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Livros, viagens e tudo o que nos acrescenta

Criaturas extremamente inteligentes de Shelby Van Pelt

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Se eu alguma vez pensei escrever aqui sobre um livro com um polvo como narrador? Não, mas aconteceu, e ainda bem.

Na parte dos agradecimentos, a autora deste livro conta que a sua editora escreveu nas margens das passagens em que temos um polvo a narrar a história que ou era uma ideia doida ou genial. Eu acho que resultou muito bem.

Este livro, que tem uma capa lindíssima, conta a história de Tova, que começa a trabalhar à noite nas limpezas de um aquário. Enquanto trabalha, Tova acaba por se aproximar do polvo do aquário, um velhote chamado Marcellus, que gosta de escapar do seu aquário durante a noite para fazer uns passeios, porque a vida não pode ser só a rotina de todos os dias, não é verdade? E, lá está, Marcellus é o narrador de alguns capítulos do livro.

Esta é uma história leve, sobre amizade, sobre perda e sobre segredos que se lê muito bem.

A única coisa de que não gostei foi o final, que achei demasiado apressado. Sinto que a autora passou 300 páginas a desenvolver a história e depois teve de resolver tudo em poucas dezenas de páginas, deixando algumas pontas soltas.

Ainda assim, é um óptimo romance de estreia, que me fez pensar muito no documentário da Netflix «The octopus teacher», que é imperdível.

Pageboy: o livro de memórias de Elliot Page

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«Pageboy» é o livro de memórias de Elliot Page, o actor que se tornou conhecido com o filme «Juno» e que fez muitos outros filmes e séries como a «The Umbrella Academy».

Apesar do livro já estar traduzido em português, com o mesmo título que em inglês, optei por ouvir o audiobook que é lido pelo próprio autor. Não sei se foi a decisão mais acertada, porque Elliot não escreveu o livro por ordem cronológica. O livro vai alternando entre memórias de acontecimentos mais recentes e memórias de infância de uma forma demasiado confusa (pelo menos, para alguém que está a ouvir o audiobook). Tive de voltar atrás algumas vezes para situar o que ele estava a contar na vida dele. Apesar disso, achei o livro muito bem escrito e gostei de ouvir o audiobook.

Para alguém que conheça minimamente a história de Elliot Page não é difícil adivinhar os temas deste livro. Elliot escreve sobre a sua infância como filho de pais separados, escreve (muito) sobre homofobia, sobre assédio em Hollywood, sobre o seu distúrbio alimentar e, por fim, sobre a sua transição, apesar desta ocupar uma pequena parte no final do livro.

“Dennis, what are you gonna do if Ellen’s a dyke?” my grandmother asked my father as we all sat in her sunroom. Her voice that same sharp tone she used when saying racist things. In the Alanis Morissette version of irony, this was the same grandparent who had given me a bear with rainbows on its paws and ears when I was born.

Duvido que haja alguém que não tenha visto ou que, pelo menos, não tenha ouvido falar do filme «Juno». O filme foi um fenómeno e, com isso, “jornalistas” encheram páginas e páginas a dissertar sobre a orientação sexual de Elliot Page. Apesar de Hollywood ter esta fachada de ser muito “woke”, a verdade é que Elliot era aconselhado por agentes a manter a sua orientação sexual escondida, para não prejudicar a carreira.

Há muitos episódios pesados neste livro. Elliot escreve sobre um episódio grave de assédio por parte de um actor muito conhecido (que nunca chega a mencionar pelo nome) e sobre um episódio com um stalker que acaba preso.

Mais para o final do livro, Elliot escreve sobre a sua transição. Uma das coisas que fica claro na introdução do livro é que o actor está apenas a contar a sua experiência e este livro não pretende ser o reflexo de uma comunidade nem nenhum ensaio sobre disforia de género ou sobre transexualidade.

“We spoke about gender, I shared the degree of my discomfort, how even when I was playing a role, I couldn’t wear feminine clothes anymore. (…) Walking down the sidewalk, I’d glance at a store window to check my profile, my brain consumed. I had to avoid my reflection. I couldn’t look at pictures, because I was never there. It was making me sick. I didn’t want to be here. I wanted to be lifted out - the gender dysphoria slowly crushing me.

Na vida pessoal, nenhum dos pais de Elliot Page recebeu bem a sua transição mas, apesar disso, a mãe acabou por mudar de ideias, e o pai nem por isso. Há uma cena bem triste no livro em que Elliot repara que o pai está a fazer gosto em tweets do Jordan Peterson que criticam a transição do Elliot.

Regardless of everything before, it’s painful to think that someone who parented you could support those who deny your very existence. I will receive enormous waves of hate, not because I made harmful jokes, but because I am trans.

À parte de tudo isto, Elliot é canadiano e uma coisa que achei muito bem feita no livro são as referências ao Canadá e à sua história quando Elliot está a falar de um episódio passado nalguma cidade em particular, como a explosão de Halifax.

É sempre difícil comentar livros de memórias. Neste caso, achei o livro francamente bem escrito e a história do Elliot é interessante. Só acho que o livro peca por falta de coerência. Mesmo não tendo escolhido uma ordem cronológica para a história, os episódios podiam estar agrupados por temas, o que também não acontece. Talvez se tivesse lido em livro físico ou em ebook tivesse mais fácil seguir a história. Ainda assim, recomendo a todos os que tenham interesse nestes temas, mesmo que não saibam nada sobre a carreira do Elliot Page.

O caminho do sal de Raynor Winn

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Este livro foi uma boa surpresa.

Raynor e o marido perderam a quinta depois de um mau investimento num negócio. Aos 50 anos, tornaram-se sem abrigo. Para piorar a situação, Moth é diagnosticado com uma doença neurológica grave.

Sem casa, o casal decidiu percorrer os 1013 quilómetros do caminho da Costa Sudoeste da Inglaterra tentando fazer render as 48 libras por semana que recebem do governo.

Era um sonho. Nada era real. Afastávamo-nos de vinte anos de vida familiar, de vida profissional, de tudo o que tivemos, esperanças, sonhos, o futuro, o passado. Não rumávamos a um novo começo; nem a uma vida que se ia abrir à nossa frente. A terra abriu uma brecha; estávamos do lado de lá de um vazio que jamais podíamos atravessar.

Além das descrições do caminho, Raynor escreve muito sobre ser sem abrigo e sobre o contraste entre ela e o marido que fazem aquele percurso com pouco dinheiro e chegam a passar fome, e todos os turistas que vão encontrando pelo caminho.

Quando escreveu este livro Raynor não sabia isto, mas este livro seria o seu bilhete de lotaria. Vendeu mais de um milhão de exemplares. Ganhou vários prémios. E Raynor tornou-se autora de mais dois livros (que espero que sejam traduzidos em breve): Landlines e The wild silence. Uma belíssima história com um final feliz (dentro do possível). 

A feira do livro de Lisboa

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Mais um ano, mais uma feira do livro.

Não sei se sou a única pessoa surpreendida com isto mas este artigo da Penguin refere que a primeira feira do livro foi realizada em 1930. Há quase 100 anos! É incrível que um evento que tem os livros como prioridade continue, tantos anos depois, e com cada vez mais visitas.

Além de tudo o que envolve a feira, e que é muito mais do que livros, são as pessoas, a comida, os passeios, também trouxe alguns livrinhos:

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