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MAR DE MAIO

Livros, viagens e tudo o que nos acrescenta

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A Peloponnese (Grécia) em 12 fotografias

12.09.18 | Inês

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Foi este o caminho que fiz (quase) todos os dias. Atravessar as tendas do parque de campismo, passar a floresta a ouvir as cicadas nas árvores e ver a praia do outro lado. Mergulhar. A praia da Peloponnese tornou-se a minha segunda casa (a primeira era o acampamento). De manhã, aproveitando as horas em que o calor ainda não sufoca, há famílias com cães e crianças a brincar na areia. As horas de calor a meio da tarde eram a minha hora preferida para fazer este caminho. O calor é tanto (por volta dos 36/38º) que só se está bem dentro de água. Às oito e meia o sol põe-se e a praia volta a ganhar vida com as pessoas que querem nadar com o sol no horizonte ou fazer paddlesurf. Para nós, era a hora de estarmos juntos, depois de um dia que tinha começado há demasiadas horas atrás.

 

A baía da Peloponnese

Se tivesse de descrever a baía da Peloponnese numa palavra seria selvagem. São quase 25 quilómetros de praia em que, tirando alguns bares e restaurantes numa das praias, quase não existem pessoas. É aqui que, nos últimos anos, se tem atingido um número recorde de ninhos de tartarugas marinhas. Este ano foram cerca de 3 mil. E foi por isso mesmo que aqui passei quatro semanas este Verão.

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As praias selvagens da Peloponnese com as montanhas ao fundo

 

O trabalho da Archelon

Já escrevi sobre os turnos neste post, quando fiz voluntariado em Creta. Mas como fiquei num projeto diferente (kyparissia, na Peloponnese) vou escrever sobre os turnos que são diferentes.

 

Os turnos de boxing

Foi o meu primeiro turno. Fiquei um bocadinho assustada quando me explicaram que era um turno de 11 horas (!) durante toda a noite. Mal sabia eu que ia ser, de longe, o meu turno preferido. Basicamente vamos para a praia às 8 da noite em grupos de quatro e inspecionamos todos os ninhos prestes a eclodir. Estes ninhos estão protegidos por caixas para que quando as tartarugas nasçam fiquem retidas na caixa e não vão para a parte de trás da praia (são atraídas pelas luzes dos restaurantes e dos hotéis). Se houver crias, estão são postas em baldes e levadas para um sítio seguro da praia (um releasing point) onde não existem luzes na parte de trás da praia. Nesse local, deixamo-las na areia e ficamos a vê-las seguir até ao mar. Voltamos a verificar os ninhos de hora a hora até às sete da manhã.

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Uma das caixas a proteger um ninho

 

Logo no meu primeiro turno ajudámos quase 200 crias. Muitas vezes, como passamos a noite toda na praia, vemos tartarugas adultas a desovar, calmamente, completamente alheias à nossa presença. Não intervimos, ficamos só a ver maravilhados. Só fazemos boxing na zona mais turística onde há hotéis e restaurantes que se recusam a desligar as luzes de noite (ou a mudar as luzes brancas para vermelhas, que as crias não conseguem ver). No resto da baía, intervimos o menos possível.

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A praia onde fazemos boxing e que é a mais turística da Peloponnese. À direta vêem-se três ninhos de tartarugas marinhas e as caixas, que só são colocadas ao início da noite e depois retiradas de manhã

 

Outro motivo pelo qual metemos as caixas são os gatos. Andamos a noite inteira na praia só com uma luz vermelha na testa (para não perturbar as crias e as tartarugas adultas a desovar) e para onde quer que olhemos vemos dois pontinhos vermelhos a olhar na nossa direção. São gatos. Há muitos e são tão espertos que escavam buracos na areia para as caixas e ficam pacientemente à espera que as crias eclodam e saiam pelo buraco que criaram. Não as comem, simplesmente brincam com elas e, claro, acabam por as matar.

 

Foi o meu turno preferido porque trabalhamos de noite (longe dos 40 graus do meio-dia) e porque o trabalho é muito recompensador. Quando chegamos a um ninho que acabou de eclodir pela primeira vez podemos ter logo umas 50 crias e depois temos o privilégio de as meter na areia e de ficar a vê-las seguir a luz da lua refletida no oceano em direção ao mar.

 

Os turnos de morning survey

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Já existiam no outro projeto mas há algumas diferenças. Este é o turno em que vamos para as praias ao nascer do sol à procura das marcas das tartarugas adultas no areal para encontrarmos os ninhos (que escavamos para identificar o local e protegemos com uma grade metálica) e de crias a nascer (que só ajudamos se necessário, ou seja, se há turistas à volta ou se está demasiado calor e podem morrer desidratadas). 

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 Crias de Caretta Caretta a sair do ninho às sete da manhã durante um morning survey

 

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 Crias em direção ao mar antes do nascer do sol

 

Se em Creta o maior problema era a grande quantidade de hotéis e turistas, aqui são os veículos na praia. Infelizmente, não são raras as vezes em que vemos buldózeres na praia ou jovens a fazer motocross. É proibido por lei (as praias de desova são protegidas pela União Europeia) por vários motivos. Quando os veículos passam pelos ninhos, a areia fica compacta e as crias, ao nascer, não vão conseguir subir à superfície e vão morrer na areia. Por outro lado, facilmente um veiculo à noite passa por cima das crias ou pode mesmo atropelar uma tartaruga adulta a desovar.

 

Outro problema são os cães. Há imensos cães abandonados a dormir na praia e, por muito meigos que sejam, conseguem farejar os ninhos, escavam-nos e comem as crias. No geral, num morning survey encontramos uns cinco ninhos predados e vemos quase sempre cães (às vezes, com as crias na boca). 

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 Um dos muitos lagos que existem nas praias da Peloponnese durante um morning survey

 

O acampamento da Archelon

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O acampamento da Archelon na Peloponnese

 

Fomos sempre mais de quarenta voluntários a partilhar um espaço reservado num parque de campismo. Entre muitos franceses e ingleses, alguns alemães, uma canadiana, uma americana, dois sérvios, alguns gregos, um costa-riquenho, uma portuguesa (eu) e um espanhol vivemos entre o reboliço de haver poucos voluntários para muitos turnos (idealmente seríamos 70 voluntários) e a calma de estarmos no meio do nada. Num sítio onde o wifi quase não funciona e onde é preciso conduzir 20 minutos para chegar a um multibanco.

 

É difícil explicar a cumplicidade que se gera quando se passam noites inteiras acordados num turno de boxing com outras pessoas, quando se partilha muito cansaço e falta de sono (acordamos às cinco da manhã e temos turnos de manhã, tarde e noite, com um desses períodos livres em cada dia). Quando se partilham muitos momentos de stress (quando os turistas ficam demasiado eufóricos a ver tartarugas bebés ou quando temos crias no meio da estrada e temos de mandar parar os carros). É difícil explicar que se vive muito em pouco tempo num sítio assim, onde o tempo parece quase parado só para nós vivermos esta experiência. Quando acaba e voltamos a casa, sentimo-nos vazios e sentimos a falta daquelas pessoas na nossa vida, na nossa mesa ao jantar, com cara de sono às cinco da manhã a beber doses astronómicas de café gelado, a cantar no carro a caminho de mais um turno, a partilhar uma conversa ao pôr-do-sol na praia depois de um dia que começou há demasiadas horas atrás.

 

O que fica são memórias e umas quantas mãos cheias de histórias que não se esquecem e que nos fazem sorrir, no regresso à vida de todos os dias. Como a história de quando um dos sérvios descobriu um ratinho dentro da tenda e foram precisas três pessoas com vassouras para o expulsar, e que depois se recusou a voltar à tenda e dormiu numa das redes durante duas noites. Ou a do cão que seguiu dois voluntários até ao acampamento e ficou por lá durante dois dias. Ou de quando fomos entregar panfletos da organização a uma praia que descobrimos assim que lá chegámos era uma praia de nudistas. Ou a da rapariga grega que comprou mastika (um produto tradicional grego que se obtém das árvores e que sabe… bom, a mim sabe-me a pasta de dentes) a pensar que todos íamos adorar e de que ninguém gostou. Ou de quando uma voluntária grega fez loukoumades e ficámos na mesa a jantar até não haver nem mais uma no tabuleiro. 

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Um dos muitos sapos do acampamento

 

Às vezes recebo mails de pessoas que escrevem que o que escrevi sobre a minha experiência de voluntariado as ajudou a ultrapassar o medo e a viver uma experiência semelhante. Fico sempre surpreendida (e agradecida também) mas percebo. A sério que se eu consigo fazer estas coisas, qualquer pessoa consegue. Sou bem medricas. Desenvolvi nos últimos anos um medo (pânico quase) por andar de avião, mas ando. Tenho medo de trovoada mas ela persegue-me até para a Grécia, medo de ficar doente, de me magoar, de não me dar bem com ninguém, de sentir que foi tempo perdido ou dinheiro deitado à rua... Tive experiências melhores e piores, como é normal, mas até agora nunca me arrependi e nunca me senti tão realizada como a fazer voluntariado com tartarugas marinhas. Por isso, se sentem que, de alguma forma, uma experiência deste género é algo que gostavam de fazer, vão. Se estão à procura de um sinal para se decidirem a ir, ele está aqui. Acreditem que um mês pode parecer muito tempo mas passa a correr e quando derem por ele, estão de lágrimas nos olhos a ter de dizer adeus a toda a gente.

 

(Se tiverem dúvidas ou quiserem saber mais alguma coisa sobre o projeto, podem enviar mail para ineslr @sapo.pt. Também já escrevi um post de perguntas e respostas sobre fazer voluntariado na Archelon que podem ver aqui)

 

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