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O paraíso são os outros de Valter Hugo Mãe

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Ainda bem que me cruzei com este livro do Valter Hugo Mãe numa feirinha de verão que tinha muitos livros em segunda mão. É um livro muito bonito, ilustrado e é uma ode ao amor, não somente ao amor romântico, apesar de também falar sobre isso, mas ao amor pelos outros (incluindo a minha gata na fotografia).

Um dia, eu e essa pessoa desconhecida vamo-nos encontrar por algum motivo e uma intuição talvez nos diga que chegámos à vida um do outro. Eu nem sempre acredito nisso. Mas não posso deixar de estar atenta. Aliás, sou mesmo assim, fico atenta a toda a gente. Gosto de olhar discretamente. Confesso. (...)

Acho que invento a felicidade para compor todas as coisas e não haver preocupações desnecessárias. E inventar algo bom é melhor do que aceitarmos como definitivo uma qualquer realidade má. A felicidade também é estarmos preocupados só com aquilo que é importante. O importante é desenvolvermos coisas boas, das de pensar, sentir, ou fazer.

Valter Hugo Mãe escreve no posfácio que escreveu este livro na sequência de «A Desumanização», um livro que ainda não li. Aliás, no que toca a Valter Hugo Mãe, ainda só li «O apocalipse dos trabalhadores» e, entretanto, ele já escreveu tantos livros que nem sei bem por onde continuar. Aceito sugestões.

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O trabalho incrível da ânimas com cães de assistência

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Já conhecia há algum tempo o trabalho da ânimas, que é a associação para a qual faço sempre a consignação do IRS.

Recentemente, tive a oportunidade de conhecer alguns dos seus cães de assistência, saber mais sobre o trabalho que fazem e conhecer a história de uma das muitas famílias que ajudam.

Primeiro, os cachorros, que costumam ser Golden Retriever, labradores ou cruzados das duas raças, passam o primeiro ano com uma família de acolhimento que lhes dá mundo.

Depois, os cães são treinados durante cerca de dois anos para as tarefas que terão de realizar e, finalmente, são cedidos de forma gratuita a pessoas com diversidade funcional como, por exemplo, crianças neurodivergentes (com perturbações do espectro do autismo), doenças neuromusculares, surdez, entre outras.

O objetivo não é apenas aumentar a qualidade de vida destas pessoas mas, se vocês têm um cão provavelmente sabem que é um incentivo à socialização porque, quando saímos à rua com ele há sempre alguém que vem falar conosco ou que pergunta se pode fazer uma festa (e atenção, nunca deem festas a um cão, seja ou não de assistência, sem perguntar ao dono!).

Podem conhecer mais sobre o trabalho incrível da ânimas aqui.

Shuggie Bain de Douglas Stuart

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«Shuggie Bain» atraiu-me, em primeiro lugar porque estava na biblioteca (viva as bibliotecas!), e em segundo lugar, porque a história se passa em Glasgow, na Escócia, um país que me interessa muito e que visitei este ano. Nessa visita, quando fui a um pub havia um panfleto dos bombeiros de Edimburgo a pedir às pessoas que, se bebessem demasiado, não fossem fumar para a cama, pelo risco de incêndio. Quão grave tem de ser o alcoolismo num país para se ter de deixar este aviso?

Mas, voltando ao livro. Aqui acompanhamos a vida de Shuggie, que cresce nos anos 80 num bairro social em Glasgow, com dois irmãos mais velhos, já adolescentes, uma mãe alcoólica e um pai maioritariamente ausente.

A escrita de Stuart Douglas é muito bela. Por um lado, o retrato que faz da classe operária da Escócia naquela altura é muito realista. Depois, há qualquer coisa de quase doce na forma como escreve sobre este personagem que nos faz querer continuar a ler.

Shuggie tem uma vida difícil. É uma criança diferente das outras, que gosta de brincar com póneis e detesta jogar à bola e é gozado por isso. É muito protetor da mãe, de uma forma dolorosa para o leitor que tem de acompanhar a forma como esta criança tenta tomar conta da mãe alcoólica dia após dia, muitas vezes, faltando à escola para o fazer e sentindo-se culpado quando as coisas correm mal.

Fiquei curiosa sobre se havia traços autobiográficos nesta história e descobri coisas interessantes. Apesar do livro não ser autobiográfico, Stuart (o autor) cresceu numa família pobre em Glasgow, o pai saiu de casa quando ele tinha apenas quatro anos e ele e os dois irmãos mais velhos foram criados por uma mãe alcoólica com problemas de saúde mental.

Além disso, o autor demorou 10 anos a escrever este livro que foi rejeitado por mais de 40 editores! Stuart acredita que as histórias de operários têm pouca representação na literatura (o que é verdade), daí a falta de interesse em publicar o livro. Quando, finalmente, foi publicado em 2020, ganhou o Booker Prize.

E foi bem merecido, porque é um livro duro, importante e fabuloso, cheio de personagens inesquecíveis. Agora quero ler "Um lugar para Mungo", o segundo livro do autor.

O perigo de estar no meu perfeito juízo: o livro sobre saúde mental de Rosa Montero

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Descobri a não-ficção de Rosa Montero no verão do ano passado, quando li «A ridícula ideia de não voltar a ver-te» que amei e «A louca da casa» de que gostei. Este verão tive saudades da maravilhosa escrita da autora e aventurei-me com «O perigo de estar no meu perfeito juízo», um livro sobre saúde mental e sobre a relação entre esta e a literatura.

Enfim, no que me diz respeito o problema não é exactamente a depressão, mas a angústia. No entanto, quando dizemos que sofremos de crises de angústia, as pessoas que não navegaram nesse mar escuro não entendem do que falamos. Acham que nos referimos ao stress, a preocuparmo-nos demasiado com alguma coisa, a dar cabo da cabeça. (…) Mas não, não aconteceu. Um ataque de pânico é algo diferente. Pertence a uma dimensão desconhecida, é como uma viagem a outro planeta. O transtorno psíquico é um raio que nos fulmina. A sua chegada devastadora tem uma certa semelhança com os acidentes domésticos graves. Imaginemos, por exemplo, uma escorregadela e uma queda na casa de banho, que nos frature a coluna: um segundo antes a nossa vida era normal e vertical, indolor e sequencial (…) e um segundo depois, sem o termos previsto ou pensado, encontramo-nos na horizontal e quebrados, atónitos, indefesos, dilacerados por uma dor indescritível, apagados da nossa vida e da nossa realidade, por muito tempo, ou até para sempre.

Há muitas referências a autores e autoras conhecidos pelos seus problemas de saúde mental, como Virgínia Woolf e Sylvia Plath, que cometeram suicídio, entre muitos outros.

De resto, é a escrita de Rosa Montero, densa, cheia de referências mas com uma capacidade incrível de fazer a ligação entre tudo. Recomendo muito.

A única coisa de que não gostei foi haver tantas recomendações de livros que me interessaram que a minha lista de leituras aumentou consideravelmente...

De 0 a 10, qual é o vosso índice médio de felicidade?

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Quem diria que um livro com felicidade no título continha tanta infelicidade?

Este livro foi publicado em 2013, mas não deixa de ser atual. Daniel trabalha numa agência de viagens e fica desempregado quando tudo começa a ser feito pela internet. Deixa de conseguir pagar a prestação da casa e fica sem ela. A mulher e os filhos vão viver para perto dos avós.

Nós aprendemos a mexer-nos no mundo, habituamo-nos a determinados gestos, aceitamos a eficácia dos nossos instintos, e meia vida depois estamos viciados na perspectiva que temos de tudo. E então alguma coisa muda de repente e tudo aquilo que sabíamos fazer tão bem, com tanta facilidade, para resolver os problemas mais simples, torna-se inútil. Como é que o mundo mudou tanto?

Além disso, os seus dois melhores amigos encontram-se ausentes. Um deles está preso depois de ter ficado sem o seu negócio de sapataria e assaltar uma estação de serviço. O outro recusa-se a sair de casa e vive obcecado com as estatísticas do Índice médio da felicidade, em que se pergunta a alguém: Numa escala de 0 a 10, quão satisfeito se sente com a vida no seu todo?

Aqui e agora nunca são suficientes, travamos uma luta contínua, impossível de resolver, porque não aceitamos menos, porque queremos sempre mais.

Fiz o teste de fazer esta pergunta a alguns amigos e a resposta que mais recebi foi 7. Acho que é uma escolha segura, politicamente correcta. Com um 7 não somos nem demasiado felizes, nem propriamente infelizes. Na vida real, acho que a felicidade acaba por ser uma coisa ilusória. Estamos sempre à espera de qualquer coisa que achamos nós, nos tornará felizes. De comprar uma casa, de ter mais estabilidade financeira, de fazer aquela viagem, de estar numa relação... Acontece que, quando alcançamos alguma dessas coisas, há sempre outro objectivo à nossa frente e o presente vai passando quase como se não déssemos por ele.

Depois alguém me disse que a resposta certa era um 5. Metade dos dias são rotina e mais do mesmo e metade dos dias são bons, em que alguma coisa positiva acontece na nossa vida. E acho que até faz algum sentido.

Na verdade, Portugal tem um índice de 6.03, o que significa que está atrás de países como a Roménia, El Salvador, Kosovo ou Guatemala, mas à frente de países como a China, a Croácia, a Grécia ou a Rússia, por exemplo.

Voltando ao livro, apesar da vida de Daniel se desmoronar cada vez mais à medida que a história se vai desenrolando, ele tem sempre esperança de que as coisas melhorem.

Fiquei muito surpreendida com este livro e adorei o final. Há uma adaptação ao cinema que ainda não vi. De David Machado, já tinha lido e adorado o «Não te afastes» (que recomendo muito!) e também li «A educação dos gafanhotos» de que não gostei tanto.

E vocês, qual diriam que é o vosso índice médio de felicidade?

Mulheres refugiadas em Portugal de Francisca Gorjão Henriques

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Já aqui falei sobre alguns livros da Fundação Francisco Manuel dos Santos, como o «Vale a pena? Conversas com escritores», o «Adopção tardia» e o «Um dedo borrado de tinta: histórias de quem não pôde aprender a ler».

Hoje, venho falar-vos sobre o «Mulheres refugiadas em Portugal» que conta as histórias de três mulheres refugiadas a viver no país: Sandra, que fugiu de uma situação grave de violência doméstica no Zimbabué, Olena que vivia em Mariupol e fugiu da guerra da Ucrânia e Maryam que era jornalista em Cabul e fugiu aquando da retirada das tropas norte-americanas do Afeganistão.

Acabaram em Portugal por acaso. Nenhuma delas quis deixar a sua cidade, muito menos o seu país. Simplesmente não havia outra opção. A palavra «escolha» não combina com o estatuto de refugiado.

As conversas com estas mulheres e as suas histórias, de fuga, de integração ou de falta dela, são intercaladas com dados concretos sobre os longos tempo de espera que os refugiados enfrentam em burocracias, as dificuldades em aprender a língua, em arranjar alojamento, em arranjar um emprego (ainda mais se for na sua área de formação), em arranjar creche para os filhos para poderem trabalhar, em serem entendidas quando vão aos serviços de saúde.

Latifa, tal como Sandra, Olena, Maryam e tantas outras mulheres refugiadas, trazem consigo o seu passado, o dos seus pais e avós, trazem a história do seu país, da mais recente à mais remota. A sua experiência insere-se necessariamente numa narrativa maior, sempre marcada por algum tipo de violência da qual as mulheres são muitas vezes as primeiras vítimas. Contudo, não é isso que as define. Estão longe de serem o fantasma da pessoa que deixaram para trás. Estão no presente, agarradas à sua vida e a tudo o que podem construir com ela.

Recomento muito.

O tempo passa a correr

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No outro dia, fui fazer um exame médico. Como era de noite, estava só eu e uma senhora de idade.

Perguntou-me se ainda tinha avós e, quando disse que não, se ainda tinha pais, que idade tinham e o que faziam. Respondi e depois perguntei-lhe se tinha filhos e netos.

Disse-me que veio há 50 anos de África com 4 filhos (portanto, deduzo que no pós 25 de Abril). Lá, trabalhava como administrativa mas, assim que regressou a Portugal e com 4 filhos pequenos, não conseguiu voltar a trabalhar. Só os filhos já davam muito trabalho. Disse, orgulhosa, a profissão de cada um, que já tinha netos e até bisnetos. Mas que, estando todos bem encaminhados, já só se queria ir embora.

Percebia-se que a velhice lhe estava a custar muito. Disse-me que, quando olhava para trás, os 80 anos de vida tinham passado a correr. Mas que, agora, com tantos problemas de saúde, "bom era podermos escolher quando podemos partir e, para mim, já chegou a hora". Fiquei sem resposta.

As novelas gráficas incríveis da sul coreana Keum Suk Gendry-Kim

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«Erva» é uma novela gráfica de Keum Suk Gendry-Kim sobre a vida de Ok-sun Lee que é um murro no estômago.

A Segunda Guerra sino-japonesa foi um conflito que durou de 1937 a 1945 entre a China e o Japão. Durante este período, a Coreia pertencia ao Japão e raparigas com 13/14/15 anos foram levadas da Coreia para casas de conforto na China.

Estas raparigas foram usadas como escravas sexuais pelo Exército Imperial Japonês.

Viviam em casas no meio do nada e de onde não podiam fugir. Os soldados entravam quando queriam, faziam o que queriam e por quanto tempo queriam.

Algumas morriam, outras apanhavam doenças sexualmente transmissíveis ou engravidavam.

É esta a história de Ok-sun Lee que agora a conta 55 anos depois enquanto vive numa casa dedicada a "mulheres de conforto" na Coreia do sul.

Infelizmente, Ok-sun Lee sonhava viver com a sua família, mas foi rejeitada por ter sido uma "mulher de conforto". A vítima é vista como culpada. Reparem no termo que se usava para descrever estas mulheres, "mulheres de conforto", quando na realidade eram escravas sexuais.

Depois temos «A espera» da mesma autora. Os coreanos não tiveram descanso e, em 1950, explodia a Guerra das Coreias que iria levar à divisão entre a Coreia do Norte e a Coreia do Sul.

Neste contexto, milhares e milhares de pessoas fugiram para o sul para fugir da guerra. Pelo meio, muitas perderam-se dos seus familiares ou tiveram de fugir sem os conseguir ir buscar. Assim, milhares de famílias ficaram separadas pela fronteira.

Este livro conta a história de Gwijá que tem 92 anos e vive na Coreia do Sul e ainda tem a esperança de rever o filho antes de morrer, de quem se perdeu durante a travessia.

A Cruz Vermelha em conjunto com o Ministério da Unificação da Coreia do Sul organizam reencontros, troca de cartas e vídeos entre familiares separados pela fronteira. Há cerca de 133 mil sul coreanos inscritos para rever familiares, sendo um terço já morreu sem ter essa oportunidade. Estes encontros funcionam por lotaria. Sorteiam-se 100 pessoas entre todas as que estão à espera e são essas que vão a um território neutro na fronteira reencontrar filhos, maridos, irmãos, que não vêem há décadas. Até 2023, apenas 4 mil famílias tinham tido esta oportunidade.

Keum Suk Gendry-Kim é crua e empática nas histórias que conta. Recomendo muito estas duas novelas gráficas. Tem mais dois livros publicados em Portugal e tenciono lê-los.

Como é dito no posfácio de um dos livros, os coreanos que sofreram com estas duas guerras, as mulheres que foram usadas como escravas sexuais, as famílias que foram separadas pela divisão da península da Coreia, estão a morrer. Não podemos esquecer as suas histórias. Ambos os livros são uma lembrança cruel de que a história se repete. Nas guerras, as mulheres tornam-se alvos fáceis e são, muitas vezes, violadas e humilhadas. Sabemos que isto aconteceu na Ucrânia. Sabemos que aconteceu na Palestina. Na atualidade, mais de 70 anos depois das atrocidades contadas nestes livros.