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MAR DE MAIO

Livros, viagens e tudo o que nos acrescenta

13
Jul17

O mosteiro budista da Ericeira

mosteiro-budista-ericeira

Há uma estrada entre Mafra e a Ericeira que esconde um segredo. Passei tantas vezes por ali sem fazer ideia de que há um mosteiro budista no pinhal dos Frades. É daqui que, todos os dias, pelo menos um dos monges caminha até à vila da Ericeira para receber uma refeição na sua malga (tigela).

 

Desde que descobri o mosteiro que tinha curiosidade em fazer uma visita. E foi assim que um dia, numa visita de grupo, entrei pela primeira vez numa sala de meditação para conhecer o monge Appamado, um dos seis monges que ali vivem. Não sei o que se esperaria de um monge, mas Appamado respondeu a todas as perguntas com a maior simpatia e tinha um ar de genuína felicidade, algo demasiado raro.

 

Contou-nos um pouco da sua história e do que o levou ao budismo. Explicou que quando estava a tirar a carta de condução ia até à escola e depois apercebia-se de que não se lembrava do caminho que tinha feito para lá chegar (quem nunca?). Então, voltava atrás e fazia o percurso novamente tentando prestar atenção ao que o rodeava, ao caminho que fazia, ao momento em que estava. O resto é história, como se costuma dizer. Mas Appamado acabou por ir para um mosteiro em Inglaterra e por fazer o percurso até ser ordenado monge.

 

O mosteiro da Ericeira segue a tradição tailandesa da floresta de Ajahn Chah. O budismo é, mais do que uma religião, um estilo de vida que é praticado todos os dias pelos monges que ali vivem. Têm poucos pertences, que se resumem à malga onde comem e ao traje cor-de-laranja vivo. Não tocam em dinheiro, sendo que o mosteiro vive de doações e a parte financeira não é gerida pelos monges. Não comem depois do meio-dia e dedicam os dias (os anos se assim quiserem) à meditação e à prática monástica. Digo se assim quiserem porque são livres de deixar o mosteiro e a vida de monges, se o entenderem.

 

Esta visita decorreu há algumas semanas. Já passei pelo pinhal dos Frades vezes sem conta desde então e, de cada vez, tomo nota para prestar mais atenção ao caminho que estou a fazer. Mais vezes do que gostaria de admitir, minutos depois já estou imersa noutros pensamentos. Mas tentar já é um começo.

 

Como visitar

A Green trekker e a Caminhando fazem visitas de grupo ao mosteiro. Além disso, também é possível participar nas meditações (todos os dias às cinco da manhã e às sete e meia da tarde).

13
Jun17

Uma manhã com Jodi Cobb

jodi-cobb-national-geographic-summit.jpg

Fui ao National Geographic Summit para ouvir Jane Goodall. Sabia que havia dois oradores antes dela, mas não pesquisei nada sobre eles. A primeira pessoa a subir ao palco foi Jodi Cobb. Jodi é fotógrafa da National Geographic há algumas décadas. Fala como quem tem o maior prazer em partilhar a sua história. E tem graça, muita graça. Vai mostrando fotografias das reportagens mais marcantes da sua carreira. Foi a primeira mulher fotógrafa a ser contratada pela National Geographic, a primeira a fotografar a China, a retratar a vida secreta das geishas no Japão, a primeira a fotografar as mulheres na Arábia Saudita (após obter autorização dos maridos), a primeira a fotografar diversas tribos em lugares recônditos.

Tornei-me fotógrafa porque queria mudar o mundo. Mas isso revelou-se mais difícil do que eu pensava.

 

Algures na passagem das fotografias, há uma imagem de Donald Trump. Foi tirada há muitos anos atrás quando era ele quem mandava nos concursos miss Universo. Trump está a entrar numa sala e as modelos reviram os olhos. A plateia ri-se.

 

Jodi passa para a fotografia seguinte e começa a falar de temas mais difíceis, quase impossíveis, como o tráfico humano. Jodi correu o mundo durante meses numa reportagem sobre o tráfico de pessoas. Quando regressou aos Estados Unidos percebeu que o tráfico humano também estava ali, junto à fronteira com o México, onde americanos atraem jovens mexicanas a passar a fronteira em promessa de trabalho, mas acabam como escravas sexuais. E nos campos agrícolas, onde muitos mexicanos acabam escravos dos seus patrões para saldar dívidas que nunca conseguirão pagar.

 

Às tantas penso que não é possível. Não é possível que uma pessoa que esteve meses a fio a retratar temas tão difíceis, tão desumanos, a entrevistar traficantes de pessoas, a viver com medo de represálias e a chorar todos os dias seja capaz de contar estas histórias, as suas histórias, com leveza e com graça. Mas Jodi Cobb é assim.

 

É verdade, fui ao National Geographic Summit para ouvir Jane Goodall mas saí fascinada com a graça e a resiliência da Jodi Cobb. Enfim, se não tirarem nada deste texto, fiquem com a frase que acompanhou Jodi ao longo de toda a sua vida.

O que posso fazer agora que nunca fiz antes?

__

instagram de Jodi Cobb.

 

vídeo sobre a sua presença no Nat Geo Summit em Lisboa.

06
Jun17

Uma manhã com Jane Goodall

jane-goodall.jpg

Há dois anos li um livro de Jane Goodall, de título “Reasons for hope”. Foi a minha introdução a Jane Goodall. Já conhecia partes da sua história, mas este livro é muito mais do que isso:

How healing it was to be back at Gombe again, and by myself with the chimpanzees and their forest. I had left the busy, materialistic world so full of greed and selfishness and, for a little while, could feel myself, as in the early days, a part of nature. I felt very much in tune with the chimpanzees, for I was spending time with them not to observe, but simple because I needed their company, undemanding and free of pity.

 

Há umas semanas fui ouvir Jane Goodall ao National Geographic Summit. O Tivoli estava cheio e nunca ouvi tanto silêncio num teatro com tanta gente. Jane tinha 27 anos quando viajou três semanas num barco rumo à Tanzânia para visitar uma amiga e acabou no meio da floresta do Gombé a estudar chimpanzés. Anos mais tarde percebeu que os chimpanzés podiam desaparecer e começou a viajar pelo mundo para alertar as pessoas para a sua conservação. Jane tem 83 anos. Fala com a paciência de quem conta a mesma história pela centésima vez, com o mesmo propósito e a mesma paixão de há tantos anos atrás.

 

Jane fala da sua infância no Reino Unido, de África, do que aprendeu com os chimpanzés e de como se desiludiu também, por afinal poderem ser tão violentos como os seres humanos. No final, Jane mostra um vídeo (este) onde é abraçada por um chimpanzé reabilitado e devolvido à natureza. Fala dos estragos que temos causado no planeta mas não quer terminar de forma negativa. No fim, Jane volta ao livro e partilha as suas razões para (ainda) acreditar no ser humano.

Each one of us matters, has a role to play, and makes a difference. Each one of us must take responsibility for our own lives, and above all, show respect and love for living things around us.

 

Voltei a pensar por estes dias naquela manhã passada no Tivoli. Pensei em Jane Goodall, para quem a decisão dos Estados Unidos de sair do acordo de Paris deve ser um duro golpe. Jane dedicou uma vida inteira a caminhar no sentido oposto (e para alguém com 83 anos é mesmo uma vida inteira!) Pensei no ambiente de admiração e de inspiração que se viveu no Tivoli naquela manhã que foi, certamente, uma das melhores experiências da minha vida.

We still have a long way to go. But we are moving in the right direction. If only we can overcome cruelty, to human and animal, with love and compassion we shall stand at the threshold of a new era in human moral and spiritual evolution—and realize, at last, our most unique quality: humanity.

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TED talk de Jane Goodall.

 

post no Brain Pickings sobre o livro "Reasons for hope".

 

Um post sobre o documentário "Before the flood" de Leonardo DiCaprio.

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