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MAR DE MAIO

Livros, viagens e tudo o que nos acrescenta

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Homens imprudentemente poéticos de Valter Hugo Mãe

Inês, 10.12.19

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De Valter Hugo Mãe só tinha lido «O Apocalipse dos trabalhadores» e não gostei nada. Não gostei da história, nem dos personagens e achei que a escrita poética transformada em prosa do autor não se enquadrava naquele livro. Anos volvidos, deparei-me com esta capa (do ilustrador Júlio Dolbeth) na biblioteca e decidi dar uma segunda oportunidade ao autor. E ainda bem. Este livro é absolutamente maravilhoso.

«Homens imprudentemente poéticos» conta a história do artesão Itaro e do oleiro Saburo que são vizinhos e inimigos num Japão antigo. Esta é uma história feita de bons personagens cujo carácter vai sendo testado à medida que os capítulos avançam. E é também uma história de lendas, de sentidos e emoções. Ao contrário do outro livro que já tinha lido do autor, nesta história a prosa poética de Valter Hugo Mãe encaixa na perfeição.

Um pormenor importante que traz densidade a esta história é que o autor a faz acontecer no limiar da floresta de Aokigahara, uma floresta lindíssima que ganhou fama pelo alto número de suicídios que lá ocorrem. O problema começou, segundo consta, com um livro publicado nos anos 60 em que o casal da história escolhia o local para se suicidar.

Enfim, com duas experiências de leitura tão díspares deste autor, fico na dúvida sobre em que livro de Valter Hugo Mãe devo apostar a seguir. Se tiverem sugestões/opiniões sobre este ou outros livros do autor deixem nos comentários :)

O sentido do fim de Julian Barnes

Inês, 03.12.19

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Estou um bocadinho zangada com este livro, se é que podemos pôr as coisas nesses termos. Trouxe-o da biblioteca porque era pequeno (150 páginas), tinha um título chamativo e uma capa bonita. Queria uma leitura rápida e uma boa história. Senti-me enganada. A história é boa, sim, mas também é crua, visceral, brutalmente honesta de uma forma que me obrigou a pousar o livro várias vezes para assimilar as páginas.

...Adrian também dominou a própria vida, comandou-a, tomou-a nas mãos (...) Quão poucos de nós podem dizer que fizeram o mesmo? Vamo-nos safando, deixando a vida acontecer-nos, acumulamos sucessivamente uma provisão de memórias. Há a questão da acumulação (...) só o simples adicionar e acrescentar de vida. E, como indicou o poeta, há uma diferença entre soma e desenvolvimento.

«O sentido do fim» conta-nos a história de um grupo de amigos de liceu. O narrador é Tony que está agora na última fase da sua vida e se vai confrontar com as memórias da sua amizade com Adrian e o rumo drástico da vida deste amigo.

Mas o tempo... o tempo primeiro fixa-nos e depois confunde-nos. Pensávamos que estávamos a ser adultos quando estávamos só a ser prudentes. Imaginávamos que estávamos a ser responsáveis, mas estávamos só a ser cobardes. Aquilo a que chamávamos realismo acabava por ser uma maneira de evitar as coisas e de não as enfrentar. Tempo... deem-nos tempo suficiente e as nossas  decisões mais fundamentadas parecerão instáveis e as nossas certezas... bizarras.

Não quero revelar muito mais até porque, só mesmo no finalzinho é que a história faz todo o sentido. Acredito que muitos de vós já tenham lido este livro (já foi editado em 2011) e até já foi adaptado a filme (que ainda não vi). Mas, se não leram, recomendo muito.

Está esgotado nas livrarias, mas há sempre a biblioteca, os alfarrabistas, o olx, o custojusto, o coisas.com, a bibliofeira e os grupos de troca e venda de livros em segunda mão no facebook.

Bald and bankrupt: o melhor canal de viagens no Youtube

Inês, 29.11.19

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Descobri este canal de Youtube depois de ter pesquisado mais sobre Chernobyl (após ter lido o livro e visto a série da HBO). O autor tem um vídeo em que explora a zona de Chernobyl pertencente à Bielorrússia. O resultado é um cenário maioritariamente abandonado mas o autor acaba por conhecer e conversar com uma mãe e um filho que vivem... numa situação absolutamente isolada.

Ainda mais impressionante é o vídeo em que, na mesma região, conhece um homem que vive numa casa miserável, no meio da floresta, sem electricidade, num local que já foi cheio de vida e que agora está completamente abandonado. Mais tarde, o autor volta à mesma casa e ao mesmo sítio neste vídeo.

Há muitos outros vídeos interessantes no canal passando por regiões muito pouco conhecidas (e visitadas) como a Moldávia ou zonas do interior da Rússia, entre muitos outros. 

Eu adoro seguir conteúdo de viagens no Youtube, mas a maioria limita-se a mostrar uma sucessão de paisagens bonitas em destinos paradisíacos e tão turísticos que se tornam demasiado repetitivos. O canal Bald and Bankrupt, além de mostrar sítios muito pouco turísticos, concentra-se em conhecer pessoas e contar histórias. E, isso, faz toda a diferença.

Vale (muito) a pena ir à exposição do Harry Potter

Inês, 26.11.19

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Tenho sempre inveja quando alguém diz que vai ler os livros de Harry Potter pela primeira vez. Já cheguei tarde à saga uma vez que li os livros aos vinte anos (e escrevi aqui sobre isso) mas adorei. Vi os filmes nessa altura também pela primeira vez e foi maravilhoso. E essa magia é irrepetível. Depois disso ainda li "Harry Potter e a criança amaldiçoada" e, apesar de ter gostado, simplesmente não é a mesma coisa. Vi os filmes dos monstros fantásticos e, lá está, gostei mas não é a mesma coisa. Essa sensação de entrar num mundo onde nos sentimos em casa repete-se a rever os filmes pela milésima vez ou quando fui ver a orquestra a tocar "Harry Potter e o prisioneiro de Azkaban" no meo arena (o eterno Pavilhão Atlântico). Uma experiência que recomendo muito.

Por isso, achei que devia dar uma oportunidade à exposição sobre Harry Potter que está no pavilhão de Portugal, em Lisboa, até Abril. E ainda bem que o fiz. A exposição consiste em cenários dos filmes (como a cabana do Hagrid), em roupas usadas pelos atores, numa série de objetos usados nos filmes e, provavelmente a minha parte preferida, muitos recortes do profeta diário espalhados pelos cenários. Uma das notícias dava conta da diminuição do preço das casas em Hogsmeade depois do avistamento de devoradores da morte. Se isto não é atenção ao detalhe... Enfim, apesar do preço alto dos bilhetes, recomendo muito a experiência para todos os fãs da saga.

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Numa casca de noz de Ian McEwan

Inês, 19.11.19

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Este foi o primeiro livro que li de Ian McEwan que tem alguns livros bem mais conhecidos como «Expiação» e «Na praia de Chesil», ambos adaptados (e muito bem) ao cinema. «Numa casca de noz» era, além do único livro do autor que havia na biblioteca, o que tem uma premissa mais estranha. Se não vejamos, este livro conta a história de uma mulher grávida (Trudy) que pretende, em conjunto com o amante (e cunhado) Claude matar o marido e pai da criança. O narrador é, nada mais nada menos, do que o feto. Além de narrar este mundo de adultos complicados ao qual está prestes a juntar-se, o narrador também tece considerações sobre o mundo e as notícias da atualidade.

Quem sabe o que é a verdade? É difícil reunir indícios por mim próprio. Cada premissa é acompanhada ou anulada por outra. Como todas as pessoas, aceitarei o que quiser, o que me convier.

É certo que a história é dramática, o narrador é invulgar mas, de alguma forma, resulta. É um livro pequeno (tem menos de 200 páginas) que se lê rapidamente e que nos prende até ao fim da história, sem sabermos muito bem de que lado devemos ficar ou por quem torcer. Há momentos em que parece um drama, outros em que parece uma tragédia, outros em que parece que estamos a ler uma peça de teatro (qualquer semelhança com Hamlet não é pura coincidência).

Resumindo, é um livro bom (muito bom) que recomendo se quiserem fugir às leituras habituais e experimentar algo mais "fora da caixa".