As vinhas da ira de John Steinbeck
Foi o facto deste livro ter sido escolhido para o clube Heróides de setembro que me levou, finalmente, a pegar neste clássico. Até aqui, já tinha lido «Viagens com o Charley» e «A pérola».
O livro passa-se na década de 1930, altura em que os estados do Texas e do Oklahoma foram assolados por tempestades de areia que destruíram os campos de cultivo e deixaram cerca de meio milhão de americanos sem casa e sem trabalho. Muitos deles, tinham pedido empréstimos ao banco em anos maus, esperando conseguir pagá-los em anos bons, mas tal não aconteceu.
- Não, vocês enganam-se nisso; enganam-se redondamente. O banco é alguma coisa mais do que homens. Acontece que todos os homens odeiam o que o banco faz, e todavia o banco fá-lo. O banco é alguma coisa mais do que os homens, acreditem. É o monstro. Os homens fizeram-no mas não podem controlá-lo.
Assim, muitos americanos rumaram à Califórnia em busca de trabalho. É isto que acontece com a família Joad. O filho, Tom, depois de passar quatro anos na prisão por matar um homem, junta-se à família que ruma à Califórnia em busca do "sonho americano" e de uma terra que possam considerar sua.
Viajam num caminhão os pais, os avós, os filhos e um antigo pregador. A viagem pela estrada 66 é cheia de percalços, com doenças, problemas com o camião e até mortes.
Quando chegam à Califórnia, o "sonho americano" que esperavam encontrar é mais parecido com um pesadelo.
Ou seja, a família tinha visto um papel em como havia muito trabalho com bons salários na Califórnia, mas milhares de famílias tinham visto o mesmo papel e seguido rumo ao Oeste. Por isso, com tanta mão de obra disponível e com tanta gente desesperada por comida, quem contratava podia oferecer os salários mais baixos possível que havia sempre alguém (muita gente, na verdade) desesperada o suficiente para aceitar.
Há nisto tudo um crime, um crime que ultrapassa o entendimento humano. Há nisto uma tristeza, uma tristeza que o pranto não consegue simbolizar. (...) Crianças atingidas de pelagra têm de morrer porque a laranja não pode deixar de proporcionar lucros. Os médicos legistas devem declarar nas certidões de óbito: «Morte por inanição», porque a comida deve apodrecer, deve, por força, apodrecer.
Amei ler este livro. Achei a escrita muito mais acessível do que esperava e, certamente, é um dos meus livros favoritos do ano.
Este clássico foi publicado por Steinbeck em 1939 e premiado com o Pulitzer no ano seguinte. No entanto, sabiam que havia uma autora chamada Sanora Babb que tirou notas para a escrita de uma história sobre este mesmo tema? Depois de entregar as suas notas ao editor, estas foram entregues a John Steinbeck, que as usou para escrever este clássico. O livro de Sanora foi publicado com o título de «Whose Names Are Unknown», mas com muito menos sucesso. Mais um exemplo da invisibilidade do trabalho das mulheres na literatura...



