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«This is going to hurt»: a série da BBC sobre a saúde mental dos médicos

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«This is going to hurt» é a série da BBC inspirada no livro de Adam Kay. Adam escreveu um diário do seu percurso na especialidade de ginecologia e obstetrícia no NHS (o sistema público de saúde do Reino Unido), desde o internato até ter abandonado a medicina para ser guionista. O resultado são histórias divertidas ou comoventes, cheias de humor negro.

O livro foi adaptado para a série da BBC com o mesmo nome por Adam Kay. A série, tal como o livro, está cheia de humor negro, mas não esperem uma versão britânica de «Anatomia de Grey». Em «This is going to hurt», os profissionais de saúde têm poucos recursos para trabalhar (afinal estão no sistema público), vidas pessoais constantemente interrompidas por urgências, cometem erros e entram em burnout.

A série engana. Começa leve e engraçada e, à medida que os episódios progridem e a exaustão dos médicos também, vai-se tornando mais pesada mas também mais real. Os últimos episódios deixam qualquer pessoa destroçada. É bem mais dramática do que o livro.

Ainda assim, e tal como livro, a série é uma ode ao sistema público de saúde e um alerta para as dificuldades que os profissionais que lá trabalham enfrentam e para todas as razões que os fazem, tantas vezes, desistir.

A série Yellowjackets e o livro «O deus das moscas» de William Golding

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Yellowjackets é a série que quero recomendar a toda a gente ao mesmo tempo que digo "mas não é uma série para todos." Não me lembro da última vez que gostei tanto de uma série.

Aqui temos a história de um grupo de raparigas de um clube de futebol do liceu de New Jersey. Quando viajam de avião para o campeonato nacional de 1996, o avião despenha-se e as raparigas ficam presas no meio da floresta durante 19 meses. Vão ter de lutar pela sua sobrevivência durante esse período. Mas esta não é mais uma versão de Lost.

A série vai andando do passado - a queda do avião e tudo o que aconteceu durante aqueles 19 meses - para o presente, em que as poucas personagens que sobreviveram tentam lidar com o trauma que passaram e tentam a todo o custo guardar um segredo sobre o que verdadeiramente aconteceu naquele período. 

A série leva os dramas típicos do liceu para um contexto extremo de sobrevivência e, nem sei explicar como, mas a coisa resulta. É uma série dramática, com momentos de suspense/terror e com muito humor negro. Uma das personagens principais faz-me lembrar uma personagem muito conhecida do Stephen King. Não é por acaso que o próprio adorou a série:

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Na verdade, a série é levemente inspirada na queda de um avião, em 1972, nos Andes, que transportava uma equipa de rugby. Um quarto dos 45 passageiros morreram no acidente mas alguns (poucos) sobreviveram durante 72 dias, altura em que foram resgatados. Durante esse período, tiveram de recorrer ao canibalismo para sobreviver.

Também é inspirada no clássico «O deus das moscas» de William Golding, que decidi ler, por um lado, por curiosidade e, por outro, para tentar perceber que rumo vai tomar a série visto que a primeira temporada já terminou (mas foi renovada para mais temporadas).

No livro de Golding há um avião que se despenha numa ilha deserta, sendo que os únicos sobreviventes são um grupo de rapazes. No início,  eles festejam a ausência de adultos e cooperam uns com os outros. Com o tempo, surgem dois líderes (um mais pacífico e um mais disruptivo) que entram em conflito.

Um dos aspetos mais interessantes do livro é o medo crescente que os rapazes têm de uma besta que acreditam que vive na floresta e os ameaça. À medida que Yellowjackets avança, algumas raparigas acreditam que há algum tipo de presença espiritual na floresta. Imagino que isto vá ser desenvolvido nas próximas temporadas.

Apesar de tanto o livro como a série serem bons, a série consegue acrescentar densidade à história por nos mostrar duas versões de cada personagem (no passado e no presente). É incrível um clássico ser adaptado numa versão moderna que vai levar muita gente a redescobrir o clássico de Golding.

Em Portugal, a série estreia hoje na HBO.

Com quantas pessoas interagimos na vida?

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Há algumas semanas atrás recebi este postal. Foi desenhado pela sobrinha de um amigo que vive na Irlanda mas que conheci na Grécia há alguns anos atrás. Foi entregue pelo carteiro, junto com um livro que comprei. O carteiro até já tem o meu número de telemóvel, habituado que está a ligar a perguntar se estou em casa porque tem um livro para entregar.

E eu fiquei a pensar nisto. Nas interações que temos ao longo da vida e na quantidade de pessoas que, melhor ou pior, vamos conhecendo. Fui ver se havia estudos sobre com quantas pessoas interagimos, em média, ao longo da vida. E claro que há (há estudos sobre tudo). E são só a módica quantia de 80 mil pessoas. Parece um exagero. Mas depois começo a pensar em todas as turmas e escolas onde andei, em todos os alunos e professores com quem interagi e começa a fazer algum sentido.

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Claro que há pessoas que interagem com mais pessoas do que outras e que a pandemia tem tido um impacto grande na quantidade de interações que temos. Mas dezenas de milhares de pessoas é mesmo muita gente.