrigado a confrontar a nossa própria mortalidade, seja por causa do diagnóstico de uma doença ou de uma sentença de morte pronunciada pelo estado, há uma urgência em reivindicar a vida, em moldar o nosso legado nos nossos próprios termos, nas nossas próprias palavras. (...) Ali sentada, a ouvir Lil' GQ lembro-me de uma frase de Joan Didion: "Contamos histórias a nós próprios para poder viver." Só que, no caso do Lil' GQ, ele conta histórias a ele próprio para facilitar a passagem para a morte.

Suleika usou a tour do livro para amplificar a história de Quintin Jones, condenado à morte depois de matar uma tia em 1999, então com 20 anos. Apesar de uma campanha que se tornou viral nas redes sociais, de uma petição com 200 mil assinaturas e dos pedidos da família para um recuo da pena de morte para a prisão perpétua, o Texas não se comoveu.

É engraçado porque em vários momentos deste livro me lembrei de «Uma educação» de Tara Westover, pela capacidade de refletir sobre a própria vida e de escrever sobre isso de uma forma que "prende" o leitor. E não é que, nos agradecimentos, Suleika agradece a Tara pelos conselhos para a escrita do livro. Enfim, um dos melhores (se não o melhor) livros que li este ano.

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