25 de Abril sempre ❤️






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Uma mulher entrar numa igreja de cabeça descoberta. Ir de minissaia, ou calças, para o liceu. Uma mulher casada viajar para o estrangeiro sem autorização do marido. O divórcio pela igreja. Casar com uma professora. Usar biquini na praia. Beber coca-cola. Jogar às cartas no comboio. Usar um isqueiro sem uma autorização especial. Dar beijos em público. Ser homossexual. Andar de bicicleta sem licença. Sacudir o pó. Ajuntamentos de mais de três pessoas que não fossem religiosos ou desportivos. Editar e vender certos livros. Ler certos livros, como muitos de Jorge Amado, de Maria Teresa Horta e de Natália Correia. Comprar, vender, e ouvir certos discos. Realizar e ver certos filmes.
Este livro entra em detalhes sobre todas estas proibições. Além disso, está recheado de fotografias da época e de anúncios publicitários que são simplesmente deliciosos de ver.




Confesso que fiquei surpreendida quando vi que o livro «Identidade e família», que foi apresentado por Passos Coelho e escrito por uma panóplia de autores está em primeiro lugar nas vendas da Wook. Não devia ter ficado, tendo em conta o resultado das últimas eleições e os dados que indicam que, na geração Z, as raparigas estão cada vez mais progressistas e os rapazes cada vez mais conservadores (dados daqui).
Não comprei o livro, porque tenho coisas mais úteis em que gastar o meu dinheiro, mas li a introdução que julgo ter sido escrita por todos os autores, porque não está assinada e que está disponível na preview da Wook.

Toda a introdução se pode resumir no parágrafo de cima: a família tradicional (pai, mãe e filhos) é uma coisa boa para a sociedade e tudo o que fuja a este padrão é mau para a sociedade.
Enfim, por partes:
1) Não há famílias perfeitas (se há, eu não conheço nenhuma). Nem há pais perfeitos, nem há filhos perfeitos.
2) Esta introdução tem um ponto interessante que é o facto de apresentar referências de vez em quando, mas não nos pontos fundamentais. Onde estão os estudos que mostram que os filhos de uma "família tradicional" são mais saudáveis a nível mental e mais bem sucedidos do que os filhos de uma família não tradicional? Já disse que só li a introdução, por isso, não sei se haverá referências mais para a frente mas, a haver, espero que não sejam a bíblia que é citada logo no primeiro capítulo e que não constitui propriamente um artigo científico.
Por exemplo, aqui:

Mais uma vez, este parágrafo aparece sem quaisquer referências. Porque é que numa família com dois pais, duas mães, uma mãe, um pai, dois avós, numa família reconstruída com padrasto e madrasta não pode haver uma boa vinculação afectiva e um desenvolvimento psicológico saudável? Onde é que estão os estudos que demonstram isso?

3) Acho que ninguém discorda disto, mas porquê que numa família não tradicional não pode haver amor, compreensão, transmissão de valores e tudo aquilo de que uma criança precisa para crescer bem? E, já agora, porque é que estamos a assumir que as "famílias tradicionais" são perfeitas e geram cidadãos conscientes? Vamos ignorar os casos de violência doméstica nas famílias ditas tradicionais?
4) Acho que também ninguém discorda de que precisamos de mais apoio às famílias, algo que a introdução também refere. Como se costuma dizer "it takes a village to raise a child" e, com a pressão do trabalho e da vida, perdemos a vila. Precisamos de mais creches gratuitas, de melhores licenças de parentalidade, de um SNS com mais qualidade, de que os preços das casas e rendas baixem para que quem quer ter filhos, ou quer ter mais filhos, independentemente do contexto familiar, o possa fazer. É uma pena que este livro se foque na família tradicional católica em vez de se focar em tudo aquilo que as famílias efectivamente precisam e que traria melhorias a toda a sociedade.
Sobre isto, vale a pena ler:
Como seria hoje se aquela conversa tivesse sido diferente? Se não tivéssemos ido cada um para seu lado? Se tivéssemos escolhido um caminho diferente?
É muito sobre estas questões que se debruça este livro de Joana Bértholo. Temos duas pessoas que foram outrora um casal e que, dez anos depois de se terem separado, se reencontram na cidade de Lisboa. A sua história percorre as ruas de Buenos Aires, Marselha, Berlim, Beirute.
É um livro sobre a complexidade das relações, sobre a maternidade (ou a decisão da não maternidade):
Mulheres que sabem o que querem, que são ciosas do seu tempo e espaço e não abdicam deles facilmente, tendem a ser adjectivadas de egoístas ou autocentradas. O ensaio de Woolf (Um quarto só seu) predispunha-me para uma oposição que me duraria o resto da vida. Quando deixasse se ser sobre o tempo ou sobre o espaço, seria sobre o meu próprio corpo. A maternidade: como conseguir um quarto só para mim onde tomar esta decisão, sem pressão explícita ou implícita?
E também sobre o privilégio de uma geração (a minha) que teve acesso a oportunidades incríveis (de fazer erasmus, de fazer voluntariado europeu, ao programa LeonardoDaVinci), uma geração para quem o mundo (ou, pelo menos, a Europa) se tornou casa.
Este foi o primeiro livro que li de Joana Bértholo. Achei o livro extremamente bem escrito e a história muito bem construída. Quero ler mais livros da autora.
No podcast «A beleza das pequenas coisas», Bernardo Mendonça menciona uma quote de Alexandra Lucas Coelho para o Público:
Não é Auschwitz. É Auschwitz em direto. Milhões de vidas para salvar agora. Não isolar Israel é ser parte do crime, da doença. A utopia acabou.
Já escrevi aqui sobre as novelas gráficas de Joe Sacco e o livro «Um detalhe menor», mais atual e de uma autora palestiniana. Mas ler e escrever sobre uma guerra que já matou 30 mil pessoas nunca deixa de ser impactante. E, arrisco-me a dizer, que o perigo é deixar de o ser. É ligarmos a televisão, vermos as imagens de Gaza e deixarmos de sentir o impacto de um genocídio a acontecer à nossa frente, a empatia que nos faz pensar como seria se fôssemos nós, as nossas famílias, tudo aquilo que amamos e conhecemos a ser destruído sem dó nem piedade.
O livro de Alexandra Lucas Coelho, «Oriente próximo», junta conteúdo escrito para o livro, reportagens e crónicas sobre Israel e a Palestina escritas entre 2005 e 2007. Pode parecer desactualizado, mas tal como os livros de Joe Sacco, que se passam nos anos 90, em ambos os casos aquilo que está a acontecer agora já se fazia anunciar.
Confesso que me custou a entrar neste livro, porque o primeiro capítulo é denso e cheio de informação histórica. Depois disso, são histórias, as histórias das pessoas com quem Alexandra Lucas Coelho se cruzou. Há histórias de palestinianos deslocados e de familiares de bombistas suicidas. Há histórias de judeus e de judeus ultra-ortodoxos. Há histórias de quem teme o Hamas e de quem a ele pertence.
Palavras de Orna Khon, advogada judia de uma organização de defesa dos direitos dos palestinianos israelitas, sobre a Lei da Nacionalidade e Entrada em Israel:
«Israel é uma falsa democracia quando discrimina com base na etnicidade.» Ou seja, dividindo os cidadãos entre judeus e não-judeus. (...) Desde então foram criadas leis como a Lei da Nacionalidade e Entrada em Israel que impede os palestinianos dos Territórios que sejam casados com palestinianos israelitas de viverem em Israel. «É uma lei apenas baseada na etnicidade, não só discriminatória como racista. (...) Esta lei afeta milhares de famílias, a quem é negado o direito básico da reunião familiar. (...) A contradição de base está no facto de Israel ser uma democracia e um Estado judaico. Ser uma democracia significa todos os cidadãos serem iguais.»
Este livro também fala bastante sobre a ascensão e eleição do Hamas, em relação à qual se sente bastante tensão e apreensão por parte das pessoas com quem Alexandra Lucas Coelho fala sobre o assunto:
Receio uma guerra civil, sim. O Hamas vem dos campos miseráveis de Gaza, de gente que sonhava ser professor como ambição máxima. (...) Quando se tem fome fica-se com raiva.
E sobre a história desta fotografia, tirada ao músico palestiniano Ramzi quando tinha apenas 8 anos:
«Foi a primeira vez que atirei uma pedra. Eu vinha da escola com um amigo e começámos a ouvir tiros. Quando olhei para o lado ele estava morto.» Viu os soldados israelitas à sua frente. Agarrou na pedra. Nem pensou que podia morrer. Uma raiva, uma dor sem medo. Um fotógrafo apanhou-a por acaso, e a cara de Ramzi correu mundo.
E fala sobre os bombardeamentos israelitas e o constante incumprimento dos acordos internacionais:
O tio de Saafa está de visita para fazer uma proposta: enquanto durar a ofensiva israelita, não seria melhor dividir os filhos por várias casas?
- Sabemos de famílias que foram completamente atingidas. É para não os perdermos todos.
Claro que há muito mais para descobrir neste livro do que conseguiria cobrir aqui, mas vale muito a pena ler este livro de Alexandra Lucas Coelho que, além da edição física revista lançada agora pela Caminho, também está disponível no Kobo plus.

Bad sisters - Uma série irlandesa (hilariante) sobre um grupo de cinco irmãs. Basicamente, uma delas tem um marido que é um autêntico traste e as outras quatro irmãs conspiram várias tentativas de assassinato que correm sempre, mas sempre da pior forma possível. É uma série de humor negro, com personagens cheios de vida, engraçada, mas com momentos dramáticos e um plot twist genial.
O problema dos 3 corpos - Eu (pessoa que não gosta de ficção científica) gostei bastante desta série da Netflix. Basicamente, uma mulher na China dos anos 60 faz contacto com alguma civilização extra-terrestre e essa decisão traz problemas para o presente, onde um grupo de amigos e cientistas tenta resolver esta crise para o planeta. É baseado numa trilogia da autora Liu Cixin (os livros estão editados pela Relógio d’Água), pelo que penso que teremos mais duas temporadas.
Milagre na cela 7 - Eu sei que o filme também já tem uns aninhos, mas evitei vê-lo por ter a ideia que era uma história muito dura. E sim, é. Mas também é um filme muito bonito. Aqui seguimos a história de um pai com dificuldades de desenvolvimento que é acusado de um crime que não cometeu e só quer voltar para perto da filha. A história passa-se na Turquia e é daqueles filmes mesmo obrigatórios. Gostei muito (e sim, chorei um bocadinho).
Ordinary angels - Mais um filme para chorar, mas em bom, ou seja, daqueles que nos faz ter um bocadinho mais de fé na humanidade. É baseado na história verídica de uma criança que precisa de um transplante de fígado e de uma mulher que consegue mobilizar uma comunidade inteira para a ajudar.
E vocês, já viram algum destes filmes/séries?
Já tinha lido e gostado muito do livro de crónicas de Carmen Garcia «Tudo que o que ouço é coração». Depois disso decidi ler este livro sobre a velhice em Portugal.
Carmen começa por fazer uma introdução aos lares no nosso país:
Em Portugal, é uma merda ser-se velho. O nosso país não está preparado para honrar quem o antecedeu, os nossos lares continuam parados no tempo e presos a um conceito que não dignifica os seus utentes e, desgraçadamente, vejo pouco interesse em mudar práticas que são pouco mais do que uma abominação. E as famílias, por muito que tentem, confrontadas com idosos completamente dependentes e crivados de comorbilidades, pouco mais podem fazer do que institucionalizá-los.
Não deixa de ser gritante que, durante toda uma campanha eleitoral, e sabendo que 25% da população tem 65 anos ou mais, não se tenha falado de velhice. Falou-se de pensões sim, mas não se falou de melhorar os cuidados prestados aos idosos nos lares, de aumentar a oferta (porque os lares privados são caríssimos para as reformas que muitos idosos recebem), não se falou de melhorar a dignidade na velhice.
Depois da introdução, Carmen conta histórias de idosos que foi conhecendo ao longo do seu percurso como enfermeira em lares. Algumas são muito tristes, outras são decepcionantes (porque nos esquecemos que nos idosos também podem ter cometido muitos erros na vida), outras são comoventes. Todas são importantes para vermos e conhecermos a história para lá daquela pessoa que ocupa um lugar num lar.
Quer queiramos quer não, e sejamos honestos, ninguém quer, à partida, todos seremos velhos e todos vamos morrer. Por isso, acho que este livro devia ser de leitura obrigatória e espero que leve mais gente a sentir a urgência de tornarmos a velhice cada vez mais digna para os nossos avós, pais e, um dia também, para nós.