![ler-lolita-em-teerao-mar-maio.png]()
Há uns anos comecei a ler este livro e não avancei. Enfim, não era a altura certa. Agora, voltei a encontrá-lo numa biblioteca (porque a edição portuguesa está esgotadíssima há anos infelizmente) e a leitura fluiu.
Depois de se ter demitido do cargo de professora de literatura na Universidade de Teerão devido à pressão das autoridades iranianas, Azar Nafisi decide organizar na sua casa uma aula ou um clube do livro clandestino com 7 das suas alunas mais aplicadas.
A história decorre entre 1995 e 1997 e Azar Nafisi, em conjunto com as suas alunas, leem obras proibidas pelo regime e abordam, entre outras coisas, as suas experiências pessoais em relação ao que estão a ler, desde a falta de liberdade das mulheres no Irão à forma como a literatura pode ser um escape a uma realidade opressora.
As ruas de Teerão e de outras cidades iranianas são patrulhadas por milícias: seguem em carros patrulha Toyota brancos e compõem-se de quatro homens e mulheres com metralhadoras, por vezes seguidos por um mini-autocarro. Chamam-se os Sangue de Deus. Patrulham as ruas para se certificarem de que as mulheres usam os véus de forma adequada, não trazem maquilhagem, não andam em público com homens que não sejam os pais, os irmãos ou os maridos.
Uma das cenas que mais mexeu comigo foi quando uma das alunas estava de férias com cinco amigas, a cumprir todas as normas impostas pelo regime e, mesmo assim, não só foram presas pela polícia da moralidade como foram levadas a um médico para lhes fazer um teste de virgindade. Apesar dos resultados revelarem que eram virgens, foram na mesma condenadas a uma pena de prisão e a 25 chibatadas.
No final dos anos 90, as coisas pioram muito. Os protestos dos estudantes contra o regime vigente levaram à prisão de muitos, incluindo alguns dos alunos de Azar Nafisi. As histórias são aterradoras. Uma das alunas foi executada sem qualquer motivo. Uma outra rapariga (não aluna) foi violada por todos os guardas antes de casar com um e ser morta (a lógica era que não poderia morrer não casada e não virgem pois não iria para o paraíso...). A prisão era composta por tortura com interrogatórios prolongados e tiros de execução a meio da noite. Ninguém sabia quando chegaria a sua vez. Alunas que apanharam penas de 3 e 5 anos saíram após dois anos e meio em liberdade condicional (durante este regime, não podiam ir à universidade) e apressaram-se a casar para dar a imagem de que estavam a ser o que o regime queria que fossem: donas de casa, mulheres casadas e mães. Caladas. A usar o véu a cobrir o cabelo em todas as ocasiões.
Apesar da sua realidade opressora, estas jovens querem mais. Não querem ser obrigadas a casar porque sim, querem estudar, querem ir para os Estados Unidos, querem poder andar sem véu na rua, querem poder ler Lolita em Teerão, querem ser livres.
Os livros abordados na aula vão desde Lolita de Nabokov (que dá o título ao livro), Convite para uma decapitação do mesmo autor, Great Gatsby de F. Scott Fitzgerald, Madame Bovary de Flaubert e Orgulho e Preconceito de Jane Austen, entre outros. Quase todos banidos das livrarias e proibidos de ser impressos, importados de outros países, vendidos e lidos.
Azar também vai às suas memórias e recorda a guerra entre o Iraque e o Irão que durou de 1980 a 1988. Durante estes anos, Teerão era atingido com mísseis de forma constante e, não havendo abrigos antiaéreos, as pessoas não tinham onde se esconder. Azar lia pela noite dentro enquanto olhava pelos filhos e ouvia os mísseis a passar. Os mortos não eram vistos como vítimas mas como mártires e, em vez de se dar os pêsames à família, dava-se os parabéns por terem morrido por uma causa maior...
O livro foi adaptado ao cinema no ano passado e o filme é excelente, muito fiel ao livro. Podem ver o trailer aqui.
A versão do livro em inglês está disponível aqui. O livro também está disponível em audiobook. E também o podem procurar na biblioteca. Recomendo muito!