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Gravity blanket: vale a pena?

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Infelizmente, sempre tive dificuldades em adormecer. Acho que quem sofre de insónias vai entender que dormir mal afecta profundamente o nosso dia-a-dia, torna-nos mais ansiosos (e vice-versa porque se as insónias causam ansiedade, a ansiedade também causa insónias) e diminui a nossa capacidade de concentração. Por isso, quando ouvi falar dos gravity blankets fiquei logo curiosa.

Um gravity blanket é um cobertor pesado que deve ter cerca de 10-15% do nosso peso. O pressuposto é que o peso tem um efeito calmante, que reduz a ansiedade e leva as pessoas a adormecer mais rapidamente e, consequentemente, a dormir melhor.

Antes de me decidir a comprar um fui ler os (poucos) estudos que existem sobre o assunto. De facto, há um estudo com pacientes com ADHD e insónias em que o uso de cobertores pesados reduziu o tempo que demoravam a adormecer, em média, de 70 para 30 minutos. Noutro estudo feito na Suécia em pessoas com insónias crónicas houve uma redução do tempo que as pessoas demoravam a adormecer, dos movimentos durante a noite e os participantes tinham noites mais descansadas. Noutro estudo, houve uma redução da fatiga, depressão e ansiedade durante o dia. Um estudo de revisão de 2020 conclui isto:

Weighted blankets may be an appropriate therapeutic tool in reducing anxiety; however, there is not enough evidence to suggest they are helpful with insomnia.

Ou seja, estes cobertores podem ajudar a dormir melhor quando os problemas de sono estão relacionados com a ansiedade mas, fora isso, não há muitas evidências de que possam ajudar com insónias. Enfim, nada como experimentar.

Em Portugal, os cobertores pesados são vendidos pela blanky. Não são baratos, mas acabei por aproveitar uma promoção da black friday no final do ano passado. Uma das vantagens é que se pode pedir a devolução até 30 dias depois caso não se goste da experiência.

 

Como foi a minha experiência:
Nas primeiras duas ou três noites foi estranho dormir com aquele peso em cima mas rapidamente me habituei. O cobertor é muito aconchegante, muito relaxante e não tenho dúvidas de que durmo melhor com ele. Na verdade, acho que já não saberia dormir sem ele e essa é uma desvantagem porque um cobertor de cinco quilos (no meu caso) não é uma coisa que se possa levar de viagem... (E sim, eu sou dessas pessoas que gosta de levar a almofada preferida em viagem mas não falemos disso...)

Com muita pena minha, o gravity blanket não resolveu completamente as minhas insónias mas sinto que, na maior parte dos dias, demoro menos tempo a adormecer, sinto-me com mais sono quando estou a tentar adormecer e, de uma forma geral, durmo melhor. Sinceramente acho que já não conseguiria dormir sem ele ou, pelo menos, tenho a certeza de que dormiria pior sem ele. Qualquer coisa que nos faça dormir melhor é um bom investimento. Para quem estiver na dúvida, acho que é mesmo uma questão de experimentarem.

Wintering de katherine May

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Este livro foi um sucesso durante o confinamento do ano passado e entendo perfeitamente porquê. Kaherine May propõe-se a escrever um livro de não ficção sobre um período de wintering na sua vida. A autora considera que todos nós passamos por "summers" (períodos mais felizes) e "winterings" (períodos menos felizes). May sugere que devemos aceitar os nossos winterings e vivê-los da melhor maneira que pudermos uma vez que é durante estes períodos que mais aprendemos sobre nós próprios:

Wintering is a season in the cold. It is a fallow period in life when you’re cut off from the world, feeling rejected, sidelined, blocked from progress, or cast into the role of an outsider.

Wintering é uma longa (e maravilhosa) reflexão sobre a forma como tentamos negar os nossos invernos quando, na verdade, são parte do ciclo natural da vida:

Misery is not an option. We must carry on looking jolly for the sake of the crown. While we may no longer see depression as a failure, we expect you to spin it into something meaningful pretty quick. And if you can't pull that off, then you'd better disappear from view for a while. You're dragging down the vibe.

Gostei muito da honestidade da autora ao admitir, no final do livro, que a ideia inicial era viajar pelo mundo a contar a forma como as diferentes culturas vivem os seus invernos mas que a vida se meteu no meio e o resultado final consta apenas com duas viagens. O livro não é pior por isso. Na verdade, acho que para as ideias de May acaba por fazer mais sentido assim.

Para todos os que sentem que estamos coletivamente a passar por um longuíssimo inverno recomendo muito este livro. Só tenho pena que ainda não tenha sido editado em Portugal.

As novas séries que ando a ver: uma comédia irlandesa e uma série sobre o folklore brasileiro

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Derry girls (netflix)

Fiquei muito surpreendida com esta série. É uma comédia com episódios de 20 minutos que se passa na cidade de Derry, na Irlanda, durante os anos 90. A série conta a história de um grupo de raparigas que estudam num colégio de freiras e das suas famílias. O melhor desta série é que contrasta um tom cómico ao retratar a adolescência com um tom sério ao retratar o panorama político dos conflitos na Irlanda do Norte. Até agora, estão disponíveis 2 temporadas com 6 episódios cada uma.

Trailer aqui

 

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Cidade invisível (netflix)

A premissa desta série pode resumir-se a um polícia que se torna obcecado em descobrir quem ateou um incêndio numa floresta que levou à morte da sua mulher. Na realidade, a série é muito mais do que isso. Está classificada como thriller, drama e fantasia. Ora, eu não gosto de séries de fantasia mas esta série está extremamente bem feita e é uma homenagem às lendas do folklore brasileiro. Fiquei agarrada do primeiro ao último episódio (são oito de meia-hora cada um). Se quiserem um conselho, não leiam mais nada sobre a série, não vejam o trailer e sigam logo para o primeiro episódio.

(se quiserem ver o trailer)

Trailer aqui

A história da Mercedes

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Esta história começa de forma absolutamente banal. Numa noite de Outono fui pôr o lixo e pareceu-me ouvir um gatinho a miar algures. Procurei e procurei e percebi que estava dentro de um carro por causa do calor. Esperei e consegui ver uma bolinha preta a descer para o alcatrão mas sempre que me tentava aproximar, o gato fugia para dentro do carro outro vez. Tentei várias vezes e vendo a tarefa impossível, deixei comida e um post it no vidro a avisar o condutor e fui-me embora.

 
No dia seguinte, voltei ao carro e lá estava o gato a miar outra vez, num carro diferente. Por sorte, em conversa com uma vizinha, descobrimos a quem pertencia o carro e ao abrir o capot, lá estava uma bolinha preta enfiada num canto. Claro que assim que se tentou apanhar o gato fugiu rua abaixo e meteu-se dentro de um carro num condomínio privado... Deixei outro post it a avisar e com um contacto para o caso de ser necessário e fui-me embora.
 
No dia seguinte, ligou uma senhora. Tinha visto o bilhete, tinha ido para o trabalho de manhã, a cerca de 20 km do condomínio e, depois de ter estacionado o carro na garagem e ido trabalhar, alguém lhe disse que havia um gatinho a miar na garagem... Portanto o gato escondeu-se junto ao motor do carro e ficou lá mesmo depois do motor estar a trabalhar e fazer os 20 km até ao seu novo destino. Estava vivo e aparentemente bem.
 
Fui lá buscar o gatinho. Da garagem escura ouvia-se um miado fininho de dentro de um Mercedes enorme. Éramos seis pessoas na garagem a tentar apanhar o bicho e, ao fim de uma hora, lá conseguimos agarrar o que era, na verdade, uma gatinha tricolor assustada e cheia de óleo.
 
Chama-se Mercedes, evidentemente.

Isto vai doer de Adam Kay

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Descobri este livro por causa de um post da Rita da nova e fiquei curiosa. «Isto vai doer» é o diário de Adam Kay durante todo o seu percurso de médico no sistema público de saúde do Reino Unido, desde o internato até ter abandonado a Medicina.

É um livro de histórias de pacientes, muitas verdadeiramente engraçadas, outras comoventes e algumas tristes:

A enfermeira-parteira diz à mãe que pare de fazer força e comece a praticar as técnicas de respiração, para que ela possa conduzir lentamente a cabeça do bebé e, com sorte, evitar uma laceração. À medida que a cabeça vai saindo, o pai grita: "Oh meu Deus - onde está a cara dele?" Como seria de esperar, a mãe também grita. A cabeça do bebé saí de forma descontrolada e o períneo dela explode. Explico-lhes que os bebés nascem geralmente com a cara para baixo.

Este é um bom exemplo do género de histórias divertidas deste livro. Adam Kay acaba por seguir a especialidade de obstetrícia pelo que a maioria das histórias se referem a partos e grávidas. Acho mesmo que toda a gente que já esteve no lugar de paciente (ou seja, todos nós), devia ler este livro.

(...) a enfermeira-parteira pergunta à mãe se ela quer que o bebé receba uma injeção de vitamina K. (...) Ela recusa a vitamina K porque "as vacinas provocam artrite". A parteira explica-lhe pacientemente que a vitamina K não é uma vacina, é uma vitamina, e que é muito importante para a coagulação do sangue do bebé. Além disso, diz-lhe que não provoca artrite. Talvez ela quisesse dizer autismo, que também não é causado por vacinas. E esta injeção não é uma vacina.

"Não", diz a mãe, "Não vou por em risco a saúde do meu bebé".

Adam Kay tem mais dois livros publicados além deste, que só estão disponíveis em inglês.

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