Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

MAR DE MAIO

Livros, viagens e tudo o que nos acrescenta

O que vejo e não esqueço


Inês

02.09.15

Tinha voltado há dias da África do Sul, quando vi este livro à venda. Lembrei-me da vila pobre, muito pobre, que visitei, das casas tão pequenas para tanta gente. Lembrei-me da lenda do “tocolacho” que ouvi, repetida de boca em boca. Reza a história que “tocolacho” é um monstro de forma humana e muito pequeno que entra nas casas das pessoas durante a noite e mata as crianças pequenas da família. A história tem uma explicação simples e cruel. Como as casas não têm aquecimento e o Inverno é muito frio, as pessoas acendem fogueiras que ficam acesas pela noite dentro. O oxigénio sobe, o dióxido de carbono desce e como, normalmente, as crianças dormem no chão, são as que morrem mais rapidamente.

 

Muita gente acredita nesta história mas ninguém se atreve a dizer que já viu o “tocolacho”. Não me esqueci disto porque nem consigo imaginar a dor destas mães a irem dormir todas as noites com medo que os filhos não estejam vivos no dia seguinte…

 

Mas voltando ao livro. Trouxe-o logo para casa. “O que vejo e não esqueço” conta as viagens de Catarina Furtado enquanto Embaixadora de Boa Vontade do Fundo das Nações Unidas para a População, a países como a Índia, Timor, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Moçambique, Haiti, entre outros.

DSCF4732

 «O que vejo e não esqueço» de Catarina Furtado. Participação especial: Pucky.

 

Confesso que achei que algumas partes do livro têm demasiada informação e acabam por se tornar ligeiramente confusas. Por outro lado, gostei muito das partes que se centram na história de determinadas personagens destas viagens. Personagens não, pessoas reais. Que vivem nestes sítios. Que vivem estas vidas. Que têm uma história para contar, que merece ser ouvida. E para ouvir estas histórias, vale absolutamente a pena ler o livro.

 

Deixo as duas passagens de que mais gostei:

 

- Sobre a ideia que os turistas têm sobre os países pobres

Nos países em desenvolvimento, a miséria surge-nos muitas vezes, telegénica, pelo ângulo de uma lente ou um olhar de estrangeiro, atenuada por expressões profundas e sorrisos abertos em rostos bonitos. (…) Oiço recorrentemente esta frase: «Não têm nada, mas as pessoas são tão felizes…», dita em jeito de apaziguamento com a consciência e o coração acalentados. É mentira! Uma criança que brinca na rua, radiante com a sua bola de trapos, sofre as consequências da falta de condições no seu país: vive menos e vive pior, vulnerável à violência, à fome, à doença e tantas vezes sem pais, sem um futuro minimamente promissor.

 

- Sobre o que fica quando alguém morre

As memórias também se perdem. Agarramo-nos a elas quando alguém parte – é o que fica, tudo o que resta – e quase nunca pensamos que também as recordações se apagam, gastam-se com o passar dos anos. De repente, dissipou-se a voz, esqueceram-se as datas, desapareceram os pormenores da história, esfumou-se a silhueta, o brilho. Não pensámos ser possível, mas aconteceu. Só o sentir dura para sempre.

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2016
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2015
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D