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Nannette de Hannah Gadsby: o stand-up comedy que é muito mais do que comédia

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Nannette é o stand-up comedy de Hannah Gadsby. Hannah Gadsby é homossexual e cresceu na Tasmânia, numa altura em que a homossexualidade era crime (e só deixou de ser em 1997). É engraçado porque vi muitas críticas a este show pelo facto de não ser um stand-up propriamente dito, e não é. Gadsby explica como se tornou conhecida por fazer humor auto-depreciativo. E depois fala sobre a forma como isso afetou a sua vida, de forma negativa.

Do you understand what self-deprecation means when it comes to someone who already exists in the margins? It’s not humility. It’s humiliation. I put myself down in order to speak, in order to seek permission to speak. And I simply will not do that anymore. Not to myself, not to anyone who identifies as me.

Hannah fala também sobre a diferença e sobre o histerismo das redes sociais com qualquer coisa diferente. As pessoas têm uma reação completamente desproporcionada a ver, por exemplo, um rapaz a usar um vestido. Como se aquilo as afetasse de alguma forma (não afeta), como se de repente o mundo fosse acabar porque um rapaz decidiu vestir um vestido (não vai). Uma e outra vez, década após década, é difícil não sentir que não aprendemos nada, que não sabemos lidar com o diferente sem o odiar primeiro.

Fear difference, we learn nothing.

Nannette está na netflix e Hannah Gadsby vai estar no Tivoli em Outubro, com um espetáculo diferente deste stand-up, mas que deve valer igualmente a pena.

As falésias de Moher e a cidade fotogénica de Galway

Há muitas excursões que se podem fazer a partir de Dublin, mas as mais populares passam pelas falésias de Moher e pela cidade costeira de Galway.

As falésias de Moher estendem-se por 8 km e são um local repleto de aves marinhas. Pelo menos, é o que dizem porque estava tanto nevoeiro, vento e chuva no dia em que passámos lá que já ver as falésias era difícil, quanto mais aves…

Quase não tirei fotografias porque estava mais preocupada em conseguir andar com tanto vento, e chuva. Isto tudo enquanto o segurança do farol se ria das nossas figuras. O senhor devia estar a pensar "estes vêm para a Irlanda e acham que isto são as Maldivas."

Foi uma experiência muito irlandesa, sem dúvida.

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Depois de Moher, fomos para Galway, a cidade portuária da costa oeste que Ed Sheeran tornou famosa quando lançou Galway girl, e que até já tem uma estátua em sua homenagem (a moça, não o Ed Sheeran).

Actualmente, Galway é uma cidade de estudantes, mais conhecida pelos muitos festivais de música que tem ao longo do ano. Apesar de pequena, é cheia de bares tradicionais e fachadas fotogénicas.

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Em Galway, entrámos no Garavan’s bar, um autêntico tesouro irlandês. Este pequeno bar tem 80 anos e mantém a maior parte da mobília original, com fotos e documentos de época e muitas garrafas de whiskey com algumas dezenas de anos.

O bar é gerido pela terceira geração da família Garavan e foi frequentado por personalidades como Samuel Beckett.

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A especialidade do Garavans é o irish coffee, uma combinação de café com whiskey que se bebe em bares na Irlanda (e não em cafés!). Para minha surpresa, é mesmo delicioso. Tem um sabor forte a café, mas é doce e leva natas por cima.

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E chegam assim ao fim os posts da Irlanda. Ficou muita coisa para ver, o que é sempre uma boa desculpa para voltar, mas fiquei agradavelmente surpreendida com tudo o que vi. E que bom é voltar a viajar depois de dois anos de pandemia!

Em todos os momentos estamos vivos de Tom Malmquist

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Neste livro de auto-ficção, Tom conta a história de como a mulher (Karin), grávida da filha, ficou doente. Numa daquelas sucessões da vida em que tudo o que pode correr mal, corre mal, Karin é diagnosticada com uma leucemia mieloide aguda. Karin acaba por morrer pouco depois do nascimento da filha, Lívia. Para complicar (ainda) mais as coisas o pai do Tom também tem cancro e o autor foca-se bastante nisso mais para a terceira parte do livro.

É difícil dizer que gostei deste livro, é um daqueles casos em que é tudo mau, mas ao mesmo tempo não conseguimos parar de ler. Tom escreve sem grandes floreados e sem ser lamechas. Ora está a contar algum acontecimento de forma quase jornalística, ora faz "zoom" em detalhes que acabam por explorar as entrelinhas do que está a acontecer. Como Tom disse numa entrevista, este livro é uma tragédia grega sobre aqueles meses da sua vida:

It’s all ultimately about working with what happened, fashioning the truth into something that lets me tell you what it was to lose my wife and my father at the very same time I was becoming a father myself. I’d say the book is more like a Greek tragedy than a memoir.

Confesso que gostei muito mais do livro e da escrita do autor do que esperava (até porque li uma boa parte do outro livro publicado em português - Todo o ar que nos rodeia - e desisti porque não estava a gostar). Por razões óbvias, não é definitivamente um livro recomendável para grávidas.

Os veados de Phoenix Park

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Eu sei que tenho repetido muito isto nos posts da Irlanda, mas fiquei muito surpreendida com o Phoenix Park.

Este parque, que é maior do que o Central Park em Nova Iorque alberga o zoo de Dublin mas, mais importante do que isso, é a casa de um grupo de veados selvagens que aqui vive há cerca de 350 anos.

Os veados costumam frequentar muito o bosque na zona da Papal Cross (uma cruz gigante que foi erguida para uma visita do papa no final dos anos 70 e nunca chegou a ser retirada) e foi aí que os encontrámos.

Quando li que havia veados no Phoenix Park, pensei que fossemos encontrar uns 20 ou 30. Na realidade, o parque tem cerca de 600 veados! Para onde quer que olhássemos havia veados em pequenos grupos a descansar, ou a comer. Alguns, mais curiosos, aproximavam-se dos turistas na esperança de alguma guloseima.

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É suposto manter-se uma distância de 50 metros dos veados, mas faço já um mea culpa para dizer que não fizemos isso (nem ninguém que lá estava), mas importa ter bom senso e manter alguma distância. Se estiverem à frente de um veado que está deitado e ele se assusta, vai fugir na vossa direcção e acho que isso não é uma memória que queiram levar de Dublin… Além disso, não se deve alimentar os veados (está a decorrer um estudo sobre a forma como a comida que os turistas dão aos veados está a afetar a saúde dos mesmos).

A altura em que fomos (Maio) é a altura em que se dá a queda dos cornos e em que os novos começam a nascer. Nos meses de Outubro/Novembro é a época de reprodução, em que os machos se podem tornar mais agressivos e convém manter uma distância maior. As crias nascem no Verão.

Todos os veados têm uma tag na orelha para poderem ser identificados por quem faz a gestão do parque. Como são muitos e não têm predadores naturais (tirando as raposas que podem matar um ou outro recém-nascido), a gestão da população implica que, todos os anos, uma parte dos veados são mortos para manter a sustentabilidade do parque. Isto é importante para haver alimento para todos os animais, para os animais estarem bem nutridos e conseguirem suportar o frio no Inverno e para impedir a propagação de doenças.

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A entrada no parque é gratuita.