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Livros, viagens e tudo o que nos acrescenta

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Famílias diversas

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Já tinha escrito no blog sobre um livro da Fundação Francisco Manuel dos Santos, mas não podia deixar de recomendar este livro sobre adopção. São livros pequenos, baratos (cerca de 3.50 euros), mas isso não quer dizer que não mereçam ser lidos (e recomendados).

Não sei se é comum, mas tive três professoras ao longo da vida que adoptaram crianças. Uma na primária, outra no ensino básico e outra na universidade. «Adopção tardia» de Maria Sequeira Mendes é um livro sobre a realidade da adopção em Portugal, um país onde existem sete vezes mais candidatos à adopção do que crianças para adoptar e onde a maioria destas crianças tem, pelo menos, sete anos.

O melhor do livro é que a autora entrevistou pais adoptivos e crianças que foram adoptadas e vale muito a pena ler as suas histórias.

Dentro do mesmo tema, quero também recomendar este episódio do podcast Gravity. Este podcast é de Lucy Kalanithi, a viúva de Paul Kalanithi, um neurocirurgião que morreu com um tumor pulmonar e que escreveu um livro maravilhoso intitulado «Antes de eu partir».

Neste episódio, Lucy entrevista Andrew Solomon. Andrew tem um livro muito conhecido sobre a depressão e outro menos conhecido («Longe da árvore») onde entrevistou centenas de famílias pouco convencionais. Desde casais sem filhos, casais homossexuais que adoptaram ou que recorreram a inseminação artificial, pais solteiros, entre muitos outros. Andrew defende que a diversidade de famílias é vital para a sociedade e lembrei-me muito deste episódio enquanto lia o livro sobre a adopção.

The Owl Story Book Store em Lagos

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Foi há oito anos que a «The owl story book store» surgiu em Lagos. Começou por ser uma livraria diversificada e, com o tempo, fruto também de ser procurada por muitos turistas, focou-se apenas em livros em inglês. Quando passeamos pelas estantes cheias de livros em segunda mão, é possível encontrar desde livros muito recentes a clássicos. Há secções com edições muito antigas de colecionador que são procurados sobretudo por compradores espanhóis.

Além de uma edição lindíssima em capa dura de «Anything is possible» de Elizabeth Strout, encontrei uma edição em capa dura de 1964 de «Managerie Manor» de Gerald Durrell. Este Durrell é irmão de Lawrence Durrell que escreveu «Justine» e «O quarteto de Alexandria». Ao contrário de Lawrence, Gerald focou-se na não ficção e escreveu, entre outros livros, «A minha família e outros animais» que conta a história verídica de como a sua família se mudou de Inglaterra para a ilha de Corfu nos anos 30. Este e outros livros foram adaptados para a série da BBC.

Gerald viria depois a criar um jardim zoológico no Reino Unido e a tornar-se um acérrimo defensor da vida selvagem. «Managerie Manor» conta a história dos primórdios do seu jardim zoológico.

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Se passarem por Lagos não deixem de dar um saltinho nesta livraria:

The Owl Story Book Store: R. Marreiros Netto, 8600-754

A biblioteca da meia-noite de Matt Haig

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Não tenho escrito no blog mas, a bem da verdade, também não me lembro da última vez que terminei um livro. Bom, isso antes deste «A biblioteca da meia-noite» de Matt Haig. Foi comprado num daqueles momentos de "trouxe quatro livros para as férias mas não me apetece ler nenhum". Entrei na livraria Internacional em Lagos e achei que esta biblioteca seria uma leitura leve e fluida.

Já tinha adorado o «Razões para viver», um livro de não-ficção de Matt Haig mas tinha as expectativas baixas para este livro de ficção porque tenho ficado desiludida com livros com muito hype.

O livro segue a história de Nora Seed que, no limiar entre a vida e a morte, dá por si numa biblioteca onde cada livro representa uma versão da sua vida se tivesse feito escolhas diferentes.

Mas talvez todas as vidas fossem assim. Talvez até a vida aparentemente mais perfeita e intensa acabasse por transmitir a mesma sensação. Quilos e quilos de desilusões, monotonia, mágoas e rivalidades com breves momentos de deslumbramento e beleza. Talvez fosse esse o único significado que importava. Ser o mundo, testemunhar-se a si mesmo. Talvez nem fosse a falta de objetivos cumpridos que fizera dos seus pais pessoas tão infelizes, mas sim a expectativa que ambos haviam criado dos objetivos que conseguiriam cumprir.

Acho que foi dos poucos livros que li a pensar que deve ter sido muito divertido escrever este livro e imaginar diferentes vidas possíveis para uma mesma personagem. Apesar dos clichês e de alguma previsibilidade na história, adorei este livro sobre os "e se's" da vida, sobre saúde mental, sobre as oportunidades que aproveitamos e as que deixamos passar.

Foi Sylvia Plath em «A redoma de vidro» que usou uma analogia com figos para descrever isto:

Eu via a minha vida a ramificar-se à minha frente como a figueira verde daquele conto. Da ponta de cada galho, como um enorme figo púrpura, um futuro maravilhoso acenava e cintilava. Um desses figos era um lar feliz com marido e filhos, outro era uma poeta famosa, outro, uma professora brilhante, outro era feito de viagens à Europa, África e América do Sul, outro era Constantino e Sócrates e Átila e um monte de amantes com nomes estranhos e profissões excêntricas, outro era uma campeã olímpica de remo, e acima desses figos havia muitos outros que eu não conseguia ver. Vi-me sentada debaixo da árvore, morrendo de fome, simplesmente porque não conseguia decidir com que figo eu ficaria. Eu queria todos, mas escolher um significava perder tudo o resto, e enquanto eu ficava ali sentada, incapaz de tomar uma decisão, os figos começaram a encolher e ficar pretos e, um por um, desabaram no chão aos meus pés.

Deprimente. Ou não fosse este um livro sobre depressão. Mas, no fundo, é isso. Escolher um caminho significa sempre deixar de lado outras possibilidades. Não podemos fazer mais do que tentar escolher o que nos faz mais sentido, o que achamos ser melhor para nós e, se falhar, escolher novamente outro caminho.