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Livros, viagens e tudo o que nos acrescenta

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O peso do pássaro morto de Aline Bei

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Já tinha ouvido falar deste livro nos canais de youtube literário do Brasil, mas foi depois de ouvir a entrevista no literacidades (em baixo) que decidi lê-lo.

Este livro é de uma nova escritora brasileira e está à venda em Portugal no site da livraria A ler que tem trazido para Portugal livros de autoras brasileiras que não estavam editados no nosso país. Estão com 20% de desconto em livros de autoras, se alguém quiser aproveitar.

Mas bom, este livro pequenino escrito entre a prosa e a poesia conta-nos na primeira pessoa a história de uma mulher desde a infância até à velhice. Acho que é daqueles livros em que ou sentimos aquela personagem e nos emocionamos com a história (triste) ou não sentimos/não nos identificamos e, nesse caso, não vamos gostar.

Eu adorei. Li-o em duas horas e só não li mais depressa porque há um acontecimento no livro que me obrigou a ter de parar um bocadinho para respirar. É a história da vida daquela personagem, escrita de forma crua e sem floreados. Fez-me pensar na forma como certos acontecimentos da nossa infância e adolescência nos marcam para o resto da vida. Na forma como a nossa vida é marcada por aquilo que dizemos, mas talvez ainda mais por aquilo que fica por dizer. Que livro! Recomendo muito.

Há muito talento nos novos autores brasileiros (e nos portugueses também). Da minha parte, estou muito curiosa com o «Se Deus me chamar não vou».

Se tiverem curiosidade, deixo a entrevista com a autora, feita no instagram do literacidades:

 

 
 
 
 
 
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Torto Arado de Itamar Vieira Junior

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«Torto Arado» segue a história de duas irmãs, Bibiana e Belonísia que são filhas de trabalhadores no sertão da Bahia. Um dia, ao remexer nas coisas da avó, uma delas sofre um acidente que vai mudar para sempre a vida das duas.

O livro divide-se em três partes, sendo que as primeiras são narradas por cada uma das irmãs enquanto a terceira é narrada por um espírito do sertão. Adorei as duas primeiras partes que exploram a relação entre as irmãs. Em vários momentos, fez-me lembrar a relação entre Lila e Lenú na tetralogia de Elena Ferrante, se bem que menos conturbada.

Não gostei tanto da terceira parte onde as personagens passam para segundo plano e se dá mais azo às questões políticas. Em «Torto Arado», os personagens vivem num sertão onde têm um pedaço de terra que podem cultivar e onde podem construir casa mas, no fim, tudo o que têm pertence ao dono da fazenda, a quem têm de dar uma parte do que cultivam todos os meses e para quem trabalham. Uma forma de escravatura, já depois dela ter sido oficialmente abolida no Brasil.

... nunca havia parado para pensar porque estávamos ali, o que poderia modificar nessa história, o que dependia de mim mesma ou o que dependeria das circunstâncias. (...) Nunca havia conhecido ninguém que me dissesse ser possível uma vida além da fazenda. Achava que ali havia nascido e que ali morreria, como acontecia à maioria das pessoas.

Não me incomoda que seja um livro político. No fundo, toda a literatura é política, mesmo quando não tem essa pretensão. O problema é que gostei tanto das duas irmãs, achei o acidente na primeira parte tão bem contado e desenvolvido em toda a narrativa que, na última parte, queria ter continuado a acompanhar a história destes personagens. De qualquer forma, é um livro extraordinário que me salvou, ainda que temporariamente, da dificuldade que tenho tido em ler ficção.

Separar o artista da arte: sim ou não?

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Durante muitos anos, a série juvenil de «As brumas de Avallon» esteve na lista de séries de livros que queria muito ler. Depois, bom, depois, perdi-me no rabbit hole que é a thread do reddit sobre a Marion Zimmer Bradley e mudei drasticamente de ideias. A série pode até ser genial mas a sua autora era, no mínimo, uma mulher perturbada, no máximo, devia ter sido presa por pedofilia. Podemos mesmo separar o artista da arte?


A HISTÓRIA DE MARION ZIMMER BRADLEY
Basicamente, anos depois da morte da autora, a sua filha acusou-a de ter abusado dela (e de outras crianças) durante muitos anos. Se, por um lado, muitos fãs da autora lhe apontaram o dedo por fazer acusações mal fundamentadas contra alguém que já não se podia defender. Por outro lado, a teoria de que a Marion é inocente de qualquer acusação tem demasiados buracos. A verdade é que o marido de Marion foi preso por ter tido relações com um rapaz menor e, durante esse julgamento a Marion disse isto enquanto testemunha:

Did you ever report this sexual relationship between your husband and a minor child to the police?
- Not to my knowledge.
(...)
So it was your personal opinion that a boy of 14 to 15 years old was old enough to make decisions about having sex with a 50-year-old man?
Yes, I was. I believe so.

Depois, como se este testemunho que está em domínio público não fosse mau o suficiente, a filha escreveu um poema designado «Mother’s hands», que é muito longo e do qual deixo um excerto:

I lost my mother late last year
Her epitaph I’m writing here
Of all the things I should hold dear
Remember Mother’s hands
Hands to strangle, hands to crush
Hands to make her children blush
Hands to batter, hands to choke
Make me scared of other folk
But ashes for me, and dust to dust
If I can’t even trust
Mother’s hands.

O que se segue no poema é bastante pior do que isto, mas acho que já perceberam a ideia.

 

SEPARAR O ARTISTA DA ARTE?

Compreendo o argumento de que a vida pessoal e profissional de um escritor possam ser separadas: a obra de um lado e o resto do outro. Mas eles não se interligam? Apesar de não ter lido (e não ir ler…) «As brumas de Avalon» tem personagens menores a ter relações com adultos. É certo que isto acontece num contexto diferente, mas será que Marion via as coisas assim? Será que, para ela, as fronteiras entre o que está correto numa ficção da idade média e no mundo real se esbateram, ou será que nem sequer existiam? Não é tudo aquilo que produzimos como arte (seja um livro, um filme ou um quadro) resultado, pelo menos em parte, de quem somos e daquilo em que acreditamos? Podemos mesmo separar a Marion que se sentava a escrever livros juvenis, daquela que (alegadamente) abusava dos seus próprios filhos?

Para mim não. Estaria a mentir se dissesse que deixei de ler/ver/ouvir todos os artistas que têm acusações, sejam elas quais forem, contra si. Tenho pensado nisto caso a caso. Mas o de Marion Zimmer Bradley é demasiado gritante, demasiado perturbador para conseguir ler os livros que escreveu. Podem ser excelentes mas dispenso qualquer vislumbre para a mente da sua autora.

O fulgor instável das magnólias de Ivone Mendes da Silva

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Descobri este livro num live da escritora Tânia Ganho na página do instagram literacidades (que recomendo muito). Ainda não consegui ler o «Apneia» da Tânia Ganho mas quero ler. Fiquei, no entanto, curiosa com este livro da escritora Ivone Mendes da Silva que a Tânia Ganho sugeriu. É uma edição da editora língua morta e é um diário que fui lendo aos poucos, de manhã enquanto bebia o meu café com leite. Como tenho alguma dificuldade em comentar diários vou antes deixar-vos com algumas das passagens de que gostei mais.

Tenho às vezes a obrigação de conversar com pessoas que me deixam sempre constrangida com a infantilidade do pensamento que exprimem. E produzem enunciados onde o bem triunfa sempre sobre o mal e onde basta querer para conseguir alcançar. Tenho a impressão de que se movimentam numa zona da vida que eu não frequento. Além disso parecem por vezes muito preocupadas com o sentido da vida e dessa preocupação nascem as suas únicas inquietações. Tenho a sorte de nunca ter precisado de que a vida me tivesse um sentido e de ser claro para mim que a dimensão trágica da existência é a mais intrínseca das suas dimensões.

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A minha imaginação já muitas vezes me perdeu mas outras tantas me salvou.

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Durante o teste um dos alunos estava a copiar por alguma coisa que tinha escrita na mão. Numa altura em que eles tentam copiar pelo telemóvel achei aquilo tão adoravelmente vintage que nem lhe disse nada.

O livro está disponível através da Almedina, além de livrarias independentes como a Snob ou a Flaneur.