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MAR DE MAIO

Livros, viagens e tudo o que nos acrescenta

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A Coreia do Norte pelo olhar de Hyeonseo Lee

24.04.18 | Inês

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Hyeonseo Lee e a mãe tinham acabado de levantar dinheiro num multibanco. Era o primeiro dia da mãe na Coreia do sul. Para trás, tinha ficado a vida na Coreia do Norte. Hyeonseo avança pela rua e repara que a mãe ficou para trás, parada a olhar o multibanco.

“Nunca poderia imaginar uma coisa destas - foi o seu comentário.

Pensou que lá atrás, escondido dentro da parede, estava um caxeiro muito pequenino que contava as notas a uma velocidade vertiginosa.

- Coitado, preso ali dentro sem ter uma janela.

Omma (mãe), é uma máquina.”

Lee contou esta história, entre muitas outras, no National Geographic Summit. A plateia riu-se.

“Tem graça, sim. Eu também me ri. Mas esta história mostra que sair da Coreia do Norte não é como sair de qualquer outro país. É como passar de um universo para outro. Por muito longe que vá, nunca me sentirei totalmente liberta."

 

A ativista continua, num inglês com sotaque forte, a contar a sua história. Gostei tanto de a ouvir que não resisti a comprar o livro de memórias que escreveu "A mulher com sete nomes". A primeira surpresa chegou logo nas primeiras páginas. Lee conta a história de como os pais se conheceram numa viagem de comboio, de como se apaixonaram e de como um amor inicialmente proibido pelos pais de ambos acabou por vingar. A história não podia ser mais banal. É só a narrativa mais recorrente de todos os filmes, músicas e peças de teatro românticas desde sempre. Pelos vistos, até na Coreia do Norte.

 

O livro está dividido em três partes. Hyeonseo começa por narrar a infância e adolescência vividas na Coreia do Norte, que termina com a fuga para a China, onde passa longos e penosos anos a viver ilegalmente e, por fim, a sua vida livre na Coreia do sul.

 

Desde a sua entrada na escola primária que Hyeonseo, assim como todos os norte-coreanos, é ensinada a seguir todas as normas do regime. Venerar o grande líder, odiar os norte-americanos e pôr de lado a individualidade em nome do bem comum. Mais do que isso, é na escola que as crianças aprendem a vigiar-se umas às outras e a criticar alguns comportamentos menos corretos dos colegas o que, no futuro, os tornará denunciadores dos seus próprios vizinhos, familiares e amigos.

Não nos era permitido ter ideias próprias, nem discutir ou interpretar qualquer assunto.

 

Hyeonseo vê coisas terríveis nos anos 90 quando a fome atinge o país em força. Mas é, apesar de tudo, privilegiada porque a sua família tinha rendimentos acima da média. Foge para a China mais por curiosidade, do que por necessidade. Quer ver o mundo para lá da escuridão da Coreia do Norte. Já tinha ideia, antes de ler o livro, que a China deportava os norte-coreanos para o seu país de origem onde são executados ou levados para campos de concentração. Ainda assim, não deixa de ser chocante o trabalho a que se dão para os encontrar e a forma fria e insensível como o fazem. Hyeonseo descobre que a vida como fugitiva na China não é melhor do que a vida na Coreia do norte.

 

Por fim, Hyeonseo consegue ir viver para a Coreia do Sul. No entanto, a adaptação a uma vida de liberdade como refugiada norte-coreana é bem mais difícil do que pensara.

Mesmo para aqueles que lá sofreram horrores inimagináveis e conseguiram fugir ao inferno, a vida no mundo livre pode ser tão difícel que se vêem obrigados a lutar com denodo para se adaptarem e serem felizes. Alguns, poucos, desistem e optam por regressar para aquele mundo de trevas, como eu me senti inúmeras vezes tentada a fazer.

 

A certa altura da palestra no evento da National Geographic Hyeonseo confessa saber que o governo norte-coreano está atento ao que faz e que já apareceu referida no canal oficial do governo como uma inimiga. Acha que não pode tomar a vida como garantida. Continua a dar palestras e a contar a sua história para fazer passar a mensagem de que, além da questão das armas nucleares, é preciso falar dos direitos humanos dos norte-coreanos. A liberdade é (devia ser) um direito humano fundamental.

 

Deixo aqui a TED talk que deu origem ao livro e ao trabalho de Hyeonseo Lee como ativista:

As histórias do National Geographic Summit

17.04.18 | Inês

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O ano passado fui ao National Geographic Summit para ouvir Jane Goodall e acabei surpreendida com a palestra de Jodi Cobb. Na quarta-feira passada, e sem nenhum orador que quisesse tanto ouvir como Jane Goodall, entrei no Coliseu dos Recreios sem expectativas.

 

O que se seguiu foi um dia inteiro de aprendizagem sobre temas que vão desde o espaço aos conflitos na Terra, desde a vida selvagem do Okavango em África até uma plantação de cocaína no Perú (mais sobre isto em baixo). No fundo, este Summit é uma experiência de imersão naquelas pessoas e histórias extraordinárias que vemos nos documentários e nas TED talks. Uma experiência que pode ser resumida por este verso de Sophia de Mello Breyner dito ao início da manhã:

Vemos, ouvimos e lemos. Não podemos ignorar.

 

Ler mais )

 

As saudades somos nós que as temos

10.04.18 | Inês

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Há umas semanas correu a notícia de que o Toys "R" Us vai fechar todas as lojas nos Estados Unidos. Ainda não é certo o que vai acontecer às lojas de Portugal e Espanha. A única vez que fui ao Toys "R" Us serviu para comprar uma cozinha de brincar que pedinchei durante longos meses e depois ganhou lugar cativo num corredor lá de casa, onde nunca mais lhe toquei. Os catálogos da loja eram para ser rabiscados até à exaustão com todos os brinquedos que queria receber no Natal.

 

O certo é que o (eventual) desaparecimento do Toys "R" Us é o apagar de um marco da infância de muita gente. Um de muitos, que se junta ao fim dos clubes de vídeo, aos telefones com fios e com aquela rodinha para escolher os números, aos tamagochi, às cassetes de música e VHS, aos candeeiros de lava, aos quartos cheios de posters na parede, ao gameboy color, ao msn, àos Nokia 3310 e ao jogo do snake e a tantas outras coisas que as gerações mais novas desconhecem.

 

Se calhar, já não vão saber o que é o Toys "R" Us, nem a vida sem telemóveis e com acesso à internet só em casa, num computador fixo, e imagino que vão fazer cara feia quando alguém lhes explicar que, em vez da netflix, costumava haver um sítio onde se podia alugar um dvd (se mais ninguém o tivesse alugado antes de nós) por 48 ou 72 horas (se não pagávamos multa). Mas também não vão ter quaisquer saudades, porque não podem sentir falta de algo que não conheceram. No fundo, não perderam nada.

Siddhartha de Hermann Hesse: temos mesmo de viver

03.04.18 | Inês

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Confesso que não sabia quem era Hermann Hesse até há muito pouco tempo. O autor alemão ganhou o prémio Nobel da Literatura em 1946 e, entre os vários livros que escreveu, Siddhartha é dos mais conhecidos. Neste livro, Siddhartha, nascido na Índia e filho de um brâmane, percorre uma longa viagem existencial, experimentando de tudo um pouco em busca da paz espiritual.

 

O personagem procura a felicidade nestes dois extremos: primeiro entregando-se à doutrina budista e vivendo sem nada e depois, renunciando à mesma e entregando-se a uma vida de trabalho e prazer e, no fundo, ao mundo capitalista e ocidental. Vive tudo isto para descobrir que a felicidade não está em nenhum dos extremos e decidir-se pelo equilíbrio entre estes dois mundos.

 

Entre as muitas mensagens do livro, talvez esta nem seja a mais importante, mas é a que me fez mais sentido. Temos mesmo de viver. Não contam as opiniões dos outros nem a sua experiência. Não tanto, pelo menos, como a nossa própria opinião e a nossa própria experiência. Temos de viver as coisas, de cometer os erros, de bater com a cabeça na parede, para encontrarmos o nosso próprio caminho.