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MAR DE MAIO

Livros, viagens e tudo o que nos acrescenta

20
Jul17

O castelo de vidro de Jeannette Walls

Fiquei curiosa com este livro quando vi o trailer do filme, a estrear em Portugal depois do Verão. Mais ainda quando, no início do trailer, começa a tocar “Sleep on the floor” dos The Lumineers. Uma das minhas músicas preferidas. Como se não bastasse, ainda conta com Brie Larson e Naomi Watts e o realizador é Destin Daniel Cretton, que também fez Short term 12.

castelo-de-vidro.JPG

O livro conta a história da família de Jeannette Walls desde a sua infância até à vida adulta. Os pais são nómadas e viajam de cidade em cidade com os quatros filhos. O pai é alcoólico, a mãe é artista e ambos renegam a responsabilidade de educar os filhos que ficam quase sempre entregues a si próprios.

 

Perguntei-me se o fogo viera para me tentar apanhar. Perguntei-me se todo o fogo estaria relacionado, da mesma maneira que o pai dizia que todos os humanos estavam relacionados (...) Não tinha resposta para estas perguntas, o que sabia era que vivia num mundo que, a qualquer momento, podia desatar a arder.

 

Jeannette é jornalista e isso nota-se na sua escrita, limita-se a contar aquilo que aconteceu de forma crua. Há alguns apontamentos sobre como se sentiu ou o que pensou na altura, mas são raros. No fim de contas, este livro é uma mão cheia de histórias de uma família disfuncional.

 

Qual é o papel que a nossa infância tem no resto da nossa vida? Até que ponto somos influenciados pelas atitudes dos nossos pais? Estariam aqueles miúdos melhor se tivessem sido entregues aos serviços sociais? Deixar as conclusões para o leitor é o triunfo deste livro. Nada nos é imposto. As histórias são estas e somos livres de sentir e de pensar o que quisermos. Somos livres de gostar dos pais destes miúdos ou de os detestar, de nos indignar-mos com a sua irresponsabilidade, de rirmos e de chorarmos.

 

Este livro é, para mim, sobre a forma como achamos que conhecemos as pessoas que nos são próximas, mas com o tempo vamos percebendo que não é assim tão simples. As personagens são reais, humanas e complexas. Tanto se desfazem como se compõem, numa teia de eventos que não tem de fazer sentido. Afinal, esta é uma história real, da primeira à última página.

 

À medida que a história avança, a vontade é acelerar a leitura para saber como termina. O final é como tudo o resto neste livro - cru. Levanta muitas perguntas e não tem respostas para nós. Talvez elas não existam. Talvez a busca incessante pela ordem só nos faça ficarmos mais perdidos no caos. Enfim, leiam o livro e decidam por vocês. O filme (só) chega depois do Verão mas, se fizer justiça ao trailer (e ao livro) será um dos melhores filmes deste ano.

22
Jun17

Por aqui e por ali de Bill Bryson

Há dois tipos de pessoas no mundo. As que decidem percorrer um trilho selvagem (com ursos) e, numa livraria, passam ao lado de um livro sobre ataques de ursos e as que compram o livro, o devoram pela noite dentro e se demoram em cada detalhe da história de pessoas atacadas num sítio onde estão prestes a caminhar.

 

Bryson pertence ao segundo grupo. E ainda bem. É isso que faz de “A walk in the woods” (ou “Por aqui e por ali”, uma tradução cujo sentido me escapa) um dos meus livros de viagens preferido, até ao momento.

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Bill Bryson decide caminhar o Trilho dos Apalaches, que vai da Geórgia ao Maine, na costa leste dos Estados Unidos, com um amigo (Katz) que não vê há décadas. A contracapa da versão portuguesa resume bem esta aventura:

Enfrentando condições climatéricas extremas, insetos implacáveis, mapas pouco fiáveis e um companheiro instável, que acima de tudo gostava de ir para um motel ver os Ficheiros Secretos, é com grande esforço que Bryson percorre a natureza selvagem para conseguir realizar o sonho de uma vida: não morrer ao ar livre.

 

A decisão de caminhar na natureza selvagem é algo que me fascina. Já li Livre de Cheryl STraied onde ela caminha pelo Pacific Crest Trail, um trilho na costa oeste dos Estados Unidos e Into the wild de John Krakauer (este com um final trágico). Caminhar na natureza selvagem implica carregar com tudo aquilo de que se vai precisar durante semanas às costas (incluindo comida, tenda, saco-cama, roupa, enfim tudo), tomar banho em rios ou lagos (se o tempo o permitir, caso contrário implica não tomar banho) e, resumindo, não ter qualquer contacto com a civilização.

Se há algo que o Trilho dos Apalaches nos dá é a possibilidade de chegar ao êxtase com muito pouco, algo que nos daria bastante jeito na vida quotidiana.

 

Bryson vai descrevendo caminhadas por montanhas e florestas, em condições de neve e de calor. As descrições da caminhada e das conversas e aventuras entre os dois fizeram-me sempre rir. No entanto, arrisco-me a dizer que a melhor parte são todos os desastres que o autor imagina e que, felizmente, nunca chegam a acontecer. Estes envolvem pessoas comidas por usos negros (parece que os pardos são mais simpáticos), pessoas que se perdem e, em pânico, tomam decisões sem sentido que acabam por lhes custar a vida, ataques de hipotermia, assassinos em série, entre outros. Tudo o que possa correr mal num caminhada pela natureza selvagem acontece, pelo menos na imaginação de Bryson.

 

Resumindo, recomendo a leitura a quem estiver à procura de algo leve, que nos faz dar mais valor à natureza selvagem (e aos ursos que a habitam).

11
Abr17

A graça da coisa

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Se vos falar em Martha Medeiros talvez o nome não vos diga nada. Mas é provável que já tenham lido este poema maravilhoso que começa por Morre lentamente e cujos meus versos preferidos são:

Morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz no trabalho, quem não arrisca o certo pelo incerto atrás de um sonho, quem não se permite, uma vez na vida, fugir dos conselhos sensatos.

Morre lentamente quem não viaja, quem não lê, quem não ouve música, quem não acha graça de si mesmo.

Este poema tornou-se viral há uns anos atrás e por uma daquelas tiradas cruéis da internet foi atribuído erradamente a Pablo Neruda. Na verdade, pertence a esta cronista brasileira.

Quando viajo gosto sempre de comprar, pelo menos, um livro de um autor do país. O Brasil quase foi a exceção porque só me lembrei disso no aeroporto. A opção de escolha não era muita mas assim que reconheci a autora daquele poema na capa de um livro, nem pensei duas vezes.

 

Não sei do que estava à espera, mas não esperava o que encontrei. Parei a cada crónica lida para pensar nas palavras da autora, reli várias crónicas, fui lendo aos poucos para assimilar, pus post-its em dezenas de crónicas para depois tirar algumas passagens e acabei o livro maravilhada.

 

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