Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

MAR DE MAIO

Livros, viagens e tudo o que nos acrescenta

A cura para tudo: um bom livro e chocolate


Inês

05.09.17

O ano passado passei um mês a viver num parque de campismo para um projeto de voluntariado. No dia em que cheguei, sem saber o que esperar e assustada com a perspetiva daquela experiência ter sido uma péssima ideia, conheci a Mathilda. Uma rapariga francesa que estava no parque, sentada numa cadeira de madeira, com um livro na mão e um gato bebé no colo.

 

- Que mais é preciso? – disse ela. Foi nesse momento que todos os meus receios se evaporaram, tinha sido uma ótima ideia. Para além disso, um dos rapazes do acampamento (um holandês) sabia fazer um bolo de chocolate para campismo. Como assim? Bom, não vai ao forno, não precisa de batedeira e não dá trabalho nenhum. Não há vez em que faça este bolo que não me lembre daquelas pessoas, dos livros que li por ali (como este) e dos (muitos) gatos bebés do parque. Por isso, aqui fica uma sugestão de um bom livro e um bom e fácil bolo de chocolate (para campismo).

insustentável-leveza-do-ser-milan-kundera.JPG

O castelo de vidro de Jeannette Walls


Inês

20.07.17

Fiquei curiosa com este livro quando vi o trailer do filme, a estrear em Portugal depois do Verão. Mais ainda quando, no início do trailer, começa a tocar “Sleep on the floor” dos The Lumineers. Uma das minhas músicas preferidas. Como se não bastasse, ainda conta com Brie Larson e Naomi Watts e o realizador é Destin Daniel Cretton, que também fez Short term 12.

castelo-de-vidro.JPG

O livro conta a história da família de Jeannette Walls desde a sua infância até à vida adulta. Os pais são nómadas e viajam de cidade em cidade com os quatros filhos. O pai é alcoólico, a mãe é artista e ambos renegam a responsabilidade de educar os filhos que ficam quase sempre entregues a si próprios.

 

Perguntei-me se o fogo viera para me tentar apanhar. Perguntei-me se todo o fogo estaria relacionado, da mesma maneira que o pai dizia que todos os humanos estavam relacionados (...) Não tinha resposta para estas perguntas, o que sabia era que vivia num mundo que, a qualquer momento, podia desatar a arder.

 

Jeannette é jornalista e isso nota-se na sua escrita, limita-se a contar aquilo que aconteceu de forma crua. Há alguns apontamentos sobre como se sentiu ou o que pensou na altura, mas são raros. No fim de contas, este livro é uma mão cheia de histórias de uma família disfuncional.

 

Qual é o papel que a nossa infância tem no resto da nossa vida? Até que ponto somos influenciados pelas atitudes dos nossos pais? Estariam aqueles miúdos melhor se tivessem sido entregues aos serviços sociais? Deixar as conclusões para o leitor é o triunfo deste livro. Nada nos é imposto. As histórias são estas e somos livres de sentir e de pensar o que quisermos. Somos livres de gostar dos pais destes miúdos ou de os detestar, de nos indignar-mos com a sua irresponsabilidade, de rirmos e de chorarmos.

 

Este livro é, para mim, sobre a forma como achamos que conhecemos as pessoas que nos são próximas, mas com o tempo vamos percebendo que não é assim tão simples. As personagens são reais, humanas e complexas. Tanto se desfazem como se compõem, numa teia de eventos que não tem de fazer sentido. Afinal, esta é uma história real, da primeira à última página.

 

À medida que a história avança, a vontade é acelerar a leitura para saber como termina. O final é como tudo o resto neste livro - cru. Levanta muitas perguntas e não tem respostas para nós. Talvez elas não existam. Talvez a busca incessante pela ordem só nos faça ficarmos mais perdidos no caos. Enfim, leiam o livro e decidam por vocês. O filme (só) chega depois do Verão mas, se fizer justiça ao trailer (e ao livro) será um dos melhores filmes deste ano.

Por aqui e por ali de Bill Bryson


Inês

22.06.17

Há dois tipos de pessoas no mundo. As que decidem percorrer um trilho selvagem (com ursos) e, numa livraria, passam ao lado de um livro sobre ataques de ursos e as que compram o livro, o devoram pela noite dentro e se demoram em cada detalhe da história de pessoas atacadas num sítio onde estão prestes a caminhar.

 

Bryson pertence ao segundo grupo. E ainda bem. É isso que faz de “A walk in the woods” (ou “Por aqui e por ali”, uma tradução cujo sentido me escapa) um dos meus livros de viagens preferido, até ao momento.

por-aqui-por-ali-bill-bryson.JPG

Bill Bryson decide caminhar o Trilho dos Apalaches, que vai da Geórgia ao Maine, na costa leste dos Estados Unidos, com um amigo (Katz) que não vê há décadas. A contracapa da versão portuguesa resume bem esta aventura:

Enfrentando condições climatéricas extremas, insetos implacáveis, mapas pouco fiáveis e um companheiro instável, que acima de tudo gostava de ir para um motel ver os Ficheiros Secretos, é com grande esforço que Bryson percorre a natureza selvagem para conseguir realizar o sonho de uma vida: não morrer ao ar livre.

 

A decisão de caminhar na natureza selvagem é algo que me fascina. Já li Livre de Cheryl STraied onde ela caminha pelo Pacific Crest Trail, um trilho na costa oeste dos Estados Unidos e Into the wild de John Krakauer (este com um final trágico). Caminhar na natureza selvagem implica carregar com tudo aquilo de que se vai precisar durante semanas às costas (incluindo comida, tenda, saco-cama, roupa, enfim tudo), tomar banho em rios ou lagos (se o tempo o permitir, caso contrário implica não tomar banho) e, resumindo, não ter qualquer contacto com a civilização.

Se há algo que o Trilho dos Apalaches nos dá é a possibilidade de chegar ao êxtase com muito pouco, algo que nos daria bastante jeito na vida quotidiana.

 

Bryson vai descrevendo caminhadas por montanhas e florestas, em condições de neve e de calor. As descrições da caminhada e das conversas e aventuras entre os dois fizeram-me sempre rir. No entanto, arrisco-me a dizer que a melhor parte são todos os desastres que o autor imagina e que, felizmente, nunca chegam a acontecer. Estes envolvem pessoas comidas por usos negros (parece que os pardos são mais simpáticos), pessoas que se perdem e, em pânico, tomam decisões sem sentido que acabam por lhes custar a vida, ataques de hipotermia, assassinos em série, entre outros. Tudo o que possa correr mal num caminhada pela natureza selvagem acontece, pelo menos na imaginação de Bryson.

 

Resumindo, recomendo a leitura a quem estiver à procura de algo leve, que nos faz dar mais valor à natureza selvagem (e aos ursos que a habitam).

Uma manhã com Jodi Cobb


Inês

13.06.17

jodi-cobb-national-geographic-summit.jpg

Fui ao National Geographic Summit para ouvir Jane Goodall. Sabia que havia dois oradores antes dela, mas não pesquisei nada sobre eles. A primeira pessoa a subir ao palco foi Jodi Cobb. Jodi é fotógrafa da National Geographic há algumas décadas. Fala como quem tem o maior prazer em partilhar a sua história. E tem graça, muita graça. Vai mostrando fotografias das reportagens mais marcantes da sua carreira. Foi a primeira mulher fotógrafa a ser contratada pela National Geographic, a primeira a fotografar a China, a retratar a vida secreta das geishas no Japão, a primeira a fotografar as mulheres na Arábia Saudita (após obter autorização dos maridos), a primeira a fotografar diversas tribos em lugares recônditos.

Tornei-me fotógrafa porque queria mudar o mundo. Mas isso revelou-se mais difícil do que eu pensava.

 

Algures na passagem das fotografias, há uma imagem de Donald Trump. Foi tirada há muitos anos atrás quando era ele quem mandava nos concursos miss Universo. Trump está a entrar numa sala e as modelos reviram os olhos. A plateia ri-se.

 

Jodi passa para a fotografia seguinte e começa a falar de temas mais difíceis, quase impossíveis, como o tráfico humano. Jodi correu o mundo durante meses numa reportagem sobre o tráfico de pessoas. Quando regressou aos Estados Unidos percebeu que o tráfico humano também estava ali, junto à fronteira com o México, onde americanos atraem jovens mexicanas a passar a fronteira em promessa de trabalho, mas acabam como escravas sexuais. E nos campos agrícolas, onde muitos mexicanos acabam escravos dos seus patrões para saldar dívidas que nunca conseguirão pagar.

 

Às tantas penso que não é possível. Não é possível que uma pessoa que esteve meses a fio a retratar temas tão difíceis, tão desumanos, a entrevistar traficantes de pessoas, a viver com medo de represálias e a chorar todos os dias seja capaz de contar estas histórias, as suas histórias, com leveza e com graça. Mas Jodi Cobb é assim.

 

É verdade, fui ao National Geographic Summit para ouvir Jane Goodall mas saí fascinada com a graça e a resiliência da Jodi Cobb. Enfim, se não tirarem nada deste texto, fiquem com a frase que acompanhou Jodi ao longo de toda a sua vida.

O que posso fazer agora que nunca fiz antes?

__

instagram de Jodi Cobb.

 

vídeo sobre a sua presença no Nat Geo Summit em Lisboa.

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2016
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2015
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D