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Audiolivros: sim ou não?

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Há muito tempo que andava para experimentar audiolivros mas não sabia muito bem como ou se ia funcionar para mim.

Eu sei que há quem ouça audiolivros a caminho do trabalho mas (felizmente!) trabalho em casa e quando conduzo prefiro ouvir música. Também não corro (e não correria nem que me pagassem para isso) portanto, isso também está fora de questão. Mas bom, o Scribd oferece 30 dias de subscrição grátis e, se é grátis, eu aceito.

O Scribd é uma plataforma de subscrição em que por um valor mensal (10,99) têm acesso a ebooks, audiolivros e podcasts que podem ouvir ou ler em qualquer lugar.

Ouvi o audiolivro de «I’m glad my mom died» de Jennette McCurdy e, como o livro é lido pela própria autora, adorei. Ouvi enquanto cozinhava sobretudo, ou fazia outras tarefas domésticas.

Experimentei ouvir um livro de ficção e não gostei, mas entretanto comecei a ouvir «Crying in H Mart», outro livro de memórias lido pela autora e estou a gostar muito.

***

Ainda não são sete da manhã e já estou na fila da loja do cidadão. Estive aqui há uns dias para saber como estava a funcionar pós-covid e o segurança avisou que “se quiser uma senha, é bom que venha cedo”. Vim antes das sete e só há uma pessoa à minha frente. Uma senhora senta-se ao meu lado, aponta para o meu kobo e pergunta o que é:

- É um kobo, serve para ler livros - respondo.

- Ah - responde desinteressada.

Está chateada porque entrava às 4 da manhã no trabalho e está a faltar para estar aqui umas horas porque precisa de renovar o cartão de cidadão. Passa-me o cartão para as mãos:

- Pode-me dizer se está mesmo fora de prazo?

Não percebo porquê que ela não pode fazer isso. A validade acabou há uma semana. Onde devia estar a assinatura há uma mensagem a indicar que a própria não pode assinar.

***

Neste privilégio “invisível” de ler nunca me tinha ocorrido que os audiolivros são uma oportunidade de ter acesso a histórias para quem não teve a oportunidade de aprender a ler.

Infelizmente, ainda não há muitos audiolivros disponíveis em português, mas já há alguns disponíveis na subscrição do kobo plus.

Quanto a mim, vou aproveitar ao máximo o mês grátis do Scribd, mas ainda não sei se vou manter a subscrição depois disso, porque não encontrei muitos livros autobiográficos lidos pelo autor que me interessem.

I'm glad my mom died de Jennette McCurdy

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Fiquei curiosa com este livro depois de ter visto uma série de entrevistas da Jennette sobre a sua relação com a mãe. Jennette vem de uma família pobre e tornou-se conhecida por ter sido actriz em miúda numa série para a iCarly.

De certa forma, é a típica história de uma mãe que vive através da filha, da sua fama e do seu sucesso. A mãe de Jennette faz de tudo para a filha conseguir ter audições e conseguir um papel principal numa série infantil. Para Jennette, todo o ambiente de Hollywood e das audições é um stress ao qual se sujeita por querer agradar à mãe.

"A little girl shouldn't have to worry about her entire family," Gradpa says to me one afternoon.

"What?" I ask, not because I didn't hear what he said, but because I'm confused. Of course, a little girl should worry about her entire family. That's what little girls do.

"I just..." He steps closer to me. "I just think... you deserve to be a kid."

Além disso, a mãe de Jennette era abusiva muito para além de fazer a filha pagar as contas da casa. E há partes deste livro que são particularmente difíceis de ler (ou ouvir se optarem pelo audiobook). A mãe de Jennette projectava todo o seu narcisismo, frustração por não ter tido fama e sucesso, e falta de vontade de arranjar um emprego na filha.

Fame has put a wedge between Mom and me that I didn't think was possible. She wanted this. And I wanted her to have it. I wanted her to be happy. But now that I have it, I realize that she's happy and I'm not. Her happiness came at the cost of mine. I feel robbed and exploited.

A mãe ainda exigia que Jennette mantivesse um peso ideal para a televisão e a comida torna-se uma obsessão entre as duas, ao ponto da mãe contar e limitar as calorias que a filha pode comer. Esta obsessão torna-se tão grande que, quando a mãe de Jennette fica em coma, ela está convencida que dizer-lhe que atingiu o peso ideal a poderá fazer acordar do coma.

And if she’s really going to die, what am I supposed to do with myself? My life purpose has always been to make Mom happy, to be who she wants me to be. So without Mom, who am I supposed to be now?

Por um lado, esta história faz lembrar aqueles programas manhosos do TLC (como o «Kate plus eight»), os atores das séries da Disney e da iCarly e, hoje em dia, os “online influencers”. Há toda uma rede de pais no Youtube, Instagram e no TikTok que ganham dinheiro exclusivamente à conta de mostrarem os filhos e ganharem dinheiro com anúncios e parcerias.

Imagino que daqui a 20 ou 30 anos alguns destes miúdos estarão a escrever livros de memórias sobre a experiência de terem tido a sua infância e adolescência partilhadas na internet com milhões de pessoas.

Por outro lado, esta história vai muito para além de Jennette ter sido forçada a "viver" a vida que a mãe nunca conseguiu. Há uma mãe que é abusiva para com a filha. Como se isso não fosse suficiente, a família ainda pertence à igreja dos Latter-day Saints (ou seja, são mórmon). Nesse sentido, esta história faz lembrar livros de memórias como «O castelo de vidro» de Jeannette Walls e «Uma educação» de Tara Westover.

«I'm glad my mom died» está muito bem escrito, é cru e honesto (confesso que fiquei surpreendida por Jennette ter revelado tanta coisa), e não ter visto a série em que ela entrou (que é o meu caso) não faz diferença nenhuma para a leitura do livro.

Foi a primeira vez que ouvi um audiobook, aproveitando os 30 dias grátis de subscrição inicial do Scribd e gostei bastante da experiência. É a própria Jennette que lê o livro e o audiobook é excelente. 

Sabrina de Nick Drnaso: a novela gráfica sobre a loucura do mundo em que vivemos

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Ninguém sabe o que aconteceu a Sabrina. Desapareceu. A resposta é divulgada numa cassete de vídeo, enviada às redacções de órgãos de comunicação social, o que dá origem a um frenesim.

Rapidamente, se multiplicam as teorias da conspiração sobre o que terá realmente acontecido a Sabrina. Se esta novela gráfica tivesse lugar no mundo real (e, de certa forma, tem) haveria uma thread no reddit, uma hashtag no Instagram, no Twitter e no Tiktok e toda uma rede de pessoas ligadas a tentar perceber o que aconteceu com Sabrina. A julgar cada comentário feito pela sua família. A avaliar cada gesto das entrevistas de familiares e amigos.

Esta rede somos todos nós. Talvez por isso Sabrina consiga ser uma novela gráfica que, ou se adora ou se odeia. É difícil enfrentar a perversidade que ultrapassa estas páginas e toca o mundo em que vivemos.

No meio do turbilhão, Teddy (o namorado de Sabrina) e Sandra (a irmã de Sabrina) vivem completamente isolados no seu luto e na sua dor, apesar de estarem no centro da rede. Sozinhos na aceitação da tragédia que lhes virou a vida do avesso.

Enquanto o resto do mundo não consegue tirar os olhos da história como os carros que param para ver um acidente na estrada, e não consegue deixar de aderir a teorias da conspiração porque a verdade, nua e crua, a de que coisas horríveis acontecem todos os dias e a todas as horas, pode ser demasiado difícil de aceitar.

Nunca estamos imunes à tragédia. E talvez seja mais fácil, encontrar uma comunidade na internet e tentar juntar as peças do puzzle e procurar uma qualquer justificação para algo que não tem qualquer justificação possível.

Não gostei muito do traço de Sabrina, tem uma simplicidade que faz lembrar aqueles panfletos que ninguém lê nos aviões e que trazem instruções de segurança. Mas acredito que seja propositado. O propósito da história não está nas imagens, está no barulho que rodeia o silêncio dos personagens.

E não consigo deixar de referir que chegamos ao fim sem saber quase nada de Sabrina. Ela que desapareceu. Ela que deu o mote ao frenesim de uma multidão que, mesmo sem intenção, a fez desaparecer ainda mais.

A feira do livro de Lisboa

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Confesso que depois de ter passado algumas semanas em casa a recuperar de ter tido covid, estava cheia de vontade de ir à feira do livro. Não só pelas promoções nos livros, mas porque se tornou tradição. Não sei com que idade fui, pela primeira vez, à feira mas era miúda. Lembro-me de comer algodão doce e de ver as filas intermináveis para se conseguir um autógrafo do Saramago.

Como sempre, valeu muito a pena o passeio (apesar de nunca ter visto a feira com tanta gente) e deu para comprar alguns (ok, muitos) livros.

Há algumas novidades, como a Wook que agora também está presente na feira, com alguns livros em inglês e espanhol.

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Destaque para:

  • Os caixotes da Relógio d'Água - uma das melhores partes da feira para quem gosta do catálogo da editora. Há livros a 3, 5, 7.5 e 10 euros. Trouxe «O Homem que via tudo» da Deborah Levy (uma autora que adoro), o «Conflito interno» de Kamila Shamsie (uma história de família que mistura religião e política) «África minha» de Karen Blixen.
  • Os livros do dia, que estão disponíveis para consulta no site. Trouxe «Sabrina» de Nick Drnaso e a novela gráfica de «A história de uma serva».
  • Os livros manuseados, que estão disponíveis em várias editoras (como a infinito particular e a ponto de fuga, entre outras) a preços bem acessíveis (5 euros). Apesar de serem livros manuseados, a verdade é que a maioria estão praticamente impecáveis, tirando um pequeno defeito que mal se nota.
  • Os alfarrabistas - trouxe duas novelas gráficas («Chernobyl» e «O farol») que ficaram a 5 euros cada uma (e estão novas!)
  • Os livros da Fundação Francisco Manuel dos Santos - é verdade que são sempre baratos mas, mesmo assim, há livros em promoção. Trouxe «A religião dos livros» sobre livros e livreiros e «Quanto tempo tem um dia» sobre a maternidade. Já aqui escrevi sobre outros livros da fundação: «Vale a pena?» sobre conversas com escritores e «Adopção tardia» sobre a adopção em Portugal.
  • As novidades - livros até 24 meses só podem ter, no máximo, 20% de desconto. Há editoras na feira com novidades a 10% e outras a 20%. Acabei por trazer duas que quero muito ler e que estavam com 20% - «Talvez devesses falar com alguém» de Lori Gottieb e «A breve vida das flores» de Valérie Perrin.
  • Pequenas editoras - Não estava como livro do dia no dia em que fui e, morando fora de Lisboa, torna-se difícil ir vários dias à feira, mas acabei por não conseguir resistir ao «Cá dentro» da Planeta Tangerina, um manual sobre o cérebro com ilustrações lindas.
  • Outras promoções - na Leya, por exemplo, se comprarem 4 livros, só pagam 3 (o de menor valor fica gratuito). Há outras editoras com promoções semelhantes.

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Para quem ainda quiser e puder aproveitar, a feira do livro de Lisboa vai até dia 11 de Setembro. Depois disso, só para o ano.

Nadar no escuro de Tomasz Jedrowski

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«Nadar no escuro» é um livro de prosa que se lê como poesia sobre Ludwik, um rapaz a entrar na idade adulta que se apaixona por outro rapaz no conturbado cenário político da Polónia dos anos 80.

Crescer e tornarmo-nos a nossa própria pessoa não é nada mais do que um ato de egoísmo.

Ludwik é um sonhador e, à medida que vai crescendo, vai-se tornando cada vez mais claro que a realidade que o rodeia não lhe oferece a liberdade que deseja. Pelo contrário, Janusz - o rapaz por quem se apaixona - é um defensor do regime (pelo menos, aparentemente) e só quer viver a sua vida descansado. É uma história de amor, mas também é um livro sobre o que é viver em liberdade e sobre o poder que temos (e sobretudo o que não temos) quando a situação política em que vivemos nos sufoca.

Ocorre-me agora que não podemos manter indefinidamente as nossas mentiras. Mais cedo ou mais tarde, todos somos obrigados a confrontar-nos com a sua escuridão. Mesmo que não possamos escolher o se, podemos escolher o quando. E quanto mais esperarmos, mais doloroso e incerto será o confronto.

Um "coming of age" muito bem escrito e, sem dúvida, um dos melhores que li nos últimos anos. Segundo o autor diz nos agradecimentos, levou sete anos a escrever este livro.

Ao longo do livro, o personagem principal refere várias vezes «O quarto de Giovanni» de James Baldwin, um clássico que ainda não li, mas que fiquei ainda mais curiosa para ler depois deste livro.