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MAR DE MAIO

Livros, viagens e tudo o que nos acrescenta

MAR DE MAIO

Livros, viagens e tudo o que nos acrescenta

Quando ler se torna uma frustração

Inês, 30.04.19

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Quando temos o hábito de ler passamos sempre por fases em que a leitura não flui. Escolhemos um livro, começamos a ler mas passadas poucas páginas desistimos. Tentamos outro e acontece o mesmo. Às tantas, a frustração vai crescendo e o hábito de ler vai-se perdendo. Tenho andado numa fase assim e deparei-me com este post de uma entrevista do Gonçalo Miguel Tavares ao Expresso:

É triste olhar para os livros e pensar que são quase todos iguais, quando há uma infinidade de possibilidades. Isso é de uma pobreza e também reflete um cansaço. Os leitores estão cansados, as pessoas trabalham muito, têm vidas duras e há uma literatura para cansados, para pessoas que vêm do trabalho e que querem ler um livro como quem quer ter uma massagem ao final do dia. Mas a função da arte e da literatura não é descansar. É acordar, perturbar, refletir. Não deveríamos ver arte ou ler livros quando estamos cansados. A literatura e a arte exigem muito de nós.

Tenho uma série de livros para ler que sei que exigem uma disponibilidade mental que, neste momento, não tenho e que, por isso, estão guardados na estante para ler mais tarde. Mas também não gosto de não ler. Por isso, acho que nos resta aproveitar as fases mais complicadas para ler livros mais leves, que não exigem tanto de nós ou para reler livros que já conhecemos e que nos fazem sentir em casa, ou para investir naquele thriller que nos agarra da primeira à última página e que não conseguimos pousar. Enfim, ler o livro certo na altura certa faz toda a diferença. Por isso, deixo a pergunta: quais os livros que lêem quando não vos apetece ler?

 

P.S - Entretanto, para ver se me inspirava, actualizei esta página no blog com os meus livros preferidos.

O que vos faz dar 5 estrelas a um livro?

Inês, 23.04.19

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A pergunta foi feita pela goodreads aos leitores que usam a plataforma. Para quem não conhece, o goodreads é uma espécie de rede social de livros onde podem adicionar todos os livros que lêem, fazer reviews sobre os mesmos e dar estrelas (de um a cinco) a cada um. Por isso, um dia destes, o goodreads perguntava aos seus leitores o que os faz dar 5 estrelas a um livro. E hoje, no dia Mundial do livro, trouxe algumas dessas respostas:

"I couldn't put it down and was sad when it was done. A five-star book should pull you in and refuse to let you go," says Nathaniel. 

"I want to read it again…and again…and again," says Denise.

"I didn't guess the ending," says Claire. 

"I forgot to sleep, eat, and everything else until I finished it," says Nenad.

"I was living the book, not just reading it," says Susan.

Respostas muito diferentes. À partida acho que cada leitor terá as suas razões para dar cinco estrelas a um livro. Quando começamos a ler um livro levamos connosco todos os livros que já lemos, mas também as nossas experiências de vida e a nossa disposição naquele momento, para aquele livro. Nem todos os livros foram feitos para todos os leitores. E, muitas vezes, ler o livro certo no momento certo faz toda a diferença.

 

Olhando para os meus livros no goodreads, eis alguns a que dei 5 estrelas e porquê:

A tetralogia de Elena Ferrante - Pela densidade de histórias que envolve os personagens e pela relação entre Lila e Lenú. Revi-me nalguns traços das duas.

O diário de Anne Frank - Li na adolescência e marcou-me muito.

Born a crime de Trevor Noah - Um dos melhores livros que já li. É um livro escrito com humor sobre o appartheid, uma combinação difícil que resultou muito bem.

A saga Harry Potter - Porque são livros que me trazem conforto e que gosto de reler quando preciso.

 

Enfim, há (felizmente) muitos outros e acho que, em cada caso, dei 5 estrelas por razões diferentes.

E vocês, o que vos faz dar 5 estrelas a um livro?

Saudades de um banho quente

Inês, 12.03.19

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Estou a ler «A campânula de vidro» de Sylvia Plath e identifiquei-me muito com isto:

Deve haver certamente algumas coisas que um banho quente não seja capaz de curar, mas eu não conheço muitas. Sempre que estou profundamente triste, ou tão nervosa que não consigo adormecer, ou apaixonada por alguém que não irei ver durante uma semana, colapso e digo a mim própria: «Vou tomar um banho quente.»

No banho, medito. A água tem de estar muito quente, a ponto de ser quase impossível meter o pé lá dentro. (...) Não acredito no batismo das águas do Jordão ou em coisas semelhantes, mas acho que o banho quente deve estar para mim como a água benta para os crentes.

Também não conheço nenhuma forma melhor de recuperar de um dia demasiado longo (ou demasiado mau) do que tomar um banho quente. A personagem também descreve que se lembra de todas as banheiras onde já tomou banho. Também é o meu caso. Aliás, quando penso em férias lembro-me logo da banheira do sítio onde fiquei alojada (quando existia uma).

 

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A casa onde moro neste momento, por muitas qualidades que tenha, não tem banheira o que para mim é um grande defeito. Há um episódio da New Girl onde Jess, cansada de estar num apartamento sem banheira, decide comprar uma para meter no terraço. A coisa não corre propriamente bem uma vez que a água acaba por escorrer para a casa e inundar o apartamento. Mas juro que quando vi esse episódio pensei "Se ao menos eu tivesse um terraço...". Enfim, já sei que quando me mudar até pode ser para uma casa pior e mais pequena mas... tem de ter banheira.

A quem abandonou a minha gata

Inês, 13.02.19

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Já foi há uns anos que estava a subir a rua para chegar a casa, depois da faculdade, e vi uma transportadora de gatos no meio do passeio. Parei e espreitei. Lá dentro estava uma gata preta, adulta, com os olhos amarelos esbugalhados para mim. Aproximei a mão e pôs logo a cabeça a jeito para receber festas. A transportadora estava aberta. Olhei à volta e não vi ninguém. Fui a uma papelaria próxima (que tinha vários gatos) e tentei convencer o senhor a ficar com ela. Não quis. Levei-a para minha casa. Não quis sair da transportadora por nada e lá ficou durante uns dias, com água e comida. Depois, aos poucos, foi saindo. Ficou tão assustada com tantas mudanças que lhe caiu uma boa parte do pêlo.

Olhando para ela acho que não mudou muito. Continua a não se entusiasmar demasiado com a minha presença. A manter o seu meio-termo de gostar de festas mas não de colo. Continua preta com uns pêlos brancos no queixo como se tivesse barba. Continua com aqueles olhos meio amarelos meio verdes que já me pregaram alguns sustos quando olha para mim no escuro.

Chamei-lhe Petra, um trocadilho com preta, a esta gata que alguém abandonou numa transportadora no meio do passeio e que me tem feito muita companhia ao longo dos anos. Gostava que tivesse havido, ao menos, um bilhete. De saber se veio da rua, se já tinha tido doenças, se estava esterilizada (não estava mas demorámos a descobrir), se tinha nome… Talvez tenham pensado que ninguém ia ficar com uma gata adulta e que ela ia ficar pela rua. Ou talvez não tenham querido saber. Não sei. O que sei é que, no fim de contas, eu ganhei uma boa companhia nesse dia e aquelas pessoas (quem quer que sejam) perderam muito mais do que imaginam.

Temos de falar sobre a ansiedade na universidade

Inês, 23.10.18

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Há uns meses atrás uma colega de faculdade suicidou-se. Pouco depois, a minha universidade fazia um inquérito aos alunos sobre ansiedade e depressão. Não sei os resultados mas não é preciso. Imagino que sejam assustadores. A ansiedade e a depressão nas universidades andam em níveis preocupantes. Há muitos estudos que mostram isso mas, mais do que isso, cada vez conheço mais casos de estudos abandonados para tratar depressões ou de suicídios. E é tão triste que alguém com 20 ou 23 ou 25 anos chegue ao ponto de achar que a vida não tem mais nada para lhe oferecer. Não precisam de ser os melhores anos da nossa vida mas também não têm de ser tão angustiantes.

Ansiedade faz você pensar demais, racionalizar demais… com ansiedade você está sempre medindo as palavras e pensando demais antes de agir. (...) Com ansiedade, o peso de tudo é dobrado e com ansiedade você sente que precisa cuidar de todo mundo, mas não deixa ninguém cuidar de você.

As frases são deste post e refletem bem aquilo que é viver com ansiedade. E precisamos de falar sobre isto. De perder o medo de sofrer julgamentos precipitados. Também precisamos de ser mais gentis. A realidade é que nunca sabemos aquilo por que as pessoas com que nos cruzamos no dia-a-dia, no trânsito, no café, no emprego ou nas aulas estão a passar.

Sinto que a faculdade se está a tornar um lugar cada vez mais competitivo à medida que esta crise de emprego se adensa e que o medo do futuro aumenta. Muitas vezes, os professores não ajudam quando decidem que os alunos já devem saber tudo, responder a tudo e que, caso não o saibam, nunca vão ser bons profissionais. Essa pressão é, provavelmente, tudo aquilo de que muitos estudantes não precisam, mas está lá. É preciso respirar fundo. Respirar fundo e pensar que, quando não sabemos, é mesmo para isso que estamos na faculdade, para aprender. E é preciso ter a coragem de fazer ver aos professores (aqueles que se acham no direito de humilhar os alunos) que o dever deles é ensinar. E que nós, alunos, estamos lá para aprender. E não podemos fazer mais do que dar o nosso melhor. Há dias em que chega e outros em que fica muito aquém. Mas tudo bem. Amanhã há mais oportunidades para aprender e fazer melhor.

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