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MAR DE MAIO

Livros, viagens e tudo o que nos acrescenta

13
Jun17

Uma manhã com Jodi Cobb

jodi-cobb-national-geographic-summit.jpg

Fui ao National Geographic Summit para ouvir Jane Goodall. Sabia que havia dois oradores antes dela, mas não pesquisei nada sobre eles. A primeira pessoa a subir ao palco foi Jodi Cobb. Jodi é fotógrafa da National Geographic há algumas décadas. Fala como quem tem o maior prazer em partilhar a sua história. E tem graça, muita graça. Vai mostrando fotografias das reportagens mais marcantes da sua carreira. Foi a primeira mulher fotógrafa a ser contratada pela National Geographic, a primeira a fotografar a China, a retratar a vida secreta das geishas no Japão, a primeira a fotografar as mulheres na Arábia Saudita (após obter autorização dos maridos), a primeira a fotografar diversas tribos em lugares recônditos.

Tornei-me fotógrafa porque queria mudar o mundo. Mas isso revelou-se mais difícil do que eu pensava.

 

Algures na passagem das fotografias, há uma imagem de Donald Trump. Foi tirada há muitos anos atrás quando era ele quem mandava nos concursos miss Universo. Trump está a entrar numa sala e as modelos reviram os olhos. A plateia ri-se.

 

Jodi passa para a fotografia seguinte e começa a falar de temas mais difíceis, quase impossíveis, como o tráfico humano. Jodi correu o mundo durante meses numa reportagem sobre o tráfico de pessoas. Quando regressou aos Estados Unidos percebeu que o tráfico humano também estava ali, junto à fronteira com o México, onde americanos atraem jovens mexicanas a passar a fronteira em promessa de trabalho, mas acabam como escravas sexuais. E nos campos agrícolas, onde muitos mexicanos acabam escravos dos seus patrões para saldar dívidas que nunca conseguirão pagar.

 

Às tantas penso que não é possível. Não é possível que uma pessoa que esteve meses a fio a retratar temas tão difíceis, tão desumanos, a entrevistar traficantes de pessoas, a viver com medo de represálias e a chorar todos os dias seja capaz de contar estas histórias, as suas histórias, com leveza e com graça. Mas Jodi Cobb é assim.

 

É verdade, fui ao National Geographic Summit para ouvir Jane Goodall mas saí fascinada com a graça e a resiliência da Jodi Cobb. Enfim, se não tirarem nada deste texto, fiquem com a frase que acompanhou Jodi ao longo de toda a sua vida.

O que posso fazer agora que nunca fiz antes?

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instagram de Jodi Cobb.

 

vídeo sobre a sua presença no Nat Geo Summit em Lisboa.

06
Jun17

Uma manhã com Jane Goodall

jane-goodall.jpg

Há dois anos li um livro de Jane Goodall, de título “Reasons for hope”. Foi a minha introdução a Jane Goodall. Já conhecia partes da sua história, mas este livro é muito mais do que isso:

How healing it was to be back at Gombe again, and by myself with the chimpanzees and their forest. I had left the busy, materialistic world so full of greed and selfishness and, for a little while, could feel myself, as in the early days, a part of nature. I felt very much in tune with the chimpanzees, for I was spending time with them not to observe, but simple because I needed their company, undemanding and free of pity.

 

Há umas semanas fui ouvir Jane Goodall ao National Geographic Summit. O Tivoli estava cheio e nunca ouvi tanto silêncio num teatro com tanta gente. Jane tinha 27 anos quando viajou três semanas num barco rumo à Tanzânia para visitar uma amiga e acabou no meio da floresta do Gombé a estudar chimpanzés. Anos mais tarde percebeu que os chimpanzés podiam desaparecer e começou a viajar pelo mundo para alertar as pessoas para a sua conservação. Jane tem 83 anos. Fala com a paciência de quem conta a mesma história pela centésima vez, com o mesmo propósito e a mesma paixão de há tantos anos atrás.

 

Jane fala da sua infância no Reino Unido, de África, do que aprendeu com os chimpanzés e de como se desiludiu também, por afinal poderem ser tão violentos como os seres humanos. No final, Jane mostra um vídeo (este) onde é abraçada por um chimpanzé reabilitado e devolvido à natureza. Fala dos estragos que temos causado no planeta mas não quer terminar de forma negativa. No fim, Jane volta ao livro e partilha as suas razões para (ainda) acreditar no ser humano.

Each one of us matters, has a role to play, and makes a difference. Each one of us must take responsibility for our own lives, and above all, show respect and love for living things around us.

 

Voltei a pensar por estes dias naquela manhã passada no Tivoli. Pensei em Jane Goodall, para quem a decisão dos Estados Unidos de sair do acordo de Paris deve ser um duro golpe. Jane dedicou uma vida inteira a caminhar no sentido oposto (e para alguém com 83 anos é mesmo uma vida inteira!) Pensei no ambiente de admiração e de inspiração que se viveu no Tivoli naquela manhã que foi, certamente, uma das melhores experiências da minha vida.

We still have a long way to go. But we are moving in the right direction. If only we can overcome cruelty, to human and animal, with love and compassion we shall stand at the threshold of a new era in human moral and spiritual evolution—and realize, at last, our most unique quality: humanity.

__

TED talk de Jane Goodall.

 

post no Brain Pickings sobre o livro "Reasons for hope".

 

Um post sobre o documentário "Before the flood" de Leonardo DiCaprio.

02
Nov16

Leonardo DiCaprio e o documentário «Before the Flood»

Before the Flood.jpg

Passou ontem na RTP1 o documentário de Leonardo DiCaprio sobre os últimos 3 anos, em que viajou pelo mundo à procura de soluções para as alterações climáticas. Acho que é difícil ficar indiferente ao cenário negro, mas realista que o documentário vai apresentando. É que é preciso fazer muita coisa… e quase ninguém faz nada.

 

A começar pelos políticos. Muitos deles nem sequer acreditam que o aquecimento global seja uma realidade, sendo um deles o possível próximo presidente dos Estados Unidos (Donald Trump), o que é muito preocupante. Cimeiras como a de Paris servem para preencher relatórios com promessas de targets a cumprir, mas não obrigam efetivamente os países a cumprirem-nos.

 

Mas deixemos de lado a parte política. Isso é importante, mas as ações individuais também. Não tenho grande moral para falar sobre o assunto e até hesitei em escrever este post… A frase que mais me marcou no filme foi quando, logo no início, DiCaprio dizia que quando se começava a falar de alterações climáticas, toda a gente se aborrecia. É do género “fogo, lá vêm eles com as alterações climáticas outra vez…” E eu percebo. Porque simplesmente não nos afeta. Sabemos que está a acontecer, vemos o tempo a mudar de ano para ano (ou não estivesse um calor de Verão no final de Outubro) mas isso (ainda) não prejudica a nossa vida.

 

Na teoria, importamo-nos (quase) todos com o aquecimento global. Mas na prática não fazemos nada. Não estamos dispostos a mudar o nosso estilo de vida por causa disso. E eu não sou exceção. O computador portátil (de onde escrevo este post) e as minhas duas viagens de avião por ano já ultrapassam a quantidade de emissões de carbono a que tenho direito por ano. Sim, só isso. Fora o resto. E isso mostra o quanto o problema é grave e difícil de resolver.

 

Na prática, não parece assim tão difícil. Não andar de avião. Nem de carro. Não comer carne vermelha. Comprar produtos locais. Mudar o menos possível de computador. Usar painéis solares. Mas é, porque implica mudarmos completamente de estilo de vida. Por um lado, não estamos dispostos a isso. Por outro, enquanto não houver um movimento conjunto da sociedade para aplicar tudo isto, continuamos todos a fazer (quase) nada.

 

Mas sim, há sempre coisas que podemos (e devemos) fazer. É quase impossível vivermos abaixo da nossa quota parte de emissões de carbono por ano. Mas podemos diminui-las. Não abdico do meu computador, nem de andar de avião, mas posso deixar de comer carne de vaca (já deixei), comprar mais produtos localmente e diminuir a minha pegada aí, por exemplo. Pelo menos, já estou a pensar no assunto e a fazer alguma coisa, mesmo que ainda seja (muito) pouco.

 

O documentário está disponível no Youtube, para quem não quiser ficar indiferente.

24
Out16

Não era para mim

não era para mim.jpg

If a book is tedious to you, don’t read it; that book was not written for you.

 

A frase é de Jorge Luís Borges (vi aqui) e faz-me cada vez mais sentido. Nos últimos tempos tenho pegado em livros, começado a ler livros e largado livros. O último foi "O Apocalipse dos Trabalhadores" de Valter Hugo Mãe. É o primeiro livro que leio do escritor. Gostei da escrita, mas não me interessei pelas personagens nem pela história. Não faz mal, não foi escrito para mim. Parei a meio.

 

Ler o livro certo na altura certa resulta sempre nas melhores experiências de leitura. Já perdi a conta aos livros que começei a ler e não gostei, só para voltar a tentar meses ou anos mais tarde e adorar (aconteceu-me com este, por exemplo). Um livro que não nos entusiasma numa determinada altura pode tornar-se num dos melhores que já lemos, se acertarmos no tempo certo para o fazer.

 

"Não era para mim" vai passar a ser a minha resposta quando me perguntarem sobre filmes, livros, músicas aos quais reconheço qualidade mas que, ainda assim, não me acrescentaram nada.

 

Quanto aos livros, cada vez concordo mais com as palavras de Doris Lessing sobre a melhor forma de ler:

There is only one way to read, which is to browse in libraries and bookshops, picking up books that attract you, reading only those, dropping them when they bore you, skipping the parts that drag — and never, never reading anything because you feel you ought, or because it is part of a trend or a movement. Remember that the book which bores you when you are twenty or thirty will open doors for you when you are forty or fifty — and vice-versa. Don’t read a book out of its right time for you.

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