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A livraria mais antiga do mundo

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Já falei aqui sobre várias livrarias que fui descobrindo, mas estava a faltar a livraria mais antiga do mundo ainda em funcionamento, que é a livraria Bertrand no Chiado.

Esta livraria foi criada por Pedro Faure em 1932, que depois se associou a Pierre Bertrand, numa morada próxima.

Depois, com o terramoto de 1755, a livraria mudou-se e só voltou ao Chiado em 1773, para o mesmo sítio onde se encontra hoje, mais de 200 anos depois.

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Que outras livrarias em Lisboa recomendam?

Dormindo entre cadáveres de Luís Moreira Gonçalves e Felipe Parucci

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Em média, são publicados 42 livros, por dia, em Portugal. É completamente insano e impossível de acompanhar. Mas, este foi um daqueles lançamentos que não quis deixar passar.

Tenho andado a ouvir palestras de epidemiologistas e todos estão de acordo que foi preciso o COVID para os governos acordarem para algo que se previa há anos - pandemias que se propagam antes de as conseguirmos parar porque, hoje em dia, em apenas 8 horas chegamos de um lado do mundo ao outro - mas, apesar disso, continuamos mal preparados para as que virão no futuro e que podem ser bem piores...

Mas bom, esta novela gráfica conta a história de um médico português (Luís Moreira Gonçalves) que esteve na Amazónia em plena pandemia, quando o mundo abandonou estas pessoas à sua sorte e as deixou sem medicamentos e sem oxigénio, a morrer. É demasiado grave para não ser contado.

É uma história intensa e, por vezes, surpreendentemente divertida e que vale muito a pena.

Deixo algumas imagens para verem a arte do livro:

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Ler Lolita em Teerão: a história incrível de Azar Nafisi

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Há uns anos comecei a ler este livro e não avancei. Enfim, não era a altura certa. Agora, voltei a encontrá-lo numa biblioteca (porque a edição portuguesa está esgotadíssima há anos infelizmente) e a leitura fluiu.

Depois de se ter demitido do cargo de professora de literatura na Universidade de Teerão devido à pressão das autoridades iranianas, Azar Nafisi decide organizar na sua casa uma aula ou um clube do livro clandestino com 7 das suas alunas mais aplicadas.

A história decorre entre 1995 e 1997 e Azar Nafisi, em conjunto com as suas alunas, leem obras proibidas pelo regime e abordam, entre outras coisas, as suas experiências pessoais em relação ao que estão a ler, desde a falta de liberdade das mulheres no Irão à forma como a literatura pode ser um escape a uma realidade opressora.

As ruas de Teerão e de outras cidades iranianas são patrulhadas por milícias: seguem em carros patrulha Toyota brancos e compõem-se de quatro homens e mulheres com metralhadoras, por vezes seguidos por um mini-autocarro. Chamam-se os Sangue de Deus. Patrulham as ruas para se certificarem de que as mulheres usam os véus de forma adequada, não trazem maquilhagem, não andam em público com homens que não sejam os pais, os irmãos ou os maridos.

Uma das cenas que mais mexeu comigo foi quando uma das alunas estava de férias com cinco amigas, a cumprir todas as normas impostas pelo regime e, mesmo assim, não só foram presas pela polícia da moralidade como foram levadas a um médico para lhes fazer um teste de virgindade. Apesar dos resultados revelarem que eram virgens, foram na mesma condenadas a uma pena de prisão e a 25 chibatadas.

No final dos anos 90, as coisas pioram muito. Os protestos dos estudantes contra o regime vigente levaram à prisão de muitos, incluindo alguns dos alunos de Azar Nafisi. As histórias são aterradoras. Uma das alunas foi executada sem qualquer motivo. Uma outra rapariga (não aluna) foi violada por todos os guardas antes de casar com um e ser morta (a lógica era que não poderia morrer não casada e não virgem pois não iria para o paraíso...). A prisão era composta por tortura com interrogatórios prolongados e tiros de execução a meio da noite. Ninguém sabia quando chegaria a sua vez. Alunas que apanharam penas de 3 e 5 anos saíram após dois anos e meio em liberdade condicional (durante este regime, não podiam ir à universidade) e apressaram-se a casar para dar a imagem de que estavam a ser o que o regime queria que fossem: donas de casa, mulheres casadas e mães. Caladas. A usar o véu a cobrir o cabelo em todas as ocasiões.

Apesar da sua realidade opressora, estas jovens querem mais. Não querem ser obrigadas a casar porque sim, querem estudar, querem ir para os Estados Unidos, querem poder andar sem véu na rua, querem poder ler Lolita em Teerão, querem ser livres.

Os livros abordados na aula vão desde Lolita de Nabokov (que dá o título ao livro), Convite para uma decapitação do mesmo autor, Great Gatsby de F. Scott Fitzgerald, Madame Bovary de Flaubert e Orgulho e Preconceito de Jane Austen, entre outros. Quase todos banidos das livrarias e proibidos de ser impressos, importados de outros países, vendidos e lidos.

Azar também vai às suas memórias e recorda a guerra entre o Iraque e o Irão que durou de 1980 a 1988. Durante estes anos, Teerão era atingido com mísseis de forma constante e, não havendo abrigos antiaéreos, as pessoas não tinham onde se esconder. Azar lia pela noite dentro enquanto olhava pelos filhos e ouvia os mísseis a passar. Os mortos não eram vistos como vítimas mas como mártires e, em vez de se dar os pêsames à família, dava-se os parabéns por terem morrido por uma causa maior...

O livro foi adaptado ao cinema no ano passado e o filme é excelente, muito fiel ao livro. Podem ver o trailer aqui.

A versão do livro em inglês está disponível aqui. O livro também está disponível em audiobook. E também o podem procurar na biblioteca. Recomendo muito!

Playing nice: a série imperdível da RTP play

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Cada vez estou mais impressionada com a oferta de séries disponível na RTP Play e esta minissérie de 4 episódios é um excelente exemplo disso.

«Playing nice» ou «Pais em Guerra» na tradução para português é um thriller psicológico passado na paisagem deslumbrante de Cornwell em que dois casais descobrem subitamente que os filhos rapazes de 3 anos de idade foram trocados à nascença devido a uma confusão na unidade de cuidados a prematuros no hospital.

A partir daí vem o dilema: devem ficar com o filho que criaram e amaram ou com o filho biológico?

Inicialmente, parece tudo muito simples (demasiado) quando os pais concordam em ficar com o filho que criaram e ter algum contacto com o filho biológico. A coisa complica-se quando um dos casais (o mais rico, o mais poderoso) decide pedir a custódia das duas crianças e está disposto a tudo para o conseguir, levando o outro casal a entrar num verdadeiro pesadelo em que nunca sabemos o que vai acontecer a seguir.

Não esperava que o segredo fosse aquele, mas gostei do final e recomendo muito esta série.

Podem ver aqui.

Outras séries que estão na RTP Play e de que já falei aqui são «Isto vai doer» e «Veterinário da província».

Se tiverem recomendações de séries da RTP Play, deixem nos comentários!

Não eras tu quem eu esperava de Fabien Toulmé

Uma novela gráfica incrível sobre a trissomia 21

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Fabien está prestes a ser pai da sua segunda filha e tem apenas um único receio: que ela nasça com trissomia 21.

Não sabe bem de onde vem este receio, talvez por ser um dos problemas mais falados que podem surgir durante a gravidez.

A mulher de Fabien é brasileira, ele é francês e numa gravidez que passa pelos dois países, a trissomia 21 e a tetralogia de Fallot (problema cardíaco frequentemente relacionado com a trissomia 21) não são detetados.

Assim que Júlia nasce, todos os piores receios de Fabien se concretizam. Ao olhar para ela pela primeira vez, reconhece-lhe todos os traços de uma criança com trissomia 21 e não a reconhece como sua filha, não a sente como sua filha. Não consegue trabalhar e recusa-se a pegar-lhe ao colo ou a dar-lhe banho.

Só quando o casal visita uma geneticista que trata a trissomia com humor e que fala da autonomia que vê em muitos dos seus pacientes adultos é que as coisas começam a mudar.

Júlia vai surpreendendo os pais a cada instante, é adorada pela irmã mais nova e vai-se tornando um membro da família.

Uma novela gráfica incrível e muito honesta sobre a diferença e os medos que lhe estão associados. Não podia recomendar mais.

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4 filmes para ver: The lost bus, The perfect neighor, Caramelo e As lições do pinguim

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The Lost Bus - Um filme extraordinário com o Matthew McConaughey baseado na história real de um condutor de autocarros de crianças que, em conjunto com uma professora, salvou a vida de 22 crianças ao conduzir o autocarro pelo meio do fogo em Paradise, na Califórnia, em 2018. Gostei muito.

The perfect neighor - Um dos melhores (e mais tristes) documentários de true crime da Netflix. Este documentário é contado sempre a partir do ponto de vista das câmaras que os polícias norte-americanos usam. É pela lente deles que ficamos a conhecer uma mulher branca, que vive num bairro com várias famílias afro-americanas e que chama a polícia de forma consistente, sempre para se queixar de que os filhos dos vizinhos estão a fazer muito barulho a brincar, a jogar à bola, enfim, a serem crianças. Ela é a única vizinha do bairro que se queixa. A tensão vai crescendo e termina de forma trágica.

Caramelo - Que filme bonito e triste e sensível e pesado e todas essas coisas ao mesmo tempo que são a vida. Eu sei que não é filme que vá ganhar óscares (até porque é brasileiro) e é aquele tipo de filme de sessão de domingo à tarde, mas é maravilhoso.

Aqui conhecemos o Pedro, que trabalha num restaurante importante, e acaba por adoptar um cão de rua a que acaba por dar o nome de Caramelo (na verdade, é mesmo o Caramelo que o adopta a ele). O Pedro é depois diagnosticado com uma doença grave e o Caramelo é o seu grande companheiro nos momentos mais difíceis. Acho que qualquer pessoa que goste de animais e sabe a importância que podem ter na nossa vida vai adorar este filme (e provavelmente chorar também).

The penguin lessons - Já tinha lido o livro e a opinião que escrevi sobre ele o ano passado terminava com "Como é que ainda não foi transformado num filme? Não faço ideia." Pois, agora já foi.

Um professor de inglês decide dar aulas na Argentina. Durante a sua semana de férias, vai para o Uruguai, onde encontra um pinguim cheio de óleo numa praia. Leva-o para o quarto de hotel para lhe dar banho e depois tenta devolvê-lo ao mar. Excepto que o pinguim se recusa a voltar ao mar e o professor acaba por ter de o levar para o colégio onde dá aulas, onde se torna a estrela do colégio. É uma história real passada nos anos 70/80, quando a Argentina enfrentava uma crise política que aparece muito bem retratada tanto no livro como no filme. É uma história muito bonita e, sim, também é filme para chorar.

Inyenzi ou as Baratas de Scholastique Mukasonga

Uma história real sobre o genocídio no Ruanda

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Uma boa parte do meu conhecimento sobre o genocídio no Ruanda vem dos filmes «Hotel Ruanda» e «Shooting dogs».

Eu sabia que havia supostas diferenças físicas entre os hutus e os tútsis, nomeadamente em relação ao tamanho/forma do nariz e outros aspetos ridículos, que foram estabelecidas pelos belgas e sabia, que as tensões foram aumentando até culminarem no genocídio dos tútsis em 1994, em que famílias inteiras foram dizimadas e mais de um milhão de pessoas morreram.

Não sabia nem metade do que os tútsis passaram antes do genocídio em si. Neste livro, que é uma autobiografia, Scholastique Mukasonga conta-nos como tinha três anos quando aconteceram os primeiros massacres de tútsis.

Em 1960, a sua família foi enviada e fixada, juntamente com muitas outras, em Nyamata, um sítio no meio da selva, onde se ouvia os jaguares durante a noite e, quando se viam elefantes na estrada, as crianças nunca os ultrapassavam.

Apesar de existir uma quota de apenas dez por cento para os tútsis frequentarem o ensino secundário, Mukasonga frequentou o liceu de Kigali e, mais tarde, a prestigiada escola de assistentes sociais em Butare.

Depois, em 1973, os tútsis foram banidos das escolas, num episódio horrível em que os colegas de escola hutus se juntaram para os matar.

A autora acabou, como muitos outros tútsis, por fugir para o Burundi com o irmão, deixando os pais e outros irmãos no Ruanda. Tornou-se assistente social, trabalhou na UNICEF e mudou-se para França. Já era casada e tinha dois filhos quando o genocídio aconteceu, matando os seus pais, irmãos (incluindo uma irmã grávida que teve uma morte particularmente horrível) e quase todos os sobrinhos, num total de mais de 30 pessoas. Toda a gente os abandonou. Os brancos estrangeiros que trabalhavam no país foram rapidamente retirados, mas os tútsis ficaram abandonados à sua sorte, mortos pelos próprios vizinhos.

O meu pai declarou que seria boa para a família. E assentou arraiais ali. Foi lá que passou o resto da vida. Foi lá que o mataram, e à minha mãe. Agora não há ali nada. Os assassinos empenharam-se a fundo em apagar todos os vestígios da casa. O mato cobriu tudo. É como se nós nunca tivéssemos existido.

Li este livro para o Clube das Heróides. Gostei da escrita da autora, da história impressionante de como os estudos lhe salvaram a vida, no fundo. O título «Inyenzi» significa as baratas, que era aquilo que os hutus lhes chamavam para se distanciarem deles e das coisas horríveis pelas quais os faziam passar. É difícil (ou diria mesmo impossível) não ler este livro e não comparar este genocídio com o dos palestinianos em Gaza. É difícil ler as caixas de comentários sobre este assunto (eu já deixei de o fazer) e não pensar em quando é que nós perdemos a nossa humanidade, a nossa noção de direitos humanos.

No Fólio, o escritor José Eduardo Agualusa falou desta ideia de um hospital literário onde se receitavam livros. Depois brincou que quem sofresse de falta de empatia talvez precisasse de um ano inteiro de internamento só a ler livros. Este seria certamente um deles.