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Não nos devíamos importar com a Simone Biles

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Simone Biles é ginasta e, depois de ter ganho muitas medalhas nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, desistiu de competir nas Olimpíadas deste ano a favor da sua saúde mental.

A decisão dividiu opiniões com pessoas a concordar com a sua decisão e pessoas a tecer críticas por ter desistido.

Eu acho que não devíamos querer saber.

Se Simone Biles tivesse feito uma entorse e abandonasse os Jogos Olímpicos por causa disso, quase não seria tema de conversa. Como desistiu para preservar a saúde mental tornou-se tema de debate. Isto só prova que:

1. A maioria das pessoas ainda vê a saúde mental como secundária à saúde física.

2. A maioria das pessoas ainda vê um problema de saúde mental como sendo culpa da pessoa que o tem. Daí frases infelizes como Se não fosse fraquinha, não tinha desistido. Só está deprimido porque não tira o rabo do sofá. Se fosse mas é trabalhar...

No fundo, só estamos focados na decisão da Simone Biles porque ainda nos parece estranhíssimo alguém priorizar uma coisa que, para muitos, não passa de um capricho. Uma escolha. Como se alguém acordasse um dia e pensasse: Olha, o que eu estou mesmo a precisar neste momento é de uma depressão. Ou de ter um ataque de pânico. E como se sair destes estados dependesse da força de vontade do próprio. Como se alguém conseguisse acordar um dia e pensar: É hoje que vou sair desta depressão. Ou que vou deixar de ter ansiedade.

Acho que ninguém tem dúvidas de que a saúde mental dos atletas, pela pressão imensa a que estão sujeitos, deve ser (ou devia ser) monitorizada com atenção. Acho que também ninguém duvida que esta decisão não está ao alcance de todos por circunstâncias financeiras e até sociais.

Simone Biles tem 24 anos e isso é a melhor parte desta história. Esperemos que esta geração olhe para a saúde mental como sendo tão importante como a física. Porque é.

Apneia de Tânia Ganho

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«Apneia» tem provavelmente a estrutura que mais gosto num romance. Capítulos muito curtos que fazem com que as 600 ou 700 páginas passem rapidamente. «Pátria» de Fernando Aramburu, um livro incrível tem a mesma estrutura.

É difícil escrever sobre este livro, porque não é uma leitura fácil. «Apneia» é a história de uma mãe (Adriana) que, depois de um processo conturbado de divórcio, se vê envolvida numa luta pela custódia do filho, Edoardo. A história levou um rumo que não esperava, apesar de se tornar previsível a dada altura, e achei importante que a autora tivesse abordado esse tema numa família de classe média-alta. Muitas vezes associamos abusos (sejam físicos, sexuais ou até emocionais) à pobreza e não é sempre assim.

Como já tinha lido, há coisas que se repetem no livro, tal como provavelmente se repetirão até à exaustão na vida real. As constantes idas a tribunal, os entraves da burocracia, a figura do juiz e de advogados que se mantêm cruelmente impávidos perante a urgência de resolver esta situação.

O único cenário em que Adriana respira é nas Berlengas. Gostei das descrições da ilha e das aves marinhas, assim como da figura do Duarte.

Não é certamente um livro que recomendasse a toda a gente. Imagino que quem tenha passado por um processo destes (seja no papel de uma mãe/pai ou da criança) não queira reviver essa história. Não é um livro leve nem bonito mas, se tiverem estômago e tiverem com vontade de um livro mais pesado, vale muito a pena a leitura.

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