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MAR DE MAIO

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A maldição de Hill house de Shirley Jackson: a série e o livro

18.02.20

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A série da netflix «A maldição de Hill house» foi uma das melhores séries que vi em 2018. Fiquei interessada em ler o livro, mas decidi esperar até a história não estar tão fresca. Entretanto, li «Sempre vivemos no castelo» da mesma autora e adorei. Não é um livro de terror clássico, é um livro em que o terror está nas entrelinhas. Shirley não está a tentar assustar o leitor, limita-se a criar um ambiente de suspense à superfície, enquanto esconde tudo o que de mais interessante existe na história em profundidade.

«A maldição de Hill house» não é diferente. Temos um cientisa que investiga casas assombradas e que descobre a casa de Hill house. Envia cartas a diversas pessoas que acha que podem ter interesse no mundo sobrenatural a convidá-las para passarem uma temporada nesta casa (supostamente) assombrada. A história do livro é, por isso, um bocadinho diferente da série da netflix. A partir daqui acompanhamos um grupo de quatro pessoas que não se conhecem a passar um período nesta casa.

Na verdade acho que há várias leituras que se podem fazer deste livro. Podemos vê-lo como uma simples história de terror com uma casa assombrada e um grupo de personagens disfuncionais. Ou podemos vê-lo como uma história sobre depressão. A história que aparece na série da netflix foca-se numa família e é sobre como a depressão de uma mãe afeta os filhos. A história do livro parece-me ser sobre a deteriorização da saúde mental de uma das personagens, a Eleanor. Logo no início, o livro começa assim:

Nenhum organismo vivo pode existir durante muito tempo em condições de realidade absoluta, mantendo a sanidade; (...) o silêncio cobria a madeira e a pedra de Hill house, e o que por lá andasse, andava sozinho.

A casa é descrita como uma casa velha e abandonada mas, ainda assim, perfeitamente normal. Entre os quatro personagens, Eleanor é a única que está sempre presente quando acontece algum fenómeno sobrenatural. Será que não está tudo na cabeça dela? Além disso, sabemos que cuidou da mãe doente durante muitos anos, que teve uma vida difícil e que vê no facto de ter sido escolhida para esta expedição como o melhor momento da sua vida. Mas depois sente-se sempre inferior em relação aos restantes elementos do grupo e o ambiente pesado da casa começa a afetá-la.

Quanto mais lia, mais me convencia que esta não é uma história de fantasmas ou de espíritos mas sim uma história sobre como, às vezes, aquilo que mais devemos temer está dentro de nós. Não é um livro fenomenal, aliás acho esta história inferior à de «Sempre vivemos no castelo» mas, ainda assim, continuo a admirar a forma como Shirley Jackson cria histórias que escondem tudo nas entrelinhas e pretendo continuar a ler tudo o que escreveu.

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