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Ler, escrever e viver

Ler, escrever e viver

Uma valsa com a morte de João Tordo

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Este livro de João Tordo é uma série de ensaios sobre uma miscelânia de temas, como a música, a literatura, a religião, a espiritualidade e a morte.

Tenho alguma dificuldade em escrever sobre este livro, porque houve partes que não me disseram nada (o jazz e a ligação à música, por exemplo) e outras de que gostei bastante, como algumas reflexões sobre saúde mental:

Quando pensamos bem nas coisas, é quase ridículo que muitas pessoas tanto resistam a um tratamento comprovado. Não há nenhum diabético que faça este tipo de resistência à insulina, nem nenhuma pessoa com uma reação alérgica fatal que recuse uma injeção de epinefrina para salvar a sua vida. Aqui radica, porventura, um dos problemas - a ansiedade, a depressão e as suas variantes (incluamos também o alcoolismo, por exemplo) só recentemente ganharam o estatuto de «doenças»; no subconsciente, porém, continuam a ser interpretadas como fraquezas do espírito ou um «mal moral», que deve ser corrigido naturalmente.

Comparando com o último livro de não ficção do João Tordo que li, continuo a preferir o «Manual de sobrevivência de um escritor».

Fui fazer yoga com cachorros!

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Há algumas semanas, fui fazer puppy yoga. Basicamente, é uma aula de yoga em que podem interagir livremente com cachorros que pertencem a uma associação e que estão para adopção.

No meu caso, as cachorras eram de uma ninhada muito fofa que está para adopção no Centro de Recolha de Animais de Loures. Pudemos interagir um pouco com elas antes da aula, durante a aula de yoga (que durou cerca de 40 minutos) e depois mais uns 20 minutos no final da aula.

Além de terem uma experiência divertida e fora do vulgar, podem voltar para casa com um novo amigo de quatro patas. Mesmo que não possam adoptar, uma parte do valor do bilhete reverte para a associação em causa e podem sempre levar ração ou outros produtos de que a associação esteja a precisar.

Podem saber mais sobre este projecto, que decorre em Lisboa, aqui.

Se não forem da zona de Lisboa, há um projecto semelhante, que junta yoga ou pilates com cachorros ou gatinhos, na zona de Braga, Porto e Algarve, que podem conhecer aqui.

Um dedo borrado de tinta de Catarina Gomes: as histórias de quem não aprendeu a ler

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A minha avó, nascida e crescida em Trás-os-Montes não aprendeu a ler nem a escrever quando era miúda. Muitos anos mais tarde, quando já tinha netos, houve um programa de alfabetização na zona onde vivíamos e, foi aí, que aprendeu alguma coisa. Lia devagar, não conseguia acompanhar legendas, por exemplo. Escrevia pouco e com erros. Lembro-me que tinha dificuldade em escrever o meu nome "Inês", porque trocada o "e" com o "i" e o "^" por um "´". E foram essas lembranças que me puxaram a ler este livro.

Este livro de Catarina Gomes, editado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, conta histórias de quem não aprendeu a ler e a escrever na zona de Braga, no distrito de Casteleiro, uma das freguesias com maior taxa de analfabetismo.

A maioria das histórias são de mulheres que não puderem aprender a ler para ficar a cuidar dos irmãos, do lar, do gado. Alguns têm de confiar as suas cartas pessoais à funcionária dos correios e, durante a sua ronda, o carteiro Rui não se pode esquecer da sua almofada para os que só conseguem assinar com o indicador direito.

Já aqui recomendei vários livros da Fundação e vou continuar a fazê-lo porque estes retratos valem sempre a pena e trazem uma perspectiva de um país que, muitas vezes, desconhecemos.

50 coisas que aprendi até aos 31 anos


  1. Só porque experimentaste algo uma vez e não funcionou não significa que não seja para ti.

  2. Mas também não há mal nenhum em experimentar algo e não gostar.

  3. Nunca vires as costas ao mar.

  4. A melhor terapia é mesmo fazer terapia (mas é caro...).

  5. Tudo bem dizer “eu não sei”.

  6. Tudo bem dizer "eu não quero isto para mim".

  7. Votar importa, sempre.

  8. Ser interessado por política também apesar de, às vezes, ser extremamente frustrante.

  9. Os “e se’s” são uma perda de tempo para o passado mas podem ser bons para o futuro.

  10. O luto não é um processo passivo, é mesmo preciso vivê-lo.

  11. Ter um PPR é sempre uma boa ideia.

  12. Fazer um certificado de aforro também.

  13. Ter um seguro de saúde privado também (infelizmente).

  14. Vale sempre a pena seguir a nossa curiosidade.

  15. Viajar é bom, mas, às vezes, o melhor é mesmo ficar no nosso sítio com as nossas pessoas.

  16. Às vezes, precisamos de “perder tempo” a fazer as coisas que gostamos de fazer para ganhar energia e vontade de fazer as coisas que precisamos de fazer.

  17. Há poucas coisas em que valha tanto a pena investir dinheiro como em experiências (concertos com amigos, viagens, museus), formação e, mais importante ainda, saúde.

  18. Ouvir os médicos é importante, mas um médico que estudou uma doença na faculdade sabe menos sobre ela do que um paciente que viveu com ela a vida inteira.

  19. Se queres um bom médico, não perguntes a outro médico. Pergunta a pessoas com o mesmo problema de saúde que tu.

  20. Nunca se deve adiar check-ups, análises e exames médicos. Nunca.

  21. Tudo bem mudar de ideias, faz parte.

  22. É duro ver os nossos pais envelhecer, mas só torna mais importante o tempo que passamos com eles.

  23. Ter um cão é mesmo uma das melhores coisas da vida.

  24. Gatos idem, e dão muito menos trabalho.

  25. Se um livro não nos agarra nas primeiras páginas, para quê perder tempo a lê-lo (idem para filmes e séries)?

  26. O cinema paradiso é o melhor filme de sempre (seguido pelo E.T. e pelo clube dos poetas mortos).

  27. Dormir bem é muito importante (se for preciso tomar comprimidos para isso acontecer, está tudo bem).

  28. Não temos de gostar de toda a gente, mas temos de respeitar toda a gente.

  29. Há qualquer coisa de muito terapêutico no mar (mas também há peixes-aranha...).

  30. Escrever num blog é um ótimo exercício de reflexão e um bom hobbie.

  31. A maioria das decisões não são irreversíveis.

  32. Progredir lentamente é sempre muito melhor do que não progredir de todo.

  33. Ler faz bem, mas não é preciso gastar dinheiro em livros, quando se tem uma biblioteca por perto.

  34. Pedir sugestões aos bibliotecários também é sempre uma boa ideia.

  35. Aquilo que os outros dizem sobre ti (ou pensam) raramente é sobre ti.

  36. Às vezes, os problemas da vida resolvem-se sozinhos.

  37. Somos capazes de mais do que imaginamos.

  38. As amizades na idade adulta são mais difíceis de manter, mas não deixam de valer a pena o esforço.

  39. É importante usar protector solar na cara todos os 365 dias do ano (ou 366).

  40. Fazer uma caminhada é sempre uma boa ideia (se não estiver a chover).

  41. Tudo bem aceitarmos que há coisas que não são para nós (por exemplo, durante muitos anos quis experimentar paraquedismo, agora olhem, façam vocês, obrigada).

  42. Como dizia o Dumbledore, não é bom estarmos tão obcecados com o futuro que nos esquecemos de viver o presente.

  43. Não vale a pena investir numa relação com alguém que não partilha os nossos valores.

  44. Perder alguém que amamos custa muito e as saudades ficam para sempre.

  45. A vida, às vezes, tem boas surpresas para nós.

  46. Vivemos de memórias, e vale sempre a pena investir nelas.

  47. E é muito duro lidar com alguém que perdeu as suas...

  48. Menos séries, mais livros.

  49. Aprender a pedir ajuda é das coisas mais importantes que podemos aprender na vida.

  50. Fazer exercício físico é importante (mesmo que, às vezes, custe sair de casa...).

O livro ilustrado de Frida Kahlo

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Já há neste blog um post sobre uma exposição de fotografia de Frida Kahlo, um post sobre o seu diário, um post sobre o livro ilustrado de María Hesse e um post sobre um romance sobre a sua vida, mas eu acho que nunca é demais falar sobre a vida sofrida da artista, e os seus belíssimos auto-retratos.

«Frida» de Sébastien Perez e Benjamin Lacombe foi o primeiro livro que li em espanhol, e é também um dos mais belos livros ilustrados que vi na vida, e que tenho na minha estante.

Não há muitas informações sobre a vida de Frida, porque o livro tem pouco texto, tirando um posfácio no final, mas também não é esse o objectivo do livro. Não é um livro para quem sabe pouco sobre a vida de Frida.  Para isso, recomendaria mais o livro ilustrado de María Hesse ou o romance de Caroline Bernard. É um livro para quem conhece a vida e o legado da artista e quer vê-lo através de uma perspectiva diferente.

Hace poco, casi unos dias, era una niña que caminaba por um mundo de colores, de formas duras y tangibles. Todo era misterioso y ocultaba algo (...). Ahora habito en un planeta doloroso, transparente, como de hielo, pero que nada oculta.

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Um ano

Faz hoje um ano que perdi a minha avó a poucos dias de fazer trinta anos.

Perdeu a consciência e foi levada para as urgências de um hospital público. O caos do SNS é tanto que, durante três dias, não conseguimos saber absolutamente nada sobre o seu estado de saúde. Ligámos, fomos lá, insistimos e persistimos e nada. Ninguém nos sabia dizer se já tinha feito exames, e quais, onde estava e o que se passava com ela. Falávamos em alta sem saber que ela jamais sairia daquele hospital.

Quando, finalmente, a fomos ver estava num corredor da urgência do hospital. Tinha tido um AVC grave sem quaisquer perspectivas de recuperação. Já não era ela naquela cama e já não sairia dali. Foi internada na medicina interna quando abriu uma vaga e foi ali que morreu.

Umas semanas depois dela morrer, recebi um inquérito de satisfação do hospital a perguntar se estávamos satisfeitos com o processo de alta (alta para a morgue?). Reclamei. Recebi um pedido de desculpas. Aceito mas não perdoo. Não consigo perdoar um sistema que não trata os idosos com dignidade. Que os descarta para corredores de urgências e que nem sequer se preocupa em informar os seus familiares do seu estado de saúde.

Mas, no final do dia, não é do péssimo serviço do SNS que me quero lembrar. Quero lembrar-me da avó que me dava dinheiro às escondidas e que dizia “não contes ao avô”, que me comprava chocolate branco (sempre branco) no minipreço, que me fazia limonada com suplementos para ver se eu crescia só mais um bocadinho (não resultou), da avó que me ensinou a nunca virar as costas ao mar, da avó que me dizia que se não comesse a sopa ia dizer ao meu avô e que, depois quando o meu avô chegava mentia a dizer que sim, que eu estava a comer a sopa toda (e era sempre mentira), da avó que me fazia cerelac enquanto eu via o batatoon ou o sítio do pica-pau amarelo ou as chiquititas, que me comprava sempre uma fartura na feira e reclamava que aquilo era só gordura, da avó que foi obrigada a dar à filha o nome da patroa à qual limpava a casa porque tinha de ser, da avó que não foi à escola porque começou cedo a trabalhar para ajudar os pais, da avó das férias no Algarve, da avó que guardava religiosamente os postais que lhe enviava das férias mesmo mal sabendo ler e que, mesmo não gostando de animais, muitos aturou no final da vida, da avó que me perguntava sempre se não me sentia sozinha a viver sozinha, que me comprou um cadeado para a porta de casa e que me perguntava sempre quando é que me ia ver outra vez. Até ao dia em que não houve próxima vez.

Diário de uma invasão à Ucrânia de Andrei Kurkov

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A minha curiosidade em ler este livro surgiu depois de ter visto o documentário «20 dias em Mariupol» que ganhou, com todo o mérito, o óscar de melhor documentário nos óscares deste ano. O jornalista Mstyslav Chernov retrata a saga vivida pelos jornalistas da AP, os únicos que ficaram na cidade à medida que os russos se aproximaram. «Filmem isto!» pediam os médicos perante as crianças que não conseguiam salvar, perante uma maternidade bombardeada, perante cadáveres empilhados na cave. É duríssimo, mas extremamente necessário. E uma prova de que o bom jornalismo ainda existe.

Este livro de Andrei Kurkov é um diário sobre a guerra, escrito entre 3 de Janeiro de 2022 e 3 de Julho de 2023, de um escritor que decidiu permanecer na Ucrânia, depois de fugir de Kyiv para a Ucrânia ocidental.

Nota-se um esforço grande por parte de Andrei para relatar a guerra, mas também reforçar o sentimento de independência da Ucrânia e do espírito ucraniano. Andrei fala, por exemplo, da importância da produção de mel para a Ucrânia e da grande tradição de apicultores no país (alguns tentaram salvar as suas colmeias retirando-as das zonas ocupadas), dos poetas e escritores perseguidos pelos russos quando as suas cidades são ocupadas, do orgulho na cultura ucraniana.

Também fala muito de política e do papel da Europa nesta guerra:

É assustador escrever estas palavras mas vou escrevê-las de qualquer maneira: a Ucrânia irá tornar-se livre, independente e europeia ou deixará de existir de todo. Depois, irão escrever sobre ela nos livros de História da Europa e irão esconder o facto de que a destruição da Ucrânia apenas foi possível devido ao consentimento tácito da Europa e de todo o mundo civilizado.

Apesar da seriedade da situação, Andrei consegue imprimir um humor, uma ironia muito própria naquilo que escreve (e muito bem-vinda num livro que poderia ser demasiado pesado):

As praias de Kyiv também estão cheias de gente. Os sapadores foram meticulosos ao verificar tudo - não há minas. Além disso, os serviços de saneamento informaram que as praias de Kyiv receberam um tratamento com substâncias anticarraças. De modo que, agora, os banhistas têm apenas de se preocupar com os mísseis russos.

Ou neste excerto, em que o autor se refere ao facto dos russos deixarem nas cidades que ocupam um jogo de perguntas (sim, um jogo, uma espécie de trivial pursuit sobre a história da Rússia) chamado «O Mundo Russo»:

Tento imaginar os habitantes de Izyum - num apartamento com janelas e portas destruídas, sentados a uma mesa cheia de estilhaços de bombas - a jogarem a esse «O que sabem da Rússia?»

Apesar de ser ridículo, quando juntamos este jogo com o facto dos russos terem bombardeado museus, casas-museu de artistas e perseguido (e executado) escritores e jornalistas, torna-se claro que há uma intenção de apagar a cultura ucraniana e de a substituir pela cultura russa, ou soviética. Felizmente, alguns espólios de museus foram salvos e transportados para territórios não ocupados, mas outros foram destruídos ou roubados pelos russos.

É um diário e, portanto, foca-se bastante na visão e nas experiências do autor, mas é muito bem escrito e, ainda não sei como é que o autor conseguiu fazer isto mas, para um diário de guerra, tem um humor muito próprio.

«Quando perguntam aos ucranianos se estão a preparar-se para o fim do mundo, eles dizem que sim, estão; para o fim do mundo e para os seis meses que se seguirem.»

Além do livro e do documentário, recomendo também este texto sobre a destruição do património cultural da Ucrânia.

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